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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

21
Jan17

Baby steps


Eremita

A G. começou a andar e a B. ainda não arrisca os passos, só se aguenta de pé agarrada a algum apoio. Mas não foi preciso atingir este marco de recapitulação da filogenia para perceber que educar gémeas obriga um pai a defletir constantemente os comentários de familiares, amigos, conhecidos e estranhos que só alimentam o germe da competição. Será uma luta a travar até ao fim dos meus dias, um comentário de cada vez.

21
Jan17

Pacheco Pereira: mau trabalho


Eremita

O problema do pluralismo na actual informação não está em substituir um pelo outro – está em cada vez mais os órgãos de informação alinharem pelo “pensamento único”, que nasceu no “jornalismo económico” nos anos da crise de 2008 em diante e se consolidou com força durante os anos da troika e de Passos Coelho. Foi nessa altura que a direita portuguesa ganhou a batalha ideológica à esquerda e com uma little help from my friends, bastante grande aliás, está a consolidar e a expandir posições. Esses “amigos”, os conhecidos e os desconhecidos, envolvem interesses económicos, investimentos de dúbia origem, como acontece com os angolanos, lobbies políticos e ideológicos que se organizaram mais agressivamente para manter o legado da intervenção da troika, apontando como alvo da austeridade a classe média e os mais pobres, desequilibrando as leis do trabalho a favor do patronato, e pretendendo “limpar” o país das “oligarquias”, ou seja, dos sindicatos, dos intelectuais, dos jornalistas incómodos, de quaisquer pessoas que se lhes oponham. Aliás, a recente campanha miserável contra Silva Peneda, que ousou contestar a posição do PSD, é um exemplo de um estilo que nasceu nestes anos, de pessoalizar os ataques políticos, começando por referir sempre o nome das pessoas nos títulos dos artigos sem discutir as ideias ou as políticas. Pacheco Pereira

 

Num artigo sobre a falta de pluralismo nos media e o crescente domínio da direita, Pacheco Pereira diz que "veria com muita preocupação que o Observador, que é um projecto político, “passasse” para um jornal do mainstream como o Diário de Noticias ou o PÚBLICO". Toda a gente percebe a mensagem, mas quando nada escreve sobre a saída recente de três cronistas de esquerda do Público, o silêncio é mesmo - por uma vez - ensurdecedor. Isto começa a cansar. Se alguém usa os media para discutir a falta de pluralismo, deve estar preparado para levar a discussão até às últimas consequências, isto é, correr o risco de ser dispensado do órgão de comunicação em que escreve. É que para se ser a consciência moral da nação, não basta ter a cabeça no lugar, é preciso tê-los também no sítio. Caso contrário, mais vale ficar caladinho, como escolheram fazer todos os outros colunistas do Público

 

Adenda: estamos de acordo

 

 

 

20
Jan17

A justa proporção


Eremita

Screen Shot 2017-01-20 at 19.34.48.png

 

Este livro está aí a sair. George Saunders traduzido por Rogério Casanova. Deve resultar. Comprem-no, ponham a economia a funcionar.  Por agora, sublinho a diferença de tamanho das letras com que o autor e o tradutor são referidos na capa, que me parece perfeita, bem distante da megalomania do tradutor Vasco Graça Moura. A capa também é curiosa, sobretudo agora que cumpro o vigésimo dia sem consumir refrigerantes. 

 

