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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

18
Mai17

Amar pelos dois


Eremita

Screen Shot 2019-04-28 at 07.16.01.png

(pub) fonte

Já tinha dado pelo arranjo que Viktor Vidović fez do tema dos manos Sobral e Luís Figueiredo, também recomendado pelo Plúvio. A diversidade de versões do tema que podemos encontrar no Youtube é desconcertante. Viktor Vidović é um guitarrista croata, irmão mais velho da famosíssima Ana Vidović, que começou a tocar guitarra com ele.   

 

 

17
Mai17

Violência doméstica: dar a outra face


Eremita

Há uns meses, testemunhei em favor de um acusado de violência doméstica. Ontem, soube que um amigo foi acusado de violência pela mulher. Têm vários filhos e estão juntos há uns vinte anos; lembro-me que o dia do casamento deles foi muito bonito para todos nós. Ao que parece, as "provas" andavam a ser acumuladas há dois anos. Como não cheguei a estreitar relações com quem acusa, que nunca perdeu o estatuto redutor de mulher do meu amigo, sei que me falta objectividade para apreciar o caso. Entre a completa invenção de alguém sem escrúpulos e o relato exacto de uma vítima destroçada, há um espectro complexo de cenários possíveis, cada qual sujeito a interpretações divergentes. Torço pelo meu amigo, com a esperança de que, a ter havido violência, não passou de um raro safanão ou apertão no braço em duas décadas de vida doméstica.

 

As campanhas contra a violência doméstica e o facto de ter passado a crime público são progressos civilizacionais que não resolveram o problema. O número de mulheres todos os anos assassinadas pelos seus companheiros e os resultados de inquéritos sobre o comportamento dos jovens namorados são ainda assustadores. É preciso que a violência doméstica ganhe o estigma de comportamento absolutamente intolerável e vergonhoso, uma evolução que, por causa da componente passional, se afigura mais lenta do que aquela por que passou nas últimas décadas a pedofilia. É preciso também que estejamos atentos ao modo como, ao longo dos anos, a interpretação da lei feita pelos juízes vai sendo feita e se vai mudando a frequência de acusações sem fundamento. É natural que, numa longuíssima primeira fase, ainda que em teoria todos os cidadãos sejam inocentes até prova em contrário, os homens sejam os suspeitos do costume, com toda a interferência na objectividade que esta evidência estatística acarreta, porque eles são efectivamente são os suspeitos do costume. Entretanto, o que pode um homem fazer? Não bater. Não bater nunca. Não bater na mulher, como não se bate num bebé, isto é, reconhecer e interiorizar a assimetria de género que existe nesta matéria, que tem bases biolóicas e sociais, por muito que a sociedade nos diga que as mulheres e os homens são iguais. Não são. A mulher pode dar uma chapada. Ao homem resta oferecer a outra face ou abortar a discussão e fugir. Poderá não o fazer com uma ética de convicção, mas é a ética de responsabilidade que, contra a opinião de marialvas, progressistas e líricos, se recomenda aqui de Ourique. 

16
Mai17

É a metafísica, estúpido!


Eremita

O único ateísmo lógico é defensivo, sempre vigilante mas apenas pontualmente reactivo. Só não seria assim se fosse possível provar não a inexistência de Deus, mas a de uma existência sem metafísica. Ora, a História e a Psicologia dizem-nos já que tal não será nunca possível - pelo menos enquanto a morte for inevitável. Sendo assim, o ateísmo pró-activo, além de patético, sobretudo quanto começa a competir em rituais e símbolos com as religiões, é também contraproducente, porque funciona como uma simples caixa de ressonância que reforça o peso das religiões dominantes ou então cria brechas para que apareçam novas seitas, tendencialmente piores do que as estabelecidas. Centremo-nos pois no essencial, que é ler os autores difíceis. 

13
Mai17

O método de Michel Onfray


Eremita

O judaico-cristianismo triunfa não porque é verdade, mas porque é poder armado, coacção policiária, astúcia política, intimidação marcial. (...) A civilização judaico-cristã constrói-se sobre uma ficção: a de um Jesus que não terá jamais tido outra existência senão alegórica, metafórica, simbólica, mitológica. Não existe desta personagem qualquer prova tangível no seu tempo: com efeito, não se conhece qualquer retrato físico dele, nem na História da Arte que lhe seria contemporânea, nem nos textos dos Evangelhos, onde não se encontra qualquer descrição da personagem. (...) Esta ausência de corpo físico real parece prejudicar um exercício racional conduzido de forma correcta. No entanto, é com base neste puro delírio que se vai construir o pensamento ocidental judaico-cristão. (...)

... o ódio dos corpos e da carne, o desprezo das mulheres e da sexualidade, o convite à castidade ou à abstinência, a noção de uma virgem que dá à luz ou a imitação do cadáver do Corpo de Cristo, eis alguns dos padrões do corpo judaico-cristão, infligidos aos ocidentais durante mais de mil anos e que procedem em linha directa do corpo débil e doente de Paulo de Tarso. (...)

