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OURIQ

Um diário trasladado

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21
Mai16

O amor paterno em tempos de feminismo


Eremita

Captura de ecrã 2016-05-14, às 11.17.12.png                                                                                              Foto de Johan Bävman

 

Sabe-se que o homem, tradicionalmente essencial no momento da concepção, é uma personagem secundaríssima no momento em que a mulher dá à luz e, em circunstâncias normais, muito tempo passará até que o pai se equipare em relevância à mãe, sendo incluse muitos os casos em que isso nunca chega a acontecer. Trivial. Sucede que as conquistas do feminismo criaram alguma confusão na cabeça de quem se estreia como pai. Enfim, talvez esta seja uma generalização abusiva e a confusão apenas minha, tratando-se de algo inconfessável e por isso ausente do espaço público, menos por vergonha de quem contaria do que por dificuldade em encontrar alguém com paciência para ouvir. Feita a ressalva, avancemos. 

 

As ideias de Freud já viveram dias melhores e a noção de "inveja do pénis" soa hoje a folclore intelectual datado, mas a progressiva igualdade de género, por vezes feita à custa de uma desvalorização absurda de diferenças biológicas óbvias, está a forjar o complexo simétrico: a "inveja do útero" - note-se que a passagem só é contraditória se o conceito for interpretado de forma literal, o que seria um erro. Uma manifestação deste complexo veio da Escandinávia, essa espécie de paraíso possível na Terra que nos diz como deveríamos todos viver em sociedade. Para promover a igualdade de género, um fotógrafo decidiu documentar a rotina de pais que gozam de uma licensa parental extensa. Descontando o cuidado exagerado na composição de muitas cenas, que assim perdem espontaneidade, qualquer pai recente se reconheceria naquele papel e as fotografias são enternecedoras; não aparecem pais com barrigas artificiais ou em qualquer outro exercício de empatia ridículo. O único problema é que este apelo à igualdade de género acaba por frisar a desigualdade. Os homens estão hoje numa posição em que lhes é pedida a prova de que serão pais mais presentes e cooperantes do que os da geração anterior. À mulher, pelo contrário, aplaudimos as manifestações públicas de estados de alma sobre o seu papel de mãe. O exemplo famoso mais recente, que anda a fascinar todas as intelectuais e me foi dado a conhecer pela minha mulher, é o da escritora Elena Ferrante (1 e 2), embora nem sequer se trate de uma pioneira. Doris Lessing, sem a armadura do anonimato e muitos anos antes da italiana, ganhou fama de ter preterido a maternidade em favor da carreira, “committing the unforgivable”. “There is nothing more boring for an intelligent woman,” terá dito, “than to spend endless amounts of time with small children.” Proferidas por uma mulher, herdeira de uma tradição que a sobrecarregou, estas são palavras corajosas e rebeldes. Se um homem disser o mesmo, ou até se fizer uma alusão mais subtil às contradições da paternidade, será acusado de negligência, frieza, irresponsabilidade e canalhice. Que margem de subversão resta então aos homens? Nenhuma. Mas podemos esperar que em casa todos adormeçam e, em segredo, abrir um livro de Ferrante. 

 

 

 

 

21
Mai16

A solidão como disciplina


Eremita

Após anos de presença intermitente nas chamadas redes sociais, creio que as deixei de vez ou pelo menos durante um longo período a elas não regressarei. Poderia dar uma explicação nobre, como a necessidade de ganhar tempo para ler e escrever, agora que os afazeres domésticos com as bebés não dão tréguas, o número de livros por ler atingiu máximos históricos e a noção da finitude da existência se vem avivando. Mas tal explicação, não sendo errada, ficaria incompleta. Em rigor, uma das motivações para estar nas redes sociais era o conforto da sedução de sofá, isto é, a possibilidade de a qualquer instante poder interagir com uma mulher que me atraísse, como prelúdio para eventuais encontros carnais. Sendo esse modo de vida incompatível com o meu entendimento da conjugalidade, as redes sociais perderam muito do seu encanto. Acrescento ter concluído que não era popular, pois tinha um número modesto de amigos, likes, retweets, comentários e nunca assinei um post viral, o que gerou alguma frustração, e que foram raríssimos os momentos gratificantes em que descobri algo imperdível ou tive uma troca de palavras memorável. Nunca voltei a sentir nas redes sociais, fosse no caldeirão de emoções do Facebook ou na torrente de ironia esforçada do Twitter, o mesmo entusiasmo que os blogs me deram entre 2003 e 2007. Nesse tempo, sobretudo logo nos primórdios (2003-2004), só por lá andava quem gostava de escrever e recordo hoje textos, polémicas e outras interacções com um sorriso discreto; nas redes sociais, anda quem gosta de aparecer e a massificação banalizou o meio. Oscilando entre as explosões de indignação que caracterizam as caixas de comentários dos jornais online e tendo trocado o elitismo pelos prazeres fáceis, o ambiente das redes sociais é como um táxi em que o taxista  barafusta com o mundo mas ouve sempre a alienante Rádio Comercial

 

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