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OURIQ

Um diário trasladado

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21
Mar17

Estilo e catarse


Eremita

Depois de "Quando é que o dinheiro chega? É ter um barco maior, outro Malhoa? É ir aos palácios da luxúria esfregar-se em ruminância alarve no colchão das ganâncias?", Pedro Santos Guerreiro (PSG) ofereceu-nos hoje mais uma pérola: 

 

Jeroen Dijsselbloem sonha com Lucrécias Bórgias e imagina um país de bacos, bacantes e bacanais a gastar em lixos, luxos e luxúrias, de homens lúbricos de prazeres ímpios troando orgasmos fiados com os cantos da boca molhados pela língua a baloiço.

 

Como sabemos, todo o estilo é uma catarse, mas PSG abusa. 

 

 

 

 

21
Mar17

Um, dois, muitos


Eremita

Certas tribos não têm palavras para números acima de um determinado valor. Os Walpiri, uma tribo de aborígenes australianos, bem como os Pirahã, uma tribo da Amazónia, contam "um", "dois", "muitos", enquanto a nossa Autoridade Tributária e Aduaneira, uma tribo há décadas sob a tutela de governos do Bloco Central, parece ser incapaz de discriminar rendimentos acima de um quinto escalão. Por isso, admitamos que o discurso bacoco de Catarina Martins sobre a limitação de salários em empresas privadas foi uma estratégia calculada de preparação do terreno para serem criados escalões de IRS que taxem acima de 48% os rendimentos superiores a 80.640 €. Se não foi isto, Catarina Martins limitou-se a dizer coisas para que tudo fique exactamente na mesma. 

20
Mar17

Tangentes a Rentes de Carvalho


Eremita

discussão sobre até que extremos devemos separar a obra do autor é recorrente. O dilema surge quando o autor de uma obra genial revela ser um crápula ou, no mínimo, defende ideias politicamente incorrectas. Hitler foi - dizem-me - um aguarelista medíocre, mas os exemplos abundam, variando no grau da pulhice e da genialidade, sem que ninguém arrisque apresentar uma correlação entre as duas variáveis: os anti-semitas Richard Wagner e Louis-Ferdinand Céline, o fã dos nazis Knut Hamsun, o nacionalista e belicista Ernst Jünger, o apoiante da ditadura militar argentina Jorge Luis Borges, o violador de uma menor Roman Polanski, o racista e misógino V.S. Naipaul, etc. As opiniões tendem invariavelmente para a seguinte polarização: uns, armados em paladinos da liberdade de expressão e amadores das belas artes, defendem a autonomia da obra face ao carácter do autor versus outros, tão puros e decentes que são incapazes de apreciar a obra de uma besta. Portugal não tem uma grande tradição de artistas controversos, mas, ao declarar que iria votar na extrema-direita holandesa, J. Rentes de Carvalho suscitou entre nós as duas reacções da praxe (1 e 2). Com franqueza, a vida é curta e já não há grande pachorra para esta polarização, que me parece muito burguesa e refém de uma hipocrisia insuportável. Tentemos uma terceira via. Será impensável defender a ideia de que o autor com opiniões controversas ou até abomináveis torna a sua obra muito mais desconcertante, perturbadora e, naturalmente, apetecível ou mesmo irresistível, pois é esse o apelo do fruto proibido? Lobo Antunes bem pode andar a seduzir plateias por aí com a sua voz doce repleta de empatia pelos portugueses remediados, mas não são os bons sentimentos que me farão voltar aos livros dele. Por outro lado, creio que é desta que vou abrir um livro de Rentes de Carvalho e suspender por momentos o juízo que formulei depois de ler uma crítica devastadora. Citando um outro autor polémico, não defendo sequer esta atitude, trata-se simplesmente de descrever a vida como ela é

16
Mar17

Tese sem síntese


Eremita

Normalmente, na vida, na presença de dois contrários, é necessário procurar a verdade no meio; na nossa história, tal seria errado. O mais provável é que no primeiro caso ele tenha sido sinceramente generoso e, no segundo, ele tenha sido ignóbil com igual sinceridade. Porquê? Porque ele é, precisamente, uma natureza ampla karamazoviana - é a isso que pretendo chegar -, capaz de conter todo o género de contrários e contemplar de uma só vez ambos os abismos, o abismo de cima, o das ideias superiores, e o abismo de baixo, o da mais ignóbil e fedorenta queda. Dostoiévski, Os Irmãos Karamásov