Este [Constantino] homem que não hesita em matar e mandar matar, em dizimar a sua família e a sua comitiva, que elimina a sua própria esposa e o seu filho com o pretexto de que eles teriam mantido uma relação obscura, não é nem um intelectual ou um filósofo, nem um poeta ou um pensador; é um senhor da guerra cínico e brutal, uma máquina de matar e destruir tudo o que se coloque no seu caminho. É ele que vai impor o cristianismo ao Império e fazer dessa pequena seita, escolhida pelas suas características para assegurar o seu poder de monarca único sobre o Império, uma religião planetária. (...)

O fascismo protegeu efectivamente o cristianismo contra a ameaça bolchevique. O cristianismo oficial tornou-se assim o companheiro de estrada de todos os fascismos — o primeiro, de Mussolini, mas também os que se seguiram, como o de Franco em Espanha, o de Hitler na Alemanha, o de Pétain em França, e mais tarde o dos coronéis na Grécia, ou os das ditaduras da América do Sul nos anos 70 (...) As tropas soviéticas libertaram Berlim. Hitler suicidou-se no seu bunker a 30 de Abril de 1945. O que faz o Vaticano? Continua a apoiar o regime derrubado. A Igreja nunca teve uma palavra de condenação das atrocidades nacionais-socialistas após a morte do Fuhrer. Mais: tendo-se mostrado incapaz de ajudar um único judeu a escapar à morte programada pelos nazis, ela organiza uma rede que, através dos mosteiros e de passaportes do Vaticano (...), permite aos dignitários nazis abandonar a Europa e assim escapar aos tribunais. Michel Onfray, Décadence (citações de um artigo de Jan Le Bris De Kerne no Público)

 

Como figura mediática omnipresente nos media franceses, Michel Onfray é imbatível. Nunca o vi a perder um debate, a não ter a última palavra, apesar dos muitos inimigos que foi criando. Infelizmente, é pouco conhecido em Portugal e não existe entre nós uma figura equivalente. Tem a seu favor a sua independência dos políticos e da academia ou qualquer outra instituição (recusou a carreira académica e vive essencialmente dos seus livros e do seu mediatismo, sendo também o fundador de uma universidade popular). Ter chegado a tal posição é admirável, mesmo sendo óbvios alguns truques, como o desprezo mil vezes repetido por Paris e os parisiences, que é populismo puro, apesar de ser evidente que os parisiences são mesmo intragáveis.

 

Se a figura mediática me interessa, a obra não me desperta a menor curiosidade. Michel tem um "método", que enuncia com o orgulho de quem descobriu um erro numa equação de Einstein: ler toda a obra e ler a biografia das figuras que estuda. Para Onfray, isto é um método; não admira que seja desprezado por muitos filósofos de carreira (seguramente com a sua parte de inveja). Michel é também de uma prolixidade altamente suspeita. Há uns anos, tinha publicado mais de 80 livros - entretanto perdi-lhes a conta.  Só há quatro explicações para os casos de prolixidade extrema: 1) génio e capacidade de trabalho; 2) ausência de rigor; 3) longas sínteses de trabalhos alheios; 4) fraude assente no trabalho de nègres. Podemos descartar a quarta hipótese, pois Onfray é famoso há demasiados anos para que um segredo desses não tivesse já dado em escândalo. Sobre as restantes três hipóteses, são esclarecedores os casos em que Onfray se insurge contra as grandes figuras da cultura universal ou ociental, nomeadamente, Freud e Jesus (por desconhecimento de causa, excluo os ataques a figuras de âmbito mais regional, como Sartre). Não li os livros, mas a julgar pelas citações e pelas várias polémicas a que assisti, Onfray é um panfletista que se limita a regurgitar bibliografia. Tudo o que nas passagens citadas escreve sobre Jesus, o cristianismo e o catolicismo já foi escrito por outros há muito tempo e muitas vezes. Se para alguns soa a novidade, é porque o catolicismo continua a ser hegemónico. Mas aqui fica, com alguma pertinência; porque, por comparação,  canonizar pastorinhos é peanuts

