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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

04
Jan17

O aborto circa 2500 D.C.


Eremita

Como ferramenta de retórica, imaginar que práticas correntes aceites pela sociedade serão inaceitáveis no futuro tem duas vantagens sobre o exercício inverso de lembrar práticas hoje proibidas ou censuradas que já foram aceites: quem especula sobre o futuro liberta-se dos factos, o que lhe convém, e quem o escuta é surpreendido ao se ver descrito como um bárbaro apenas salvo pelas circunstâncias, jogando esta perturbação emocional a favor do adversário. 

Continua

04
Jan17

Da resistência


Eremita

Alerta: há um novo post no Homem à Janela. Os posts de Alberto Velho Nogueira não tem só gravitas, têm mesmo gravidade, pois são como buracos negros que sugam toda a atenção. É preciso resistir-lhes durante o dia, para não comprometer o empreendedorismo, e resistir-lhes durante a noite, para não perturbar o sono. 

04
Jan17

Talvez o grande problema da literatura russa


Eremita

A leitura do terceiro livro dos Karamásov tem sido algo penosa. Depois do magnífico episódio da morte do monge, nada de muito interessante ocorreu. Mítia, o Karamásov dado às tentações da carne, é demasiado ciumento para ganhar o meu respeito. E é nestas alturas, quando o enredo não prende e escasseiam as reflexões do narrador, que um leitor fica menos tolerante. Ora, é sabido que as contribuições dos russos mais perniciosas para a humanidade foram o comunismo e as variações sobre os nomes próprios, que incluem diminutivos e outras formas. Como se não bastasse a fonética estrangeira, que dificulta a memorização como a fisionomia asiática dificulta a identificação, cada nome aparece metamorfoseado mais de uma vez, como se um chinês mudasse de penteado todos os dias. O resultado é uma enorme confusão na cabeça do pobre leitor português, sobretudo quanto às personagens femininas. E então estamos nisto: Mítia destrói a sua vida por causa de uma mulher e eu não consigo distinguir a aristocrata da sopeira. 

03
Jan17

Leituras recomendadas


Eremita

[Actualização]

O Tiago Cavaco escreveu um belo texto (post de 28.12.16) sobre as impressões de um protestante que visita Roma.

 

Descobri hoje o blog Mãe Preocupada.  

 

A ideia persiste, mas não tive ainda fôlego para criar o braço político do Ouriquense (hesito entre O Clarim de Ourique e Novas Batalhas de Ourique). Entretanto, recomendo o Ladrões de Bicicletas e o blog de Pedro Lains.

 

Na Antologia do Esquecimento, uma lista de livros pensada com originalidade, em que se premeiam até os agradecimentos, as epígrafes e as dedicatórias. Aprende, Pedro Mexia, aprende...

 

02
Jan17

Viver vicariamente


Eremita

Quase todos os grupos de amigos e famílias incluem um elemento que não casou, nem vive em união de facto, nem "constituiu família". Os estereótipos abundam, do amigo que se fez seminarista, ao tio gay, passando pela amiga que sofreu um grande desgosto de amor e nunca mais quis saber dos homens. Bem sei que estes exemplos são anacrónicos, pois há uma crise de vocações, os gays já podem casar e encontraram formas de viver a parentalidade, e nestes tempos de hedonismo e individualismo, em que o grotesco "ama-te" do life coaching é o novo slogan, o amor romântico só existe na ficção. Mas o fenómeno persiste e apenas precisamos de seleccionar ou actualizar os estereótipos. Um  estereótipo que persiste e tem sido tonificado é o do amigo solteirão que entendeu apostar nos amores passageiros e vive picos de paixão sucessivos. Este amigo - dizem-me - é o terror dos casais dele amigos, pelo potencial desestabilizador da sua presença. Já outros defendem o inverso, pois o amigo solteirão, ao contar as suas paixões, oferece uma experiência vicária que atenua as frustrações da monogamia perene. Não me reconheço em nenhum destes cenários contrastantes. Tenho um amigo que se apaixonou recentemente e o prazer que retiro do que ele me conta é bem inocente; não me desperta qualquer inveja, nem me faz sonhar. O meu problema é outro.

 

Tenho um amigo que vive na Alemanha e me visita no Natal. Não lhe conheço vida passional, nem o assunto é tema das nossas conversas. Este amigo organiza a sua vida profissional para poder andar um mês inteiro de férias, viajando quase sempre sozinho. Mesmo quando não acabou de vir de um sitio exótico como a China, o que ele conta desperta-me o interesse, como a sua recente viagem da Alemanha a Portugal num daqueles carros carismáticos que pedem nome próprio, uma velha carrinha Volkswagen que chega a dar 80 km/h, mas, como ele diz, "apenas no meu conta-quilómetros". Ao cair da noite, o meu amigo "virava na primeira à direita", procurava um sítio tranquilo onde estacionar a carrinha, comia qualquer coisa e praticava as partes de clarinete da peça que a banda apresentará no princípio do ano, para depois se deitar no colchão que leva na parte de trás da carrinha. Para que se perceba onde quero chegar, convém que não nos fixemos em detalhes como o astado de asseio do colchão e a logística da higiene matinal. O importante é o meu amigo virar na primeira à direita ao cair da noite. Há quanto tempo o leitor não vira na primeira à direita apenas porque acabou de escurecer, sem querer saber a que lugarejo foi dar? Há quanto tempo não pratica um instrumento à beira de uma estrada? Imagine um som de clarinete ao lusco-fusco escapando-se do interior de uma carrinha Volkswagen; não precisa de ser o Adagio do  K.622 de Mozart,  Gershwin ou um tema Klezmer de grande virtuosismo, servindo até uma passagem aborrecida de marcha militar para compor a harmonia, sem melodia que se queira assobiar. O meu amigo fez paragens perto de Marselha e de Málaga, para praticar escalada. O que importa aqui reter: na escalada, tem-se a vida literalmente por um fio, pois é um colega de escalada que segura o cabo de segurança. Ora, viajando o meu amigo sozinho e sem nada ter combinado sobre encontros nos arredores de Marselha e Málaga, concluímos que entregou a sua vida à consciência de um estranho. Isto sucede connosco todos os dias, bastando andar na rua, mas não com a teatralidade da escalada. 

Continua. 

Pág. 5/5

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