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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

14
Nov16

Biblioteca de Bolso


Eremita

DesenhoLiaALerNoMar.jpg

A tarde foi de bricolagem no escritório: reforcei os apoios de uma prateleira que havia cedido ao peso de manuais, gramáticas e dicionários; coloquei na parede, à direita de onde me sento, um auto-retrato da L. a ler dentro de água, que muito aprecio, e noutra parede uma ilustração  de cogumelos inglesa, oferecida há muitos anos por um amigo e que andará sempre comigo; fiz ainda algum trabalho de electricista e, com alguma sorte, não haverá curtos-circuitos nos próximos tempos. O escritório é minúsculo, mas começa a ficar confortável, relativamente defendido dos ataques das bebés e tão funcional que voltei a pensar em projectos literários. Falta arrumar melhor os livros, abarrotar as prateleiras e saturar as paredes com fotografias e outra memorabilia - "como no Pavilhão Chinês", disse a L. Isso mesmo, tirando as porcelanas.

 

Durante os trabalhos, ouvi de enfiada vários programas do podcast Biblioteca de Bolso, de Inês Bernardo e José Mário Silva. Foi uma experiência curiosa pela familiaridade. Os vários podcasts literários ou de temas culturais que oiço há vários anos caninamente são quase todos norte-americanos ou franceses, mas a familiaridade de Biblioteca de Bolso vai além da língua mãe. Refiro-me sobretudo ao universo de referências literárias e outras que não encontro nos podcasts estrangeiros, e não penso nos vários os autores portugueses referidos (Maria Gabriela Llandsol, Raul Brandão, etc.), que ninguém conhece lá fora. O cânone literário ocidental real está sujeito a variações regionais e temporais influenciadas por forças difíceis de estimar: terá faltado um homólogo norte-americano ao editor influente que fez de Marguerite Yourcenar uma autora popular em Portugal na década de 80? Ou, existindo um, viu os seus esforços frustrados, já que nos EUA a influência da França na literatura ficou reduzida há décadas a uns quantos guetos universitários intoxicados pela French Theory, ao contrário de Portugal, um país até ao 25 de Abril culturalmente dominado pela França. Mais coisas familiares: alguém seleccionar o livro Cosmos, de Carl Sagan, ou A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro; alguém lembrar a presença de Mário Viegas na RTP; alguém ter publicado um conjunto de cartas ficcionadas entre Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa, provavelmente não com os contornos de um projecto megalómano que alimentei na juventude (Pessoa, o lisboeta séssil, desloca-se a Paris para tentar impedir o suicídio de  Sá-Carneiro), mas que terei de ler; enfim, alguém ter lido uma passagem de Rousseau a expor uma ideia com que, em tempos, não sem um certo dramatismo e até uma inesperada ressaca da minha parte, desafiei os meus alunos, desconhendo que era de Rousseau, embora tivesse a certeza de que não me pertencia, por ser infinitamente mais luminosa e perigosa do que a da ridícula e inóqua lista dos 5 objectos que levaríamos para uma ilha deserta: 

 

Pour moi quand j’ai désiré d’apprendre c’était pour savoir moi-même et non pas pour enseigner ; j’ai toujours cru qu’avant d’instruire les autres il fallait commencer par savoir assez pour soi, et de toutes les études que j’ai tâché de faire en ma vie au milieu des hommes il n’y en a guère que je n’eusse faite également seul dans une île déserte où j’aurais été confiné pour le reste de mes jours. Jean-Jacques Rousseau, Les Rêveries du Promeneur Solitaire.

Poderia continuar esta lista. Aliás, é bem possível que a continue. Biblioteca de Bolso é, a 14 de Novembro de 2016, o melhor podcast nacional. Oxalá os autores continuem e resistam sempre à tentação de convidar celebridades fora do universo que tratam, uma tendência que anda a destruir a sociedade ou pelo menos a esgotar a minha paciência. 

 

Continua 

 

12
Nov16

Necrológio: note to self


Eremita

Leonard Cohen 1974.jpg

Quando morre alguém que todos admiram menos tu, deves calar-te. Haverá sempre outro melhor e mais justo a morrer nesse mesmo dia, mas nunca instruas os vivos sobre que morte devem chorar. Serias inconveniente e dir-te-iam que és uma besta. Convenhamos que serias mesmo uma besta. Não devemos inquinar a expressão dos bons sentimentos alheios, que são tão raros. Repara: quando morre uma celebridade unanimemente admirada, as pessoas explodem de empatia e parece que se tocam por instantes, como os raios geotrópicos de dois fogos de artifício próximos e síncrones. Não sejas cínico. Não, o choro colectivo por um morto não é apenas a derrareira recompensa de um longo investimento emocional, um sell! sell! de uma marca em acentuada queda bolsista. Até a mais egocêntrica das criaturas te daria a impressão de que as suas preocupações não acabam no seu umbigo, se lesses ou escutasses até ao fim o que disse sobre a relevância da celebridade na sua vida. Em mais nenhum outro momento essa pessoa terá a ocasião de se transcender e, só por isso, a celebridade que desprezas, por lhe faltar talento ou não te parecer sincera, cumpriu uma função. Admite então que este é um problema teu, que deves gerir em silêncio. Naturalmente, podes pedir a Deus, ou fazer figas, para que no dia da tua morte não morra uma celebridade que desprezas. Esse é um anseio tão legítimo e natural como não querer ser morto por uma bala perdida de uma rixa absurda. Quanto ao resto, cala-te. 

 

 

09
Nov16

America, di' una cosa di sinistra, di' una cosa anche non di sinistra, di civilità... Too late


Eremita

 

Fui um dos patetas que nunca pensaram que a vitória poderia ser de Donald Trump e nos últimos dias, como o mais arrogante dos idiotas adeptos das teorias da conspiração, convenci-me de que o empate técnico era uma forma de os media manterem o interesse na campanha. A posteriori é fácil explicar o que se passou. A derrota dos Democratas não aconteceu esta madrugada, mas no dia em que Bernie Sanders perdeu para Hillary Clinton. Sanders iria assegurar o grosso do voto dos Democratas e muito do voto de protesto que deu a vitória a Donald Trump. A proverbial prudência e moderação do "centro-esquerda" deu nisto. 

08
Nov16

A Baby TV discrimina os pais


Eremita

Houve um período em que as minhas filhas diziam "papá" tantas vezes como "mamã". Durou pouco e talvez tivesse coincidido com uma fase em que o ascendente biológico da mãe já não se notava e ainda não se faziam sentir os efeitos da crescente socialização em que a figura materna é omnipresente. Basta lembrar que na Baby TV há uma canção sobre a mãe, mas não sobre o pai, há uma avó (do macaco "MJ") e mesmo um avô (que faz robôs), mas não há um pai. Para a Baby TV, como nas histórias em que os bebés são trazidos pelas cegonhas, os pais são embaraçosas aberrações da natureza de onde saem espermatozóides. Enfim, este viés, que secundariza o pai nos primeiros anos da parentalidade e se entende como uma compensação para as inúmeras injustiças que as mulheres ainda sofrem, não incomoda assim tanto e chega a ter graça, pelo menos até ao dia em que um juiz pergunta à criança em casa de quem quer ficar a viver. 

 

07
Nov16

Roland Dyens (1955-2016)


Eremita

Roland Dyens desapareceu há uns dias. Foi um intérprete, compositor e - sobretudo - um arranjador brilhante, que enriqueceu o repertório da guitarra clássica. Fica a obra.

 

05
Nov16

Unanimismo por contágio


Eremita

Um dos traços distintivos dos programas de tertúlia política portugueses há vários anos no ar é a tendência para que, programa após programa, intervenientes de pólos inicialmente distintos se assemelhem cada vez mais nas opiniões. Dizem que o mesmo acontece no plano da fisionomia ou da estética capilar aos cães e seus donos, mas julgo tratar-se de apenas uma coincidência que não nos ajuda a encontrar uma explicação para o fenómeno. O caso mais óbvio é o do programa Bloco Central, da TSF, em que o ouvinte tem a oportunidade de comparar uma opinião dita num português fluído com a mesma opinião num português mais hesitante e pobre, marcado pelo bordão "Estado de direito". Também entre o quarteto do programa Eixo do Mal é raro encontrar quatro opiniões distintas, mas não se julgue que discutir assim não exige técnica e um grande treino. Por exemplo, o treino que faz com que uma pessoa resista ao impulso natural de dizer apenas "concordo em absoluto", que não seria boa televisão. Embora esta prática da não-referenciação seja muito frequente na opinião escrita, apenas só em parte devido ao autismo dos jornais, que tendem a ignorar-se, e à impossibilidade óbvia de se referir na escrita diária quem abordou o mesmo tema nesse dia, na televisão este exercício atinge o apuro que permite ao comentador, perante muitos milhares de espectadores, avançar com a intervenção que tinha arquitectado na cabeça ou nos papéis sem o menor ajustamento em função do que acabou de ouvir de um colega, mesmo se para dizer essencialmente o mesmo. Não sei se esta característica chegará a idiossincrasia nacional, mas creio que não acontece com a mesma frequência nos EUA e na França, países em que o debate político entre comentadores de longa data mantém-se polarizado, como convém (um exemplo: Zemmour e Naullau). Enfim, quem quiser aproveitar o famoso ditado judaico "pergunta a 2 judeus e terás 3 opiniões" para caracterizar o comentário político televisivo em Portugal, só precisa de trocar os números de posição. 

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