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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

10
Mar17

Ainda a liberdade de expressão


Eremita

Como seria de esperar, a propósito do episódio do cancelamento da conferência de Jaime Nogueira Pinto, escrevemos o óbvio e o único cronista que me surpreendeu foi Francisco Teixeira da Mota, um advogado especialista em liberdade de expressão. Já não contava voltar ao tema, mesmo tendo chegado a imaginar uma hipotética conferência de um historiador na Universidade Católica intitulada "Jesus é uma invenção", só mesmo como teste de stress às convicções pluralistas da direita (incluindo a direita conservadora), porque mais tarde ou mais cedo o tema sempre volta. Mas Teixeira da Mota lembrou-se de um episódio cujo paralelo com a censura promovida pelos estudantes me deixou pensativo.

 

Como é evidente, ninguém concordou com o cancelamento do evento e foram numerosos os comentadores que se pronunciaram com veemência contra esta triste negação do espaço universitário. Mas, o que mais me chocou, foi ver surgir na praça pública, como paladino da liberdade de expressão o político Manuel Alegre que veio lembrar os seus tempos de estudante em Coimbra, no século passado, em que, segundo nos informou: havia colóquios proibidos, mas isso era no tempo da ditadura. Em democracia não é possível, porque a democracia é feita de debate e de pluralismo.

Parece este político querer fazer-nos esquecer que o ano passado, após porfiados esforços, conseguiu nos tribunais portugueses a condenação do tenente-coronel piloto-aviador João José Brandão Ferreira numa pena de multa de 1800 euros acrescida de uma indemnização de 25 mil euros por ter escrito num blogue que o militante socialista era um traidor à Pátria, tendo em conta o que considerava ter sido a actuação do cidadão Manuel Alegre como membro da Frente Patriótica da Libertação Nacional aos microfones da “Rádio Voz da Liberdade” em Argel.

Ora o que pensarão e diriam – muito provavelmente se sobre isso fossem questionados – o politólogo em causa e os direitistas jovens organizadores da conferência sobre o comportamento deste político durante a guerra do ultramar? Como classificariam o facto de Manuel Alegre na "Rádio Voz da Liberdade" com a sua tonitruante voz combater o patriótico regime de Salazar/Caetano e apoiar os movimentos terroristas, enquanto os soldados portugueses morriam às mãos dos guerrilheiros? Não entenderão eles, muito provavelmente, que foi um traidor à Pátria? E, pergunta-se (retoricamente) ao político Manuel Alegre, não podem ter esse entendimento? E expressá-lo publicamente ao abrigo da sua liberdade de expressão?

Moral da história: não se pode dizer Je suis Charlie à terças, quintas e sábados e Pas du tout às segundas, quartas e sextas, deixando os domingos para ir à caça. Francisco Teixeira da Mota

 

Não aplaudi de imediato  esta crónica, apesar da minha profunda aversão a Manuel Alegre, a quem não reconheço a autoridade moral que ele insiste em exigir. 

Continua. O montado não dá tréguas. 

10
Mar17

A novela como desmame


Eremita

Continuo com os Karamásov, rigorosamente 20 minutos por dia, à sombra do plátano. Podemos concluir que Dostoiévski deu-me a volta, muito à custa dos excelentes diálogos que marcam o último terço do livro, tão bons que compensaram até a desilusão que foi dar com um Ivan fraco de espírito, quando esperava uma personagem com o carisma do niilista Bazarov (deve faltar um acento) de Pais de Filhos. Imagino já a ressaca que experimentarei quando terminar este livro, embora o protocolo seja óbvio: iniciar a leitura de uma novela a poucas páginas do fim de um romance longo.

09
Mar17

Um mistério


Eremita

Não tenho as devidas leituras que me permitam concordar ou discordar de quem afirma que, nas últimas décadas, em Portugal, as mulheres têm escrito melhores romances do que os homens. Limito-me a constatar que é uma ideia defendida por gente do ofício da escrita e da leitura, como o académico João Barrento e o crítico e escritor Eduardo Pitta. Mas a ser verdade, como se explica a lista dos vencedores do Prémio Literário José Saramago, até hoje apenas dado a seis escritores portugueses homens e a duas escritoras brasileiras? 

09
Mar17

O panegírico de Ricardo Araújo Pereira


Eremita

[Notas em permanente contradição até Julho de 2017]Ricardo-Araújo-Pereira-1.jpg

Ricardo Araújo Pereira (RAP) frisa que não se trata de um trabalho académico, mas no seu A Doença, o Sofrimento e a Morte... reproduz a tradição académica vetusta dos títulos modestos, tantas vezes iniciados pela expressão "Contributo para" (ou "Contribuição para"), pois lembrou-se de inserir o característico "Uma espécie de..." no subtítulo que explica tratar-se de um "... manual de escrita humorística". A autodepreciação é um traço forte e aborrecido de RAP, mas seria injusto condená-lo pela capa, já que também Mário de Carvalho, quando tentou explicar a sua arte, fez o mesmo: "Quem disser o contrário é porque tem razão". Não vou ao ponto de descrever a incapacidade de um autor dizer ao que vem como um caso de "não-inscrição" lusitana (Zé Gil), pois basta afirmar que o livro de RAP não é um guia, nem um manual, nem uma master class ministrada pelo actual príncipe dos humoristas portugueses, nem sequer um contributo para isto ou aquilo, mas um panegírico ao humor e aos humoristas. E quem disser o contrário é parvo. 

