Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

16
Jan17

Bruno Vieira do Amaral


Eremita

O que é, para si, um bom livro? 

Qualquer um que nos revele a verdadeira dimensão da nossa ignorância.

Bruno Vieira do Amaral

 

Admiro muito o Bruno. Não somos íntimos, mas chegámos a partilhar um blog e a trocar palavras de incentivo, quando ele ainda não era um escritor premiado. Como não admirar alguém que conseguiu fazer um bom livro a partir das recordações de infância, essa matéria-prima tão traiçoeira? Também o admiro por despachar com fórmulas eficazes a actividade paraliterária de que é hoje feita a rotina de um escritor. A leviandade com que os jornalistas fazem perguntas de uma complexidade capaz de levar um homem a perder-se num deserto de introspecção durante dias merece ser tratada com a técnica que deixe um escritor a salvo das solicitações.

15
Jan17

Tubular Bells


Eremita

 

Anos oitenta: os meus amigos ouviam The Cure e The Smiths. Eu ouvia Mike Oldfield, com 15 anos de atraso. Nunca mais recuperei o atraso em relação à pop cantada. Mas na esmagadora maioria dos casos, as palavras só incomodam. 

14
Jan17

Sobre o funeral de Soares


Eremita

[em actualização]
 

Odorico Paraguaçu queria um defunto para inaugurar o cemitério que mandara construir. João Miguel Tavares (JMT) queria povo nas ruas para honrar o falecido Soares e compor a fotografia. Convém lembrar que só Odorico é uma personagem de ficção. A morte de Soares teve repercussões do foro clínico na nossa imprensa. Depois do delírio hagiográfico de Pedro Santos Guerreiro, JMT veio queixar-se de que não sabemos honrar os nossos heróis. Naturalmente, para ele os heróis são militares ou políticos, como seria de esperar num homem sem imaginação. Vamos decompor. 

 

A conclusão de que o povo não honrou Mário Soares ao não comparecer em massa ao seu funeral é muito discutível. Soares teve um funeral de Estado organizado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e creio que se procurou realizar uma cerimónia no claustro dos Jerónimos para ser acompanhada no local pelas elites e na televisão pelo povo. Ter o funeral de Cunhal como termo de comparação não faz muito sentido, pela capacidade de organização do PCP e a sua ligação ao povo, como também não faz sentido a comparação com o funeral de Sá-Carneiro, desaparecido ainda novo, quando era Primeiro-Ministro há menos de um ano, em circunstâncias trágicas e inesperadas. Soares morreu ao fim de uma longa vida em que as duas últimas décadas foram marcadas por episódios algo embaraçosos para uma figura com uma biografia tão excepcional, como a candidatura falhada a presidente do Parlamento Europeu e o apoio incondicional a José Sócrates. Como se não bastasse, as duas últimas semanas de Soares foram passadas no hospital da Cruz Vermelha e os comunicados quase diários sobre o seu estado de saúde, vagos, repetitivos e - convenhamos - desnecessários, só serviram para nos dessensibilizar em relação ao anúncio esperado da sua morte. Soares viveu mais do que quase todos os seus contemporâneos e quem tem menos de 40 anos lembra-se de um presidente afável e não de um lutador pela liberdade. Os que sobram não têm muito vagar ou saúde para ajuntamentos populares em dias de trabalho. São motivos suficientes para que não seja chocante a relativa falta de povo. De resto, se teria bastado oferecer bandeirinhas para encher os passeios, de que nos queixamos? 

 

O que talvez tenha sido óbvio foi o desajuste entre as emoções e energia expressas pelos media, dominados - do jornalismo das redacções à "opinião" - por quem tem uma relação profissional intensa com a política, e o povo, que tem outros interesses profissionais e cuja palavra nos media é meramente decorativa (os directos a partir da rua) ou serve para baixar os custos de produção no horário menos nobre (os programas à base de telefonemas de ouvintes ou telespectadores). Esse desajuste não se observou, por exemplo, nos funerais de Amália e Eusébio, figuras mais consensuais do que Soares, não só porque os grandes desportistas e artistas não geram tantos atritos como os grandes políticos, mas também porque são igualmente admirados pelas elites e o povo.

 

Por não ter havido um banho de multidão no funeral de Soares, o povo, essa massa ingrata e ignorante, levou um puxão de orelhas dos três conhecidos antifascistas com ficha na PIDE e duros anos de exílio que fazem o Governo Sombra

 

Continua!

 

Continua!

14
Jan17

A masculinidade perdida


Eremita

Quando me perguntam como é viver com 5 mulheres, escondo a minha preocupação. Não tenho dúvidas de que é muito melhor do que viver com 5 homens e nem preciso de puxar pela imaginação, bastando recordar a correlação negativa óbvia entre o asseio das cozinhas de corredor e o número de homens por corredor na casa de Portugal da Cité Universitaire (Paris), e ainda, o que será talvez mais significativo, o maior interesse que as mulheres me despertam. Mas apesar de nunca ter desejado um filho homem (a desenvolver), apesar de a chegada das gémeas ter sido um daqueles acidentes que deixam um ateu a dar graças a Deus, por vezes dou comigo a pensar no que seria a dinâmica doméstica se houvesse outro homem em casa.

 

Há minutos, a L. lembrou-se de usar a garrafeira dos vinhos para arrumar os pacotes de leite, a saber: leite gordo Mimosa (para as bebés) e leite meio-gordo Matinal (para os restantes). Entendamo-nos: eu percebo e até sinto o gozo de subverter a natureza da garrafeira, para mais justificado pela necessidade de espaço numa cozinha minúscula e por muito pouco vinho se beber nesta casa, que nos deixa a salvo do mero capricho. Não sinto sequer qualquer embaraço em mostrar uma garrafeira de leite aos meus amigos homens e alinharei nas brincadeiras que se antecipam facilmente. Apenas receio que este episódio seja uma manifestação mais conspícua de uma tendência constante e sub-reptícia que, pela simples força da desproporção (5 contra 1), entre outras forças (a desenvolver), me impedirá de iluminar as minhas amazonas com os aspectos positivos da mundivivência masculina (quais? Bem... a desenvolver).

12
Jan17

Da lata


Eremita

Há vários anos que o Judeu se queixa de episódios de somatização da ignorância alheia. Creio que esta síndrome não está ainda descrita, mas posso confirmar o fenómeno, por muito que me custe admitir que propositadamente lhe causei um furúnculo quando me negou o Citroën, tendo bastado insultá-lo como se não soubesse a diferença entre judeus sefarditas e asquenazes. Naturalmente, fora das altercações digo-lhe para ter as cautelas óbvias, como evitar programas radiofónicos com participação do auditório e televisão enquanto há luz natural, mas ele raramente me dá ouvidos e gosta de se distrair durante os trabalhos manuais. Há uns dias, o Judeu bateu-me à porta muito transtornado. Vinha com urticária na cara e nos antebraços, as mãos tremiam-lhe e o cabelo desgrenhado era sinal da sua luta contra o corpo. Também suava, mas não gaguejou quando me relatou os erros científicos do Dr. Manuel Pinto Coelho. 

 

- Tu sabes quem é o gajo? A assertividade com que repete as asneiras chega a ser invejável. O que ele diz sobre a esperança de vida no Paleolítico, meu Deus... E sobre o genoma do trigo? Ouve, ouve, isto só ouvido.

 

Oiçam. Se tiverem dúvidas, o Judeu já nos ameaçou com um artigo de fundo. Entretanto chegou o saco de boxe que me lembrei de lhe oferecer, pois a minha tese é simples: o Judeu precisa de vias de escape para a sua raiva reprimida. 

 

 

12
Jan17

No book left behind


Eremita

O "No child left behind", slogan de Bush (o filho) sobre a educação, foi depois reciclado em "No child's behind left" por Christopher Hitchens, quando se referia às práticas pedófilas de padres católicos. Após a morte do patriarca Karamásov, o meu mote "No book left behind" também se corrompeu em "No book left beyond". É preciso descobrir o responsável que primeiro espalhou o boato de que Os Irmãos Karamásov é um dos melhores romances de todos os tempos. Não é. E agora que morreu a sua melhor personagem, não serão os filhos a salvá-lo. Falta-me cerca de um quarto e cumprirei o plano, mas sabe Deus a que custo. Que Musil me perdoe. 

11
Jan17

Sobre a doença mental


Eremita

Há uns tempos, num julgamento, um advogado perguntou-me se eu era bipolar. O juiz apressou-se a censurar o advogado, mostrando alguma indignação. Foi uma curiosa sucessão de equívocos. O primeiro: a cidadã que informou o advogado e com quem cheguei a coabitar umas semanas, enganou-se na doença, ignoro se por ignorância ou malícia. O segundo: o advogado pensou que me descredibilizaria na qualidade de testemunha e provavelmente não sabe que Stephen Fry, um homem infinitamente mais eloquente, credível e influente do que ele, é bipolar. O terceiro: o juiz reagiu como se a pergunta fosse ofensiva e não irrelevante. 

10
Jan17

O primeiro abraço


Eremita

Recebi hoje o primeiro abraço forte de uma das bebés. Dizer o quê? A única vantagem para os leitores do Ouriquense de eu ter sido um pai tardio, já ciente das suas limitações, é a inibição de publicar aqui poesia sobre os grandes momentos da vida doméstica. 

Pesquisar

Comentários recentes

  • Anónimo

    Vasco: diz-se agora na Visão que o teu amigo João ...

  • Anónimo

    Tem calma, pá!

  • Eremita

    https://virologydownunder.com/the-false-positive-p...

  • henrique pereira dos santos

    Ora aqui está um comentário de bom senso.E como ta...

  • Eremita

    Ocorreu-me, mas tenho filhas, não posso arriscar a...

Links

WEEKLY DIGESTS

BLOGS

REVISTAS LITERÁRIAS [port]

REVISTAS LITERÁRIAS [estrangeiras]

GUITARRA

CULTURA

SERVIÇOS OURIQ

SÉRIES 2019-

IMPRENSA ALENTEJANA

JUDIARIA

Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D