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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

10
Set16

Lobotropismo


Eremita

Reunião extraordinária marcada para amanhã. Assunto: 1) como piratear uma cópia do filme Cartas de Guerra, de Ivo M. Ferreira - ética e técnica; 2) o "quem, quando e como" de caiar a nossa parede.

 

O cineclube, como projecto para dinamizar a vida cultural de Ourique, não chegou a pegar, em parte por falta de apoios camarários. Mas seria desonesto culpar o poder autárquico por um capricho nosso. Cedo percebemos que as nossas sessões ao relento em noite de Lua Nova, com a imagem projectada na única parede imaculadamente caiada entre as poucas do monte que ainda não ruíram, eram demasiado preciosas para as trocarmos por ciclos de cinema no cineteatro da vila e nenhuma avença demoveria o rapaz do cineclube, que se mantém um espírito livre, apesar de hoje se desgastar numa busca por subsídios estatais, patronos e outros contactos úteis à carreira de um jovem cineasta, azáfama precipitada quando cumpriu um quarto de século por talvez ter sentido a efemeridade da existência e avaliado as hipóteses de ser o próximo Miguel Gomes, esquecendo-se de que Miguel Gomes ainda é suficientemente novo para ser o próximo Miguel Gomes. 

A escolha de Cartas de Guerra reuniu consenso, embora por motivos diferentes. O rapaz quer tirar medidas ao realizador Ivo Ferreira, o judeu não perde um filme de guerra e eu sofro de um lobotropismo que denuncia uma adolescência vivida nos anos oitenta. Naturalmente, estamos todos predispostos a fazer pontes para as adaptações cinematográficas de três obras do arqui-rival Saramago (A Jangada de Pedra, Ensaio sobre a Cegueira e O Homem Duplicado) e as colaborações entre Agustina e Manoel de Oliveira, e também nos move a curiosidade sobre como terá Ivo Ferreira resolvido a dificuldade que é fazer cinema comercial (isto é,  dependente de uma narrativa) a partir de um autor que despreza as histórias. Muito a propósito, leia-se o competente Carlos Natálio e a Sara Figueiredo Costa.

10
Set16

Sublimação


Eremita

Escrever sobre Israel e a Palestina foi um ritual de passagem para qualquer jornalista ambicioso, mas escrever sobre a indústria da pornografia ainda é um dos exercícios obrigatórios do jornalista (masculino) com pretensões literárias. 

"A pornografia tem desde sempre na sociedade portuguesa uma posição de missionário. Tem inerente um preconceito íntimo, guardado como um animal de estimação, que se torna feroz nas horas vagas. Uma bolinha vermelha que prevalece no canto superior da consciência coletiva." 

Luís Pedro Cabral, hoje, Expresso, numa notável sequência que deixou o seu editor prostrado e a pensar em José Sócrates.

 

"A strange and traumatic experience which one of yr. corrs. will not even try to describe consists of standing at a men’s room urinal between professional woodmen Alex Sanders and Dave Hardman. Suffice it to say that the urge to look over/down at their penises is powerful and the motives behind this urge so complex as to cause anuresis (which in turn ups the trauma). Be informed that male porn stars create around themselves the exact same opaque affective privacy- bubble that all men at urinals everywhere create."

David Foster Wallace nos Annual AVN Awards de 1998 (ensaio reportagem Big Red Soon, que aparece na colectânea Consider the Lobster). 

08
Set16

Da república


Eremita

A nossa cozinha tem um chão axadrezado, feito de quadrados brancos e pretos. É um padrão muito comum em cozinhas e dizem-me que surgiu na Holanda, mas não confirmei. A única particularidade é o diminuto tamanho dos quadrados, cujos lados não chegam a um palmo, consonantes com o tamanho de uma cozinha em que a partir do seu centro consigo chegar a todas as bancadas e armários com apenas um passo. Há dois dias, deixei cair um limão e comentei  com a L. que, sobre o xadrez, o citrino - disse "limão", claro - compunha uma imagem muito bonita.  Ela concordou e, por ter uma cultura visual muito mais desenvolvida do que a minha, fiquei orgulhoso. No dia seguinte fiz um corte profundo num dedo indicador, quando a faca resvalou na cabeça do pão. Fui rápido a lavar e estancar a ferida, mas a rotação rápida com que cheguei ao lava-loiças espalhou gotas de sangue por todo o lado. Estava sozinho, a casa acordava, e o meu único impulso foi limpar logo todo o sangue, para não assustar ninguém, não me ocorrendo que, numa casa de mulheres, ainda que nem todas menstruadas, serei talvez eu quem mais se impressiona com o sangue. Foi pena. Agora que reconstituo a cena de cabeça, reparo que as gordas gotas de sangue no axadrezado da cozinha também formavam uma composição bonita. Refiro-me, naturalmente, às gotas que caíram nos quadrados brancos e quase aposto que o limão se imobilizou num quadrado preto. Entretanto está quase a acabar mais um dia e hoje não houve acidentes, pelo que me resta imaginar o axadrezado a ser conquistado por uma mancha de líquido verde soluçando de uma garrafa que tombou sem se quebrar. Os mais novos que googlem "Pisang Anbon".

08
Set16

Dave Wallace sobre frases longas


Eremita

Screen Shot 2019-04-28 at 09.47.31.png

Fonte

 

 

Há uma década e tal, jovens literatos, em parte ainda como reacção à prosa "neobarroca" do comunista Saramago, mas sobretudo desejosos de professar a sua anglofilia, tentaram promover o uso da frase curta, coincidindo este movimento algo difuso com uma campanha contra o uso do ponto de exclamação, visto como uma prática datada e algo paternalista ou até ofensiva para o leitor. Pedro lomba, por exemplo, escrevia um blog com frases curtas. Mesmo muito curtas. Curtíssimas! Vivemos hoje tempos menos absurdos. 

07
Set16

Uma nêspera no cu


Eremita

 

Só por inveja ou estupidez não se poderia reconhecer que o podcast Uma nêspera no cu se alimenta de uma grande ideia, que pela sua simplicidade e eficácia nos parece quase ovo-colombiana. Como é que ninguém se lembrou antes de fazer do jogo dos dilemas um grande programa de entretenimento? O programa terá ainda o mérito de ser falado num português vernacular rico em referências escatológicas e sexuais, e sem receio de usar nomes de figuras públicas na composição de cenários embaraçosos. Mas é pena que a noção de entretenimento e um desejo de originalidade algo infantil transformem quase todos os dilemas em situações elaboradíssimas, porém absurdas, versões barrocas de um  "preferes uma nêspera no cu ou um dióspiro?", quando se sabe que o verdadeiro dilema não é uma escolha entre dois tipos de dor física, dois tipos de humilhação pública ou dois tipos de abstinência sexual eterna, mas encerra sempre um conflito moral. Ora, o conflito moral realmente angustiante, cuja decisão tende a deixar uma ferida que não mais irá sarar, algo ao nível de A Escolha de Sofia, está praticamente ausente do podcast. Apesar das aparências,  "Uma nêspera no cu"  é o exemplo acabado da máxima retrógrada de que não se brinca com coisas sérias. 

07
Set16

Preferências


Eremita

Costumam perguntar às crianças, menos por malícia do que simples provocação, se gostam mais do pai ou da mãe. Verdadeira ou falsa, a resposta, como sabemos, nunca varia. As crianças desconhecem a sorte que têm. Porque aos pais de gémeas não chegam a perguntar nada, tal a vontade de interpretar como prova de preferência qualquer pequena diferença de tratamento, do comentário mais entusiasmado sobre uma à ausência da outra na foto enviada a parentes em que  surge a irmã. Ignoram que num pai existe um fortíssimo mecanismo de vigilância interna que mantém a contabilidade dos beijos dados a uma e a outra, dos minutos passados com elas ao colo, das vezes que cada uma, com um sorriso, uma careta ou um gesto inesperado, lhe deu gozo e da qualidade dessa sensação, medida em graus de prazer. Trata-se de uma vigilância permanente e implacável, servida por uma aritmética cega. Embora seguro de que ama as duas com a mesma intensidade, o pai inexperiente não se autoriza a amar de maneira diferente ou por motivos distintos, preferindo o conforto dos elementos de prova objectivos. Neste contexto, exclusivamente neste contexto,  a identidade genética das bebés deixa de ser uma dádiva de Deus para se revelar um desafio, quase uma tentação demoníaca.  

05
Set16

Deus voltou a falar


Eremita

Herzog, a voz mais apelativa que conheço e um homem que parece estar a envelhecer como poucos, lançou (há já uns meses) mais um filme. Desta vez não foi muito original no tópico. Mas aprendo que desprezou as redes sociais, o que só nos pode deixar com muita vontade de ver o seu documentário sobre a internet.

  

03
Set16

Abrindo o livro genealógico português de suínos


Eremita

Enumerações

Ainda mal refeito do telefonema em que fui informado de que há uma vegan na família (alargada), leio que o porco preto alentejano é exportado para ficar com selo de origem espanhola. O Ouriquense é um blog apolítico ou vagamente niilista, mas não deixa de defender um conjunto de princípios, medidas e acções, incluindo a liberdade, a laicidade e a república, um ateísmo ecuménico e exclusivamente reactivo, a meritocracia, a redistribuição para minorar as desigualdades sociais de berço, a propriedade privada com pesados impostos sobre o capital, os imóveis, a terra, o luxo e as heranças, uma medicina baseada na evidência científica, todo o tipo de humor sobre a homeopatia e demais patranhas, o incentivo constante mas discreto da natalidade, o direito a uma dieta omnívora sem implicar crueldade na hora da morte que dará sentido à vida dos animais domesticados, a promoção da figura paterna em séries de televisão de grande audiência, o ensino de versões dos clássicos da literatura na instrução primária concertado com a queima no Terreiro do Paço de toda a literatura infantil de autores vivos (que seriam poupados), a igualdade de género segundo a máxima anarco-comunista "de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades", a proibição de outdoors com imagens de criaturas sexualmente apelativas virados para estradas, bem como a de anúncios radiofónicos com buzinadelas, e um serviço público de televisão obstinadamente elitista, em que a actual RTP2 substituiria a RTP1 e uma nova RTP2 passaria em horário nobre todo o cinema da colecção Criterion legendado por Maria Velho da Costa, já para não falar num europeísmo anti-federalista e, naturalmente, na identidade nacional. O porco preto alentejano, com o sobreiro, a Laurissilva e os registos audiovisuais deixados pelo saudoso Vítor Silva Tavares, bem como algumas peças do Museu Nacional de Arte Antiga e também as manifestações culturais e o património arquitectónico que receberam ou procuram o selo de qualidade da UNESCO, ou até a Via Verde e - porque não? - verbos especialíssimos que, depois de Agustina Bessa Luís, ninguém mais voltou a conjugar com tanta economia de linguagem... enfim, o porco preto alentejano, dizia, é parte da nossa identidade nacional. 

 

Continua

 

03
Set16

Como as invejo


Eremita

Lobo Antunes fala e fuma. Já sei tudo o que ele vai dizer, mas não consigo mudar de canal. As bebés brincam na sala, de costas viradas para a TV. 

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