13
Mar17

Simplesmente Miguel


Eremita

Sabemos que o Correio da Manhã e as fugas ao segredo de justiça são uma vergonha. Sabemos também, a acreditar nos bloggers e colunistas especialistas instantâneos em crimes de colarinho branco, que o Ministério Público tem investigado os casos que envolvem José Sócrates com uma lentidão indigna. Esta estimulação continuada da nossa capacidade de indignação tem por efeito a habituação. Só assim se explica que Miguel Sousa Tavares, que tem laços familiares a Ricardo Salgado, alegadamente o principal corruptor de José Sócrates (em milhões de euros), comente na SIC a operação Marquês, quando deveria estar calado ou, no mínimo, fazer uma declaração de interesses prévia. Enfim, apercebi-me de que já não me sobra indignação e ouvi calado, sem gesticular. Foi preciso Sousa Tavares dizer que o mito de Sísifo é uma história bíblica para voltar a sentir algum sangue nas guelras. Raios, Miguel, então a tua mãe, que amava a Grécia, não te explicou o mito de Sísifo, meu filistino diletante de telegenia perdida? A operação Marquês começa a erodir os pilares da nossa civilização.

 

13
Mar17

O fim dos homens


Eremita

Screen Shot 2017-03-12 at 12.44.03.png

 

 

Em 1894, o famoso físico Albert Michelson concluiu que a Física esgotara as grandes descobertas que havia a fazer, nada mais restando à disciplina do que a tarefa de acrescentar casas decimais às constantes conhecidas; em pouco mais de uma década, o mundo conheceria o génio de Einstein e depois a revolução da Física Quântica. Também se pensou que a rádio iria matar o romance, mas o romance sobreviveu e tem tido uma curiosa carreira de serial victim, pois, a seguir à rádio, acumulou como carrascos a televisão e o digital, persistindo ainda por aí, dando inclusive a José Rodrigues dos Santos uma oportunidade de fazer fortuna e a Gonçalo M. Tavares um invejável capital social. E em 1989, embriagado com o fim da Guerra Fria, Francis Fukuyama decretou o fim da História, no sentido em que nenhuma forma de organização política iria superar as democracias liberais em sociedades capitalistas, mas a mais recente crise financeira e os movimentos populistas na Europa parecem minar o sistema por dentro e, em todo o caso, o mundo continua animado e imprevisível. Aliás, a dar crédito a algum dos profetas do apocalipse, dos Maias a Nostradamus, sem esquecer Pedro Passos Coelho, a simples existência do mundo causa algum desconcerto. Decretar o fim de algo é um exercício de poder ao alcance de todos a que ninguém resiste, apesar da lição da História, que, por uma vez, é inequívoca.

 

Esta semana, no Público, ainda na esteira do dia internacional da mulher celebrado a 7 de Março, António Guerreiro (AG) entendeu escrever sobre o fim dos homens. Este tópico não é novo, mas pensava que tinha já amadurecido o suficiente para não ser ilustrado com a cena de canibalismo conjugal pós-copulatório em que a fêmea de Louva-a-deus devora o macho que a fecundou ou algum cenário distópico à Doris Lessing em que as mulheres descobrem uma forma de induzir a partenogénese e nascimentos de apenas de meninas, livrando-se para sempre do seu opressor milenar. AG não chega a tais extremos, mas fica perto, ao transformar em profeta Valerie Solanas, uma feminista radical. Quando um homem disserta sobre o fim dos homens, ao gozo de decretar óbitos junta o prazer da autodepreciação. É irresistível, reconheço. 

 

Com a possível excepção da regulação do poder parental, nas sociedades ocidentais os homens não são vítimas de nenhuma discriminação injusta. Naturalmente, os factos não impedem o nascimento de movimentos e opiniões de que estamos a caminhar para uma "feminização" da sociedade. Que esta ideia faça as delícias de polemistas como os franceses Alain Soral e Éric Zemmour e ainda de Pedro Arroja e dos seus acólitos, não surpreende. É mais estranho vermos AG a pegar no tema, mesmo sendo o seu tom lacónico e nada panfletista, nem atribuindo ele à "feminização" da sociedade a carga pejorativa dos outros autores, limitando-se a uma constatação. O problema de AG neste exercício de estilo sobre o fim dos homens é ter partido do princípio de que os seus leitores o interpretariam com a dose de ironia e ligeireza necessárias.  

 

 Continua. Lenha para rachar e trabalhos no sistema de irrigação da horta adiam a conclusão desta intervenção.

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