20
Jan17

House of Cards


Eremita

imgres.jpg

Creio que foi maradona (o blogger, não o futebolista) que disse gostar de futebol por causa dos pormenores. A série House of Cards tem um enredo assente em dois episódios demasiado absurdos para se poder levar a sério [spoiler já a seguir, escrito a tinta branca]: um político de topo que mata duas pessoas em momentos distintos. Eis uma hipótese inesperada que seria divertido desenvolver (mas não há tempo): quanto mais poderosa na sociedade é uma personagem, menos são os graus de liberdade de que dispõe o autor para a manipular com verosimilhança. Enfim, qualquer série vista com alguma disciplina acaba por viciar e esta tem preenchido os nossos serões. Um pormenor: num dos episódios da terceira série, o lobista Remy Danton desiste da carreira. Ora, House of Cards é uma série com um profundo desprezo pela vida familiar e centrada na ambição profissional. As duas personagens principais, formalmente marido e mulher, funcionam como uma corporação; mesmo nos seus melhores dias, a sua ligação era pós-romântica e assexuada. O único casamento que houve até agora foi para que uma congressista ganhasse instantaneamente uma família (um marido com filhos de outra relação) e se tornasse candidatável a qualquer coisa. Todos os envolvimentos passionais que a série mostra são entre colegas de trabalho, por interesse ou deformação profissional, e até um ménage à trois teve de envolver um subalterno. Não há fidelidade nas relações amorosas, mas a de um empregado do presidente é canina. São demasiados sinais para que Remy não recaia no workaholism num episódio futuro,  mas por agora a sua desistência foi o que de mais surpreende e radical aconteceu nesta série. Comentei com o Judeu, que se junta a nós ao serão, e ele olhou-me com o desprezo de quem sabe ter sido o único dos dois a desistir da carreira sem comprometer a vocação. 

20
Jan17

"Venham a mim as criancinhas"


Eremita

O interrogatório a Mítia, alegado parricida, é um suplício para o leitor. O narrador bem tenta animar o leitor referindo várias vezes todas as trocas de palavras que abreviou, mas soa a ameaça velada. Pensar que este livro foi escrito pelo mesmo autor que inventou Raskólnikov e Porfiri Pietrovich deixa-me perplexo. Vem depois o livro quatro, que conta a história de Kólia Krassókin, um miúdo. É uma lufada de ar fresco ou - para ser menos preguiçoso e mais rigoroso - um inesperado sumo de romã no último posto de hidratação de uma maratona. O leitor sente-se salvo e revigorado. Pensemos em Os Capitães da Areia ou Sinais de Fogo. É evidente que miúdos, adolescentes e jovens (menos de 25 anos) dão quase sempre excelentes personagens, sobretudo quando comparados a homens maduros impulsivos, ciumentos e dramáticos, como Mítia. Longe no tempo, perto do coração.  Há ainda um pormenor que chama atenção do leitor: na página 227 do livro 4 (edição da Editorial Presença), lê-se: "A propósito, ia-me esquecendo de mencionar que Kólia..." Devo estar errado, mas pareceu-me ser a primeira vez que o narrador se refere a si próprio. Risco o apontamento até confirmação ulterior. 

19
Jan17

Crítica dos críticos da crítica


Eremita

Os blogs Horas Extraordinárias e Homem à Janela são antitéticos. O primeiro é escrito por alguém que está dentro do sistema e até, de certa forma, tratando-se de uma editora, é o sistema; as ideias, simples e familiares, são expostas de forma clara e pontual, sendo o leitor tratado como um bebé a quem precisamos de levar a colher à boca a horas certas. Sem surpresa, este blog criou uma comunidade de comentadores muito simpáticos. O segundo é escrito por um outsider que lança ataques às fundações do sistema (o nacional) nunca se sabe quando e induz insegurança e assombro no leitor, pela exibição de cultura e inteligência. Também sem surpresa, este blog não é popular.  Em suma, o que temos é um choque entre um nanny blog e um blog revolucionário. 

 

Há alguns dias, apareceu no blog Homem à Janela uma crítica à crítica literária elogiosa, a propósito do mais recente livro de crítica literária de João Barrento. Pareceu-me um texto mais substancial do que as habituais críticas da crítica, que - há décadas - incidem sobre a pequenez do meio literário português e a sua endogamia, um filão que deveria ter sido esgotado por João Pedro George, mas que se pressente eterno. Será que alguém leu o texto? Ainda há críticos literários, literatos e académicos por aí, não há (1, 2, 3, 4, 5, 6 ...)? Ninguém comenta? Ninguém se esforça um pouco? Estamos condenados aos nanny blogs e às sebentas da escrita bonitinha? 