13
Mai17

Um fanático calculista


Eremita

Hoje, no Expresso, Henrique Raposo volta a esmagar o leitor com a sua fé e as suas citações da Bíblia, usando como pretexto a reconversão de Clara Ferreira Alves. Raposo não é um reconvertido, é um ateu que se converteu aos 35 anos. Como bom católico, o cronista dá provas de uma pungente humildade, ao diminuir a sua fé quando comparada com a fé de quem foi doutrinado desde a infância. Diz ele que lhe falta o "sexto sentido", que a sua fé é muito intelectualizada. Não surpreende. Raposo já tinha dado vários sinais de que chegou à fé por calculismo, para compor o seu boneco mediático, porque o catolicismo fica a matar num jovem conservador de origem humilde que procura o contraste extremo com o egoísmo e a arrogância ateístas da pós-modernidade. Num país culturalmente católico, que junta meio milhão de pessoas em Fátima e gera uma cobertura mediática só equivalente à de um Europeu ou Mundial de futebol, que ainda não aprendeu a separar bem a Igreja do Estado, que tem uma estação de rádio e uma universidade católicas (ambas influentes), intelectuais católicos a perorar de todos os púlpitos mediáticos, incluindo padres (como o estimável Anselmo Borges, o ubíquo e venerado Tolentino Mendonça, o simpático Bento Domingues ou o inenarrável* Gonçalo Portocarrero de Almada), e em que algumas das mais relevantes figuras públicas são católicos convictos (o Presidente da República e Fernando Santos, por exemplo), Raposo, que escreve no Expresso e fala na Renascença, consegue ver-se como um "cultural warrior" (expressão cara a Bill O'Reilly, ex-apresentador da Fox News) e imagina-se um herói ao afirmar-se em público como católico. Naturalmente, esta percepção explica-se pela perda de influência do catolicismo, que é inegável mas exacerbada por Raposo para criar uma fantasia conveniente, pudesse ele livrar-se do ridículo e da constatação de que é incapaz de aceitar mundividências diferentes da sua, por ele sempre caricaturadas em jeito de desafio.

 

Enfim, admito com embaraço o meu fascínio pelo pensamento esquemático e reactivo desta criatura. Há umas semanas, num longo texto, Raposo escreveu que não sente o apelo de Fátima e que a lógica contratual do pagamento de promessas o irrita, para depois nos dizer que aceita Fátima como uma porta de entrada no catolicismo que ele estima, que é o do Livro, sem lhe ocorrer que a lógica contratual sempre foi a essência de uma organização que publicita a vida eterna e inventou o confessionário, um guichet em se compra o alívio de consciência pela prática de uns rituais.

 

Talvez a grande diferença entre o reconvertido e o convertido não esteja no "sexto sentido". O reconvertido parece-me alguém pacificado com a sua decisão, enquanto o convertido, eventualmente pressionado pela síndrome do impostor, ganha uma insuportável pulsão evangelizadora. Que alguém explique a Henrique Raposo o seguinte: no peito dos ateus também bate um coração; eles têm angústias que vão além do materialismo e pressentem algum "mistério", mas percebem que seria contraproducente congregar gente em torno da ideia da inexistência de Deus, uma figura que lhes parece supérflua como mediador da solidariedade e empatia entre os homens, e facilmente manipulável por alguns em proveito próprio, pelo que não se deixam conquistar por explicações confortáveis e preferem carregar o peso da finitude da existência a abdicar da razão, sem que por isso sejam escravos de algum cientismo. Expliquem-lhe, mas sem grandes esperanças, pois o Raposo, deformado por anos de colunismo, não se dá bem com as nuances e continuará a exibir o seu catolicismo de conveniência e a sua biografia ficcionada.

 

* Sugestão de Xilre. 

 

 

12
Mai17

A crítica negativa


Eremita

Screen Shot 2017-05-12 at 17.38.16.png

Aproximei-me desta crítica a um filme de Terrence Malick com a mesma avidez daqueles mirones que denunciam tropismo por sangue derramado na estrada. Uma estrela apenas para o Malick tenta qualquer mortal, para mais quando o crítico é Luís Miguel Oliveira, que alguém já deve ter descrito como o "melhor crítico de cinema da sua geração" ou segundo uma qualquer outra das fórmulas que são egocídios de grande impacto demográfico. 

 

Continua

12
Mai17

Fátima e Santiago de Compostela


Eremita

Sobre Fátima, já escrevi; não vale a pena fazer de ateu que rosna quando passa a procissão. Acrescento apenas uma nota pessoal, em jeito de quem não pretende estragar a festa. A minha falta de empatia por Fátima deve-se à proximidade temporal e geográfica do evento fundador. De outro modo não consigo explicar que alimente há décadas o desejo de fazer uma longa caminhada até Santiago de Compostela, lugar também erigido sobre alicerces de oportunismo, falsidade e fanatismo.

ramiro.jpg

É possível que daqui a uns séculos alguém invente para Fátima uma personagem equivalente à do cavaleiro Ramiro criado por autores belgas de banda desenhada, que protegia os peregrinos dos caminhos de Santiago com a sua espada. Então, pode ser que um miúdo já sem pachorra para as canonizações que estiverem na berra, sobretudo aquelas com um sentido de oportunidade a acrescentar suspeição à suspeita de base, ganhe por Fátima o mesmo fascínio por Compostela que Ramiro me incutiu. Deliremos, irmãos: o miúdo do futuro pode até vir a apreciar da arquitectura do Santuário de Fátima! Porque só o tempo opera milagres.

 

 

 

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