 

O livro colheu comentários muito elogiosos (1, 2, 345 e 6) e é preciso andar pelos blogs para descobrir alguma crítica negativa. Esta unanimidade na imprensa diz muito do prestígio de RAP enquanto humorista sofisticado e culto que "escreve bem", mas diz mais ainda sobre a falta de preparação e de tempo dos críticos que se instalaram na imprensa. Porque A Doença, o Sofrimento e a Morte... só é um bom livro se comparado à produção literária dos pares lusitanos de RAP; como objecto autónomo, dissociado do seu autor e do contexto nacional, trata-se de um livro fraco, para não dizer medíocre, em que o talento está tão presente como a preguiça e a urgência em publicar qualquer coisa que fosse a tempo de ser vendida no Natal de 2016. Na introdução, RAP traça uma panorâmica incompletíssima e desactualizada das teorias sobre o humor. Seguem-se capítulos com títulos inspirados, mas que apenas camuflam a mais estereotipada organização de tópicos que podemos encontrar nos manuais sobre o assunto e na Wikipedia. Sem negar o mérito na cuidada e ampla escolha de exemplos, a análise de RAP vai muito pouco além do óbvio, em parte por não se basear numa verdadeira teoria universal do humor, lembrando algumas aulas que se encontram no Youtube sobre improvisação musical dadas por quem nada sabe de harmonia ou não quer assustar o público com demasiada teoria. No fim, RAP oferece-nos a sua grande ideia, explicando-nos que temos sentido de humor porque é a única forma de lidarmos com a certeza de que vamos morrer, uma tese que elevaria o humor à condição de grande arte, não se desse o caso de o humor já ser, sem ter precisado da ajuda de RAP, uma grande arte, e de a teoria de RAP ser absurda, o que tende a condenar as teorias. Quem quiser saber algo sobre o humor não deve perder tempo com o livrinho de RAP, pois existe um livro infinitamente mais ambicioso, exaustivo e complexo, rico em exemplos analisados à luz de uma verdadeira teoria do humor; chama-se Inside Jokes (creio que não está traduzido, o que é uma pena). 

 

Continua.  Continua mesmo, mas preciso de terminar algumas leituras, pois o texto em que pensei obriga-me a recorrer à psicologia evolutiva, o que me deixa a dar voltas na cama. Entretanto, relembro que, apesar de dar ares de estratégia de fidelização de leitores, a ideia do post-folhetim, isto é, um texto que vai crescendo ao longo de alguns dias, já praticada no post "O Problema de Ricardo Araújo Pereira", destina-se a baixar a minha ansiedade e forçar-me a terminar os livros que abro; o Ouriquense, inicialmente pensado como sebenta de escrita, é cada vez mais sobretudo um estímulo às minhas leituras. 

 

 

 

 

08
Mar17

Giant steps


Eremita

 

Ontem foi a noite que marca a chegada da segunda gémea ao bipedismo, um momento assinalado pela mana com umas amplas palmas, de pé. Há um vídeo e é grande a tentação de o mostrar, mas no que toca à domesticidade o Ouriquense permanecerá irrevogavelmente iconoclasta. 

 

Continua (antes preciso de estudar um pouco de Anatomia e um clássico de Charles Darwin).

 

07
Mar17

A mulher de César e os estudantes da FCSH


Eremita

Há anos que a direita desejava uma boa censura académica, à maneira do que sucede nas universidades norte-americanas. Aconteceu. Ao escrever: "...foi apresentada e aprovada uma moção que vinculava a DAEFCSH a tudo fazer para que o evento promovido pelo núcleo Nova Portugalidade, "Populismo ou Democracia? O Brexit, Trump e Le Pen" [, que teria como orador Jaime Nogueira pinto], a realizar no dia 7 de Março pelas 18h30, não acontecesse", a Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa mais não fez do que promover a associação Nova Portugalidade e a opinião de direita, que vai agora alimentar-se deste episódio até ao tutano. De futuro, lembrem-se que não basta ser pelo pluralismo, é sobretudo fundamental parecer que somos pelo pluralismo.

 

Adenda: com um instinto político aborrecido para o Observador e Helena Matos, a Associação 25 de Abril disponibilizou-se a acolher Jaime Nogueira Pinto nas suas instalações para a realização da conferência. É o final feliz possível. 

 

05
Mar17

João Barrento versus Alberto Velho Nogueira


Eremita

Maria Gabriela Llansol actuou com uma linguagem que se aproxima da escrita alucidada mas que se reconduz a uma autoridade profética de quem tem uma capacidade única e demiurga para ler o que os místicos traçaram, numa espécie de linha sensível destinal que a levaria, mais tarde, a ser lida e compreendida. A crítica e os pares juntaram-se para a festividade de uma escritora - e aqui as comparações apareceram: "muito maior" do que Pessoa, afirmava Hélia Correia - que, apesar da demonstração de humildade conventual da sua escrita incólume e sem pecado, atingiu as esferas onde o elogio permanente, definitivo, obrigatório e sem excepção domina. Criou uma áurea ilimitada que garante aos admiradores leitores que a literatura dita portuguesa tem uma escritora "superior a Pessoa". A festividade faz esquecer a análise da literatura da escritora que se instalou num nível intocável. Alberto Velho Nogueira

 

João Barrento, no seu livro A Chama e as Cinzas, e Alberto Velho Nogueira, no blog Homem à Janela, analisam de forma distinta a produção romanesca lusitana das últimas décadas do século XX. Lê-los praticamente ao mesmo tempo, num exercício de leitura comparada, é uma fonte de prazer, mesmo considerando as dificuldades conceptuais e até oculares colocadas pela escrita de AVN, densa e de mancha compacta em fundo escuro. Não desistam à primeira.

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