 

Continua. Entre outras coisas, faltam muito links. Isto vai ser um repto.

18
Jan17

Recomendações de leitura


Eremita

1. Através do blog Chove, dei com mais um lamento de um mártir do politicamente correcto. Começa a ser uma praga. Desta vez foi Alberto Gonçalves, que entendeu haver substância para um ensaio. Não me vou repetir, apenas friso o consolo de perceber que um dos cronistas mais elogiados do burgo repete os argumentos do costume, é vago nas enumerações dos casos de censura que terão feito com que "uma impressionante quantidade de gente [visse] as suas vidas arruinadas por pisar a linha justa", vai ao absurdo de equiparar o politicamente correcto ao "fascismo", e, sempre sobranceiro, parece ignorar que, nos últimos 50 anos, no mundo ocidental, a extensão de direitos a minorias étnicas, às mulheres e a pessoas com orientação sexual minoritária foi uma conquista do centro-esquerda e da esquerda. Onde estavam os conservadores e liberais? Ninguém sabe. A sua grande causa veio depois e é a luta contra o politicamente correcto, isto é, alguns delírios do feminismo, algum excesso de susceptibilidade dos homossexuais, atitudes que qualquer pessoa sensata entende, por corresponderem à última fase de um processo de universalização de direitos, uma fase em que o pêndulo cumpriu já o desejado longo e difícil caminho até ao centro e, não podendo parar de imediato, porque a inércia não é apenas um fenómeno da Física, oscilou um pouco para o outro lado. Que venham então os Gonçalves travar este movimento pendular, até porque é um dirty job e alguns idiotas úteis terão de o fazer, mas sem sobrancerias e alguma noção do ridículo, porque o mais difícil, o empurrão inicial que libertou o pêndulo, não foi dado por eles.    

 

Segundo percebi, Alberto Gonçalves teve durante alguns minutos a conta bloqueada por ter escrito: "contas por alto,cerca de 38.6% dos músicos que aprecio são ou eram mariconços". Soa familiar. Mas ainda haverá empatia para os censurados do Facebook, se são, digamos, "tão 2012"? Não será "poucochinho" para um veterano polemista profissional como Alberto Gonçalves apresentar o Facebook como inimigo e pretexto para um ensaio? Será que não foi processado por nenhum poder da pátria, nem - sei lá - acordou uma manhã com a cabeça de um cavalo decapitado dentro da cama e os lençóis empapados de sangue? E o enésimo cronista que recorre aos jornais ou à televisão para se queixar das redes sociais, sem se dar conta do seu privilégio, quem o atura? Se Alberto Gonçalves não quer ter arrelias, basta-lhe sair do Facebook e libertar-se da agremiação regida pelo puritanismo americano e a delação institucionalizada, onde ele voluntariamente se foi enfiar. São opções. Não sou de intrigas, mas aqui, por exemplo, sem que façam de mim uma vítima do politicamente incorrecto, posso exibir mamocas e pipis, algum paternalismo eurocentrista e até zoofilia sexista, como exemplifico com este desenho de Katasushika Hokusai intitulado "O sonho da mulher do pescador" (uma profissão realmente ingrata): 

 

Screen Shot 2017-01-17 at 22.19.31.png

 

Enfim, é talvez pertinente colocar a hipótese de que Alberto Gonçalves andava a pelar-se por uma censura e foi fazer traquinices no Facebook. Eis o problema dos paladinos do anti-politicamente correcto: são quem mais hoje depende da brigada do politicamente correcto, pois se esta não existisse ficaria à vista de todos que eles nunca foram politicamente incorrectos. 

 

2. Mais substancial é este texto de António Marujo sobre o jornalismo, que li num post fraterno do Cibertúlia. Ou melhor, não é tanto a análise de Marujo, mas sermos lembrados de que um profissional maduro e competente, que é um dos poucos jornalistas especializados em temas religiosos que temos, está desempregado, salvo erro há já algum tempo. Com tantos incompetentes indiferenciados nos media, este caso deixa-me perplexo e até envergonhado*.

 

* O Judeu leu e está de acordo, o que para mim é quase um Q.E.D., pois, como se diz, temos divergências de fundo. 

 

 

17
Jan17

Exercícios com uma ilha deserta


Eremita

Há duas formas de praticar a thought experiment da ilha deserta. A mais usual consiste em imaginar um número pequeno de objectos que se levaria para a ilha. Trata-se de um exercício que introduz um toque de tropicalismo e aventura na elaboração habitualmente aborrecida de listas de livros, videojogos... enfim, qualquer lista, mesmo tratando-se de objectos pouco úteis numa ilha deserta tropical, como camisolas de lã tricotadas por um familiar. A forma menos praticada consiste em perguntar se continuaríamos a fazer na ilha deserta as mesmas actividades em que ocupamos a maior parte do dia. A falta de popularidade deste segundo exercício não se explica apenas pela impossibilidade de incluir actividades impraticáveis numa ilha deserta, como ser relações públicas, jogar ping pong, ter sexo com alguém ou qualquer outro tipo de convívio. Afinal, o exercício anterior não pede uma interpretação literal do exílio numa ilha deserta. De resto, trata-se de uma thought experiment, sem problemas logísticos. Assim, a impopularidade deste segundo exercício com a ilha deserta deve ter outra explicação, até porque os resultados podem ser bem mais surpreendentes do que uma lista. Mas se ainda não identificou a explicação, é porque tem uma vida invejável.

17
Jan17

Ninguém trabalha de graça


Eremita

Depois de José Vítor Malheiros, também Paulo Moura e Alexandra Lucas Coelho foram dispensados pelo Público de David Dinis. Pelo que se percebeu, o protocolo de dispensa consiste em fazer ao jornalista uma proposta tão desinteressante em termos remuneratórios que a única saída digna para um jornalista profissional  com uma carreira longa e prestigiada é bater com a porta. Ficou a perder o jornal.

 

Quando escrevi no Metro, fui pago. Mas no "i" escrevi de borla. Aliás, segundo creio, naquela altura o "i" não pagava a nenhum dos seus cronistas. Quem aceitou escrever em tais condições só o fez por não ter sido convidado por outro jornal para escrever uma coluna remunerada e porque escrever num jornal dá, em teoria, algum capital social. No meu caso, como ao fim de um ano e pouco o raio do capital social tardava em aparecer, preferi voltar a ter manhãs de domingo sem prazos para cumprir. Mas não deixei de escrever no "i" por sentir que estava a desvalorizar o trabalho de outros ao aceitar escrever de graça, uma crítica que me chegou a ser feita várias vezes. Se não entendo o colunismo como uma profissão, nem aprecio o processo de escolha de cronistas, muito influenciado pelo amiguismo, não me choca uma estratégia de promoção pessoal que passe, numa primeira fase, por aceitar qualquer coisa. Insisto na ideia: senti durante uns tempos que estava a ser pago; o jornal usava-nos para encher as suas páginas e nós usávamos as páginas do jornal para propagar as nossas ideias, os interesses, as manias, o nome e a fotografia. Curiosamente, o  "i" não foi um caso isolado. O cronista a custo zero existe noutros jornais, mas como diminui o capital social saber-se que ele escreve de graça, o facto é abafado. 

 

O episódio das dispensas do Público é outro campeonato. Dispensar três cronistas famosos afecta a qualidade do jornal e David Dinis parece não gostar do pluralismo, a menos que comece a despachar também colunistas de direita, mas o caso só será mesmo grave para os leitores se os colunistas dispensados não receberem propostas decentes de outros jornais ou revistas. Como é óbvio, no caso deles uma proposta mal remunerada é inaceitável, pois baixar-lhes-ia não só o saldo da conta bancária como o capital social construído ao longo de muitos anos a escrever na imprensa. 

 

PS: a ligação entre o parágrafo do meio e os outros dois é forçada, mas precisava de desabafar.

 

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