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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

15
Out12

Poesia inédita do rapaz do cineclube


Eremita

O rapaz do cineclube ainda não tem idade para desistir de escrever poesia. Quando o filme não é de acção, improvisamos umas tertúlias que começam ainda com o genérico final a correr. Por vezes, acompanho-o à guitarra. Mas o mais frequente é o rapaz declamar a cappella e de cor. Da noite de ontem, só gostei deste poema. Nunca pensei que o puto escrevesse assim e fiz questão de partilhar a minha surpresa. Também pensei que ele ainda seria virgem, mas nada disse. 

A pernoita

Emendamos os corpos nas sombras do quarto
Troco órgãos por sentidos e ouves ao ouvido
Síncrono o peito não nega só que não cede
Não te tenho na mão, decoro-te nos dedos
Mas o tremor que se converte em riso, o que é?
Perfeitos na metade de quem não se entrega
Será noite outra vez e aqui estarei de novo
No quarto nu está mal corrida a persiana

14
Out12

Tocar


Eremita

Há poucas sensações mais agradáveis do que acabar de tocar, sentir que não fomos para um outro lugar, nem para um outro tempo, nem sequer para um outro estado de espírito, mas que ainda assim estamos a regressar. 

12
Out12

37


Eremita

Screen Shot 2019-05-04 at 19.18.33.png

(pub) A brief history of romance comics

- Mas não se diz antes acção- reacção?

- Neste caso é mesmo reacção-contra-reacção.

- Você complica tudo.

- Reacção-contra-reacção resolve o problema da origem.

- Resolve?

- Bem, não resolve, ignora-o.

- Não percebo nada.

- Sabe, quando ouvia o registo audio da peça...

- Mas ele não costuma filmar?

- Houve um problema técnico, do segundo acto só tenho o som.

- Azar o seu, não vê a [Margarida] Marinho. Gira, não é?

-  Tem partes giras.

- Não seja grosseiro.

- Quis dizer que tem partes na peça em que parece gira.

- Ai, eu acho-a giríssima. Quem me dera chegar à idade dela assim.

- Não têm a mesma idade?

- Olhe, explique é essa reacção-contra-reacção.

- A peça incomodou-me.

- Também vi. Fui com o meu marido. It's complicated.

- Por favor, você não pode resumir o grande mergulho de Bergman à essência da conjugalidade a um it's complicated.

- Mergulhe lá, então. Mas não se afogue. 

- Eu via a peça e só me concentrava no acessório.

- Nas pernas da Marinho?

- Não. Na violência doméstica latente e na parentalidade.

- Ai, só lhe fica bem.

- Mas a peça ignora a parentalidade. Aquele homem é um monstro.

- Quando tiver um filho, isso passa-lhe. 

- Acha?

- Você precisa de se trivializar um pouco se quer continuar a ter opiniões excêntricas sem dar impressão de desespero ou loucura.

- ...

- Surpreendi-o, certo?

- Sim.

- Nem sabe o que está a perder. Mas não se assuste.

- Você não me assusta.

- Não se assuste com as suas opiniões.

- Eu não estou assustado.

- Claro que está. Parece um menino. Venha cá...

- Deixe-me. 

- Já viu que podíamos ser personagens naquela peça.

- Não comece.

- Isto não é começar.

- Não?

- É reeeecomeçar. