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Em 1894, o famoso físico Albert Michelson concluiu que a Física esgotara as grandes descobertas que havia a fazer, nada mais restando à disciplina do que a tarefa de acrescentar casas decimais às constantes conhecidas; em pouco mais de uma década, o mundo conheceria o génio de Einstein e depois a revolução da Física Quântica. Também se pensou que a rádio iria matar o romance, mas o romance sobreviveu e tem tido uma curiosa carreira de serial victim, pois, a seguir à rádio, acumulou como carrascos a televisão e o digital, persistindo ainda por aí, dando inclusive a José Rodrigues dos Santos uma oportunidade de fazer fortuna e a Gonçalo M. Tavares um invejável capital social. E em 1989, embriagado com o fim da Guerra Fria, Francis Fukuyama decretou o fim da História, no sentido em que nenhuma forma de organização política iria superar as democracias liberais em sociedades capitalistas, mas a mais recente crise financeira e os movimentos populistas na Europa parecem minar o sistema por dentro e, em todo o caso, o mundo continua animado e imprevisível. Aliás, a dar crédito a algum dos profetas do apocalipse, dos Maias a Nostradamus, sem esquecer Pedro Passos Coelho, a simples existência do mundo causa algum desconcerto. Decretar o fim de algo é um exercício de poder ao alcance de todos a que ninguém resiste, apesar da lição da História, que, por uma vez, é inequívoca.
Esta semana, no Público, ainda na esteira do dia internacional da mulher celebrado a 7 de Março, António Guerreiro (AG) entendeu escrever sobre o fim dos homens. Este tópico não é novo, mas pensava que tinha já amadurecido o suficiente para não ser ilustrado com a cena de canibalismo conjugal pós-copulatório em que a fêmea de Louva-a-deus devora o macho que a fecundou ou algum cenário distópico à Doris Lessing em que as mulheres descobrem uma forma de induzir a partenogénese e nascimentos de apenas de meninas, livrando-se para sempre do seu opressor milenar. AG não chega a tais extremos, mas fica perto, ao transformar em profeta Valerie Solanas, uma feminista radical. Quando um homem disserta sobre o fim dos homens, ao gozo de decretar óbitos junta o prazer da autodepreciação. É irresistível, reconheço.
Com a possível excepção da regulação do poder parental, nas sociedades ocidentais os homens não são vítimas de nenhuma discriminação injusta. Naturalmente, os factos não impedem o nascimento de movimentos e opiniões de que estamos a caminhar para uma "feminização" da sociedade. Que esta ideia faça as delícias de polemistas como os franceses Alain Soral e Éric Zemmour e ainda de Pedro Arroja e dos seus acólitos, não surpreende. É mais estranho vermos AG a pegar no tema, mesmo sendo o seu tom lacónico e nada panfletista, nem atribuindo ele à "feminização" da sociedade a carga pejorativa dos outros autores, limitando-se a uma constatação. O problema de AG neste exercício de estilo sobre o fim dos homens é ter partido do princípio de que os seus leitores o interpretariam com a dose de ironia e ligeireza necessárias.
Continua. Lenha para rachar e trabalhos no sistema de irrigação da horta adiam a conclusão desta intervenção.