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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

04
Fev17

Do incestuoso acidental


Eremita

Até ontem, a interacção física mais polémica que tinha tido com as minhas filhas era o já clássico beijo na boca, uma prática que conto abandonar quando elas começarem a formar memórias para a vida, o que me parece ser uma solução de compromisso sensata. Mas ontem uma das gémeas (não digo nomes) colocou o dedo dela na minha boca. Até aqui, nenhuma novidade. O problema foi a seguir ter colocado o mesmo dedo na boca dela, com um timing em nada distinto do que dois amantes fazem na cama. 

04
Fev17

Para perceber os EUA


Eremita

Vivi seis anos em Nova Iorque, nos primeiros dois anos como bolseiro português e depois a pagar os impostos que financiaram a Operation Iraqi Freedom. Em parte por causa dessa guerra, comecei a escrever nos blogs no desaparecido Blogue de Esquerda (como convidado) e depois num blog individual, o A Memória Inventada, que encerrei no princípio de 2008, pouco depois de regressar a Portugal. O meu convívio em Nova Iorque foi sobretudo cosmopolita, isto é, entre expatriados, incluindo muitos portugueses, europeus, indianos e sul-americanos. Devo ter conhecido bem cerca de uma dezena de norte-americanos, incluindo duas namoradas e sem contar com Joe, um dos porteiros do meu prédio e pothead desde os anos 70, com quem tive inúmeras conversas de circunstância. Em seis jantares de Thanksgiving, só um foi passado num lar norte-americano, o que dá uma medida da minha falta de imersão na cultura norte-americana WASP (os brancos, anglo-saxões e protestantes). Naturalmente, creio ainda assim ter absorvido por difusão passiva parte da mundivivência de um norte-americano, que é profundamente diferente da do português no modo como se relaciona com o trabalho, o Estado e a democracia representativa. Mas jamais utilizei ou utilizarei os meus anos de vida em Nova Iorque como argumento de autoridade para escrever sobre os EUA, com excepção que passo a concretizar. Apesar de Pacheco Pereira, um cronista muitos furos acima da média, também o que se escreve sobre Trump começa a ser dominado pelo fenomenal João Miguel Tavares, o caso de sucesso mediático mais intrigante dos últimos anos, pelo que a seguinte recomendação me pareceu pertinente: se querem acompanhar e perceber a política norte-americana, ouçam todas as sextas o The Political Gabfest

03
Fev17

Avulsos de um telespectador


Eremita

1. Na RTP3, Miguel Vale de Almeida e Pedro Norton discutem a precariedade laboral. Mas quando um homossexual bonito fala com um heterossexual bonito, parece que falam sempre sobre outra coisa, como se interpretassem uma expectativa tacitamente frustrada. 

 

2. O canal Baby TV parece acreditar na ideia de que pôr bebés a escutar Mozart fará sobredotados e, como quem escolhe música pelo título, passa a Eine Kleine Nachtmusik. Felizmente, a Baby TV também tem a Big Bugs Band, uma animação inspirada no desenho, música e movimento. Só é pena desenhador ter feito uma aranha com três pares de patas. Milhões de bebés andam a ser enganados diariamente, é toda uma geração a lavrar no erro antes mesmo de falar. As consequências antecipam-se catastróficas.

 

3. No Expresso da Meia Noite, Bernardo Ferrão continua a parecer um estagiário à experiência. Pelo contrário, Jaime Nogueira Pinto continua a falar com a pose de senador que dispensa senado. No fundo, é tudo uma questão de atitude.  

02
Fev17

Apenas uma Narrativa, de António Pedro


Eremita

Comprei a 3ª edição (primeira edição das Quasi), de 2007; a primeira edição é de 1942 (o livrinho verde). Considerado o único romance do surrealismo lusitano e até uma obra-prima, foi desprezado por Mário Cesariny e Pedro Oom, que caracterizaram o "Surrealismo minhoto" de António Pedro como uma  "pacoviada" [1]. O prefácio do autor e a dedicatória a Aquilino Ribeiro estão cheias de maneirismos, mas a leitura do primeiro capítulo foi a primeira experiência de leitor gratificante em 2017. É bem possível que uma escrita económica de enorme poder imagético seja o veículo ideal para o absurdo. 

 

ApenasNarrativa.JPG

1279627623-f.jpg

 

PS: Esta entrada foi escrita com os os pés ontem à noite e corrigida hoje de manhã. Na verdade, este é um padrão recorrente no Ouriquense.

 

 

 

 

01
Fev17

Ninguém escreve a Jacinto Lucas Pires


Eremita

Um dos mistérios dos blogs que frequento é ninguém comentar os posts de Jacinto Lucas pires. Devo ter lido alguns contos do escritor, já há uns largos anos, e depois não acompanhei a sua carreira, mas deu para reparar que continuou a investir na escrita, teve peças em cena, vários livros publicados, é colunista (inclusive num jornal desportivo) e tentou um programa original na TSF em que comentava a actualidade com canções da sua própria autoria, acompanhando-se à guitarra. Em resumo, tem andado por aí. É verdade que não investe muito no blog, mas é estranho não atrair pelo menos a curiosidade dos seus leitores. 

01
Fev17

Queremos um debate alargado sobre a eutanásia?


Eremita

Nas questões "de consciência", há sempre dois tipos de apelo ao debate alargado. O mais comum é o apelo calculista e hipócrita, em que a ideia é perpetuar o debate até deixar de haver pressão para que se mude o status quo. O menos comum é o apelo genuíno, por se pensar que todos devem participar nesta discussão. Nem sempre quem faz o apelo genuíno é ingénuo ao ponto de esperar que a qualidade da discussão suba com o aumento do número de participantes, mas terá sempre presente o ideal do cidadão informado como unidade essencial da democracia. Ora, se para levar o cidadão a formular uma opinião sobre um tema como a eutanásia é preciso saturar os media com o assunto, sem que possamos depois distinguir entre o que é conhecimento amadurecido e o que se instalou no cérebro por difusão passiva, para que serve o debate alargado? Vale a pena pôr a eutanásia nas mãos dos nossos polemistas profissionais e deixá-la depois à mercê de um gangbang nas caixas de comentários? Até entre médicos, uma jurista e outra gente diferenciada, no Prós e Contras, a sensação que fica é de grande desconforto, como se não fôssemos capazes de estar à altura do tema, nem da dialéctica; como se Yeats tivesse razão: "the best lack all conviction, while the worst are full of passionate intensity". 

 

Há livros sobre o assunto. Há bons debates sobre o assunto. Vale a pena ser elitista e reabilitar o argumento de autoridade - inclusive moral - como critério de selecção do que se lê, ouve e vê. Não vale a pena perder tempo com a opinião de um blogger anónimo, por exemplo. De resto, a única opinião que este blogger anónimo formulou esta semana foi a seguinte: a ideia de que os meus últimos dias e a minha morte podem ser influenciados pela opinião do povo (o referendo) ou de deputados deixou-me com ânsia de fazer fortuna nos próximos anos, a tempo de um dia, se for necessário, eu e os meus podermos fugir de toda esta gente.

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