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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

18
Out16

A Sibila, de Agustina Bessa Luís


Eremita

A princípio, são os verbos: ensarilhar (pág. 10), gorgolejar (pág. 11), denastrar (este nem aparece nos dicionários online, mas significa "destrançar") (pág. 11), engatinhar (pág. 13), enovelar (pág. 13), estrupir (pág. 14), enrubescer (pág. 15), corricar (pág. 15), embuçar (pág. 17), esbeiçar (pág. 18), enfarruscar (pág. 18), repicar (pág. 23), supurar (pág. 23), caçoar (pág. 24), aboletar (pág. 26)... 

 

Aqui vai nascer um texto com alguma literatura comparada (mas pouca), em que se defende a tese de que apenas o limitado sentido de humor da autora impede  o romance A Sibila de ser uma obra-prima. A propósito, para este texto reli as primeiras 25 páginas de  Os Cus de Judas e de Os Sinais de Fogo. A conclusão parece óbvia. A pirotecnia estilística do primeiro envelheceu muito mal (chega a enjoar) e o segundo é muito divertido. Mas seria desonesto não admitir que a cadência do jovem Lobo Antunes, muito mais do que as metáforas, era irresistível. 

 

15
Out16

Bob Dylan: um Nobel reconfortante


Eremita

Captura de ecrã 2016-10-15, às 10.41.14.pngFonte

Um Nobel bem atribuído deve cumprir duas condições: 1) o vencedor merecer o prémio; 2) a atribuição do prémio diminuir a probabilidade de ser entregue no futuro a quem não o mereça. Sobre o Nobel da Literatura deste ano, não é importante saber se letras de canções são poesia, bastando aceitar que são literatura. Admitindo que estamos de acordo, devemos então perguntar se algum outro escritor de canções é mais merecedor do prémio do que Bob Dylan. Aqui menciona-se uma possibilidade aterradora, o que nos oferece uma perspectiva iluminada sobre o Nobel da Literatura deste ano: afinal, havia o risco - impensável até há uns dias - de ter sido atribuído a um rabiscador de poemas para engatar raparigas. Não há forma de saber se estivemos perto desse desastre, mas podemos ficar descansados quanto ao futuro. 

14
Out16

Da vidinha


Eremita

Haverá um professor universitário que terá recebido muito dinheiro para - alegadamente - ser o escritor-fantasma da tese de mestrado de José Sócrates. Se houvesse jornalismo neste país, alguém já teria comparado o estilo de escrita dos textos assinados pelo professor universitário com a prosa de A Confiança no Mundo, usando para o efeito sofware sofisticado. É coisa para demorar uma tarde, mas não há jornalismo "de investigação" e nesta história parece interessar mais a proveniência do dinheiro do que o seu destino. Contra esta maré, friso que aqui no Ouriquense propomos serviços de escritor-fantasma a preços bem mais modestos do que os alegados honorários do professor universitário, apesar de este escriba também ser doutorado e ter sido professor universitário. Porém, friso que nos recusamos a redigir os trabalhos académicos de outros, porque dá um amargo de boca muito desagradável, e que preferimos a prosa epistolar, a autobiografia e o romance psicológico. No post de apresentação deste serviço, lê-se ainda: 

O cliente fica com o anonimato assegurado e pode avaliar da qualidade do produto antes de se comprometer; eu fico com a possibilidade de testar o interesse real do cliente antes de investir a fundo na encomenda e posso retaliar se a cobrança da quantia total acordada falhar; o Estado cobra os impostos devidos. Reservo-me o direito de recusar trabalhos (por exemplo, um bilhete suicida), mas justifico sempre a minha resposta. Admito realizar algum trabalho pro bono, mas só depois de equilibrar as contas e apenas naquelas situações caricaturais em que os bons e os maus estão absolutamente definidos - ao menor sinal da complexidade da condição humana dispara a bandeirada. 

Como funciona o serviço? O cliente escreve-me (eremitadaplanicie@sapo.pt) a expor o seu pedido e fornecendo-me todos os elementos que julgar pertinentes. Podemos discutir a elaboração de textos escritos em estilos que não aparecem descritos no tarifário. O cliente só paga no fim. Se não ficar satisfeito, tem direito a uma segunda versão, sem acréscimo de preço. 

 

Tarifário (actualização permanente)

Carta de amor.............................................................................................................................................................................................................0.05 € /palavra* 

Carta ao pai, pelo filho...................................................0.1 € /palavra

Carta à mãe, pelo filho.................................................0.05 € /palavra

Carta à mãe, pela filha...................................................0.1 € /palavra

Carta ao pai, pela filha.................................................0.05 € /palavra

Comunicado de treinador à massa associativa............ 5 € /palavra

Carta anónima a colega de trabalho que fede (1)......... 1 € /palavra

(1) em letra de imprensa recortada............................. 1.4 € /palavra

Correio de leitores na imprensa [qualquer tema].......0.2 € /palavra

Frase de fim de namoro em sms ou espelho embaciado..3 € /letra

Declaração de voto vencido [qualquer tema].............0.3 € /palavra

Post insultuoso à maneira de Camilo Castelo Branco..0.1 € /letra**

Post insultuoso à maneira de Vasco Graça Moura.......0.1 € /letra**

Post insultuoso à maneira de Vasco Pulido Valente ...0.2 € /letra**

Prosa feminista à maneira de Inês Pedrosa.............0.1 € /palavra**

Tweet no prazo de 1 hora...................................................5 

Tweet no prazo de 10 minutos........................................ 20 

Serão de tweets (3 horas) com acesso à conta.......... 150 

Teoria da conspiração à Pacheco Pereira................0.1 € /palavra**

Autobiografia..............................................................0.05 € /palavra

Romance.....................................................................0.05 € /palavra

 

*Não inclui espaços, as reticências contam como um ponto final e pontos de exclamação ou de interrogação concatenados são de borla, embora fortemente desaconselhados).

** Válido apenas para causas justas. Há desconto se o visado for uma figura antipática para o Ouriquense

 

 

 

13
Out16

A mãozinha de Deus


Eremita

Salvo erro, uma das gémeas revela-se canhota, como o pai. Vê-la com o indicadorzinho da mão esquerda espetado no ar quando lhe pergunto a idade tem sido um deleite. A confirmar-se, interpretarei este facto como um apoio de Deus* ao projecto Do canhotismo (aka A coligação das minorias), uma tentativa de fundir divulgação científica e ficção, sem que uma comprometa a outra, antes pelo contrário. É este projecto, condenado pela miragem da sinergia, que, por causa da gémea, minha filha e agora também minha irmã, me sinto obrigado a concluir. Mas parece-me oportuno relembrar a paráfrase de uma conhecida citação de Foucault que guia Julião, a personagem principal do projecto: "Temos de aspirar a tornarmo-nos canhotos e não a reconhecer que o somos".  

 

* Sem ironia nem vício de linguagem, mas enquanto possibilidade que o pensamento agnóstico não descarta, bem entendido.

 

06
Out16

O tropismo da vitória


Eremita

 

Nesta audição para Secretário Geral da ONU, Guterres começa em francês, desenvolve em espanhol e conclui em inglês. Por momentos, admiti que se fosse levantar e tocar piano, mas não foi necessário. Tive pena dos outros. Era inevitável que iriam ser trucidados pela nossa "picareta falante", um candidato imbatível no bullshiting. O Público de hoje desfaz-se em elogios a Guterres, o aluno brilhante, o homem de memória e inteligência prodigiosas, o católico humanista com vontade de salvar o mundo inteiro, o Secretário Geral da ONU eleito de forma "cristalina". É o mesmo homem que ainda ontem - o que são quinze anos em política? - o país desprezou por se ter demitido e feito da palavra "diálogo" um eufemismo para "inacção". Aparentemente, ganhamos todos e, claro, "estamos todos de parabéns". É nestas alturas que sinto falta de Vasco Pulido Valente. 

05
Out16

"O paparazzo da história da literatura..."


Eremita

 

PN.png

 

Dentro de uns dias, a 1 de Dezembro, vão celebrar a restauração da sua nacionalidade, de terem sacudido a soberania dos Filipes de Espanha. No dia seguinte, voltarão a falar de bancarrota e de intervenção estrangeira. Pobre Portugal! Miguel de Unamuno Lisboa, Novembro de 1908

"Pessimismo nacional", um ensaio de Manuel Laranjeira, publicado na imprensa em 1907 e 1908, foi este ano republicado pela Guerra e Paz, juntamente com o texto "Portugal, Um Povo Suicida", de Miguel de Unamuno. O livro conta ainda com notas biográficas e um texto de apresentação do competente Helder Guégués. O resultado é um objecto curioso, a começar pelo contraste entre a cor garrida e o tema, a que se juntam alguns enfeites, como uma capa golpeada, frases que se agigantam no meio do texto e o desenho de uma forca, recorrente e algo anacrónico, pois naquele tempo os intelectuais suicidavam-se sobretudo com um tiro na cabeça -  e, por vezes, até mesmo com dois tiros. Curiosa também é a prosa de publicitário que descreve a colecção a que o livro pertence. Aprendemos que "Livros amarelos é o paparazzo da história da literatura e do pensamento: revela as relações comprometedoras de textos célebres". Incapaz de perceber o que há de comprometedor entre os textos de Laranjeira e de Unamuno, o leitor conclui que se trata de uma colecção para o "grande público", em que dois panfletos, muito convenientemente de domínio público, juntos ganham espessura de livro à custa de margens generosas e grafismo criativo. Vivas à literatura e à inventividade do mercado livreiro!

 

 

 

 

04
Out16

Heidegger e o meu pomar


Eremita

Será que o preconceito intelectual e o clichê cultural influenciam positivamente a criatividade na Filosofia? Lembrei-me desta questão e da conferência em que Nicolas de Warren a discute quando percebi que ninguém na minha família está verdadeiramente interessado em investir num pequeno pomar. Para a minha mãe, dona das terras, é uma criancice; para o meu irmão, um desperdício de dinheiro; para a minha mulher, um capricho que se deve respeitar apenas por compromisso conjugal; para as miúdas, uma ameaça; para as bebés, um desejo incompreensível. O pomar, cujos elementos essenciais são o moinho de vento que puxaria a água do poço e um conjunto de árvores, provavelmente romãzeiras, tem sido uma ideia persistente. Mas será que a ambição pessoal pode influenciar positivamente a vida familiar?  Continua

 

03
Out16

A lata de Frederico Lourenço


Eremita

Frederico Lourenço, académico helenista e tradutor de clássicos gregos, tenta passar a ideia de que o seu trabalho de tradução da Bíblia “não esconde as realidades inconvenientes” e é "não-apologético" (não defende a religião contra os seus inimigos). Mas quando se lê a sua introdução aos 4 Evangelhos fica a impressão de um penoso exercício de contorcionismo lógico. Com rigor histórico e agudo raciocínio dedutivo, Frederico Lourenço conclui (de acordo com o consenso académico) que não se conhece a autoria dos Evangelhos e discute em que altura terão sido escritos. Poderia ter ficado por aqui, mas optou por discutir dados biográficos de Jesus. Escreve que não se sabe quando Jesus terá nascido e com que idade foi crucificado, mas sem jamais colocar a hipótese óbvia. Ora, a mais embaraçosa das realidades inconvenientes é a inexistência de provas credíveis de que Jesus existiu. Omitindo-a, Frederico Lourenco escusava de se vangloriar de escrever "escravos" em vez de "servos" e outros detalhes que não incomodarão os crentes. 

 

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