Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

01
Abr17

Pacheco Pereira: o filistino invertido*


Eremita

[Modificado a 2.04.17]

381599.jpgFoto do Público

 

Encontrei finalmente a fórmula para ver A Quadratura do Círculo: começar pouco depois das 23:30, fazer a gravação recuar até ao princípio do programa e depois desacelerar apenas nas partes em que fala Pacheco Pereira, o que me permitiu terminar o programa  com a ilusão do directo mas sem ter perdido meia hora com Jorge Coelho e Lobo Xavier. Dito isto, o desprezo que Pacheco Pereira tem pelos fenómenos culturais alienantes de grande consumo faz dele um comentador inábil e um grande educador da burguesia pouco eficaz. Basta ouvir os programas de rádio matutinos, saturados de piadas e parvoíce, para aceitar a tese pachequiana do engraçadismo, e creio até que o humor nas sociedades com liberdade de expressão, mesmo o humor aparentemente subversivo, tem sobretudo um efeito normalizador, isto é, contribui para o situacionismo - para usar outro termo caro a Pacheco Pereira. Reconheço também que a sua embirração com o futebol é inteiramente justificada pela atenção desmesurada que se dá em Portugal ao desporto-rei. Mas Pacheco Pereira deslumbra-se com a sua imagem de asceta laico e acaba por levar o seu esforço longe demais, dando mostras de uma insensibilidade e ausência de percepção incompatíveis com o seu estatuto de intelectual público de cultura ecléctica. No programa de ontem, a sua afirmação mais extraordinária foi a de que Cristiano Ronaldo não "deixa obra". Não vou entrar na discussão sobre quem merece ter o aeroporto da Madeira com o seu nome, se Cristiano, Alberto João ou Herberto Helder, pois é mesmo um daqueles temas para Seixas da Costa. Parece-me apenas inegável que Cristiano Ronaldo deixa uma obra que não o diminui na comparação com as obras públicas de Alberto João e a poesia de Herberto Helder. E não fiquemos pelos méritos relativos de cada uma destas figuras nas suas respectivas áreas de actuação, o que daria uma vitória fácil a Ronaldo mas seria passar ao lado do essencial. 

 

Uma pessoa fez obra se consegue influenciar o futuro além do seu círculo de interacções pessoais. É uma definição conservadora e elitista, que ignora a arte do efémero, a importância da educação dos filhos e o papel das massas anónimas, mas não vale a pena complicar. E para simplificar ainda mais, assim se prevenindo a reductio ad Hitlerum e outras distracções, qualifiquemos a influência como necessariamente benéfica, caso contrário não há obra. Usando este critério, que não me parece nada excêntrico, por se aplicar a todos os grandes líderes (políticos, religiosos e militares), artistas e cientistas a que normalmente associamos uma obra, é óbvio que um grande futebolista deixa uma obra e que esta se emancipa do simples registo de títulos e recordes que marcam uma grande carreira no desporto. A obra do futebolista materializa-se em inovações ou apropriações técnicas na disciplina que ficam para sempre associadas ao seu nome, como as fintas de Garrincha, a Cruyff turn (de Cruyff), a roulette de Zidane, a croqueta de Iniesta, o "elástico" de Ronaldinho, a trivela de Quaresma ou o chop e o livre directo knuckleball de Ronaldo. E como sucede com os artistas de palco, o jogador de futebol faz obra se se transcende em momentos importantes, como quando Ronaldo fez um hat-trick à Suécia na qualificação para o Mundial no Brasil. Enfim, tudo isto me parece evidente. O futebol permite manifestações de grande apuro técnico e de criatividade, que suscitam enorme prazer e apreciações estéticas. Por se tratar de um jogo, há ainda um grande investimento de emoções, que leva a um notável culto da história da modalidade, dos seus clubes, selecções e jogadores, criando condições para a persistência de uma obra ao longo de sucessivas gerações e de um modo bem mais orgânico do que o culto de outras memórias. Não interessa definir uma posição sobre se o desporto é uma arte (tenho sérias dúvidas), bastando lembrar que os grandes jogadores geram discípulos, fãs e estudiosos dos seus feitos, tal como qualquer autor das artes ou das ciências, sobretudo agora que todos os jogos são gravados e ficam facilmente disponíveis. Só Pacheco Pereira, no seu desprezo pelos broncos da bola, não se apercebe que está a ser ainda mais filistino do que aqueles que critica, sem que possa invocar a ignorância como atenuante.  

 

* Para evitar equívocos desagradáveis, esclareço que o título vem da expressão "inverted snob" e não pretendo fazer nenhuma insinuação - nem sequer um trocadilho - sobre sexo. 

Pág. 5/5

Pesquisar

Comentários recentes

  • Anónimo

    Eremita: pensava eu que o link era para as cenas d...

  • Anónimo

    chapada neles

  • Anónimo

    José Sócrates Gonçalves Carvalho Pinto de Sousa, v...

  • Anónimo

    Sempre , sempre mas mais ao são Gonçalves .Nelson

  • Anónimo

    Nelsinho: já rezaste hoje ao São José, ou ainda nã...

Links

WEEKLY DIGESTS

BLOGS

REVISTAS LITERÁRIAS [port]

REVISTAS LITERÁRIAS [estrangeiras]

GUITARRA

CULTURA

SERVIÇOS OURIQ

SÉRIES 2019-

IMPRENSA ALENTEJANA

JUDIARIA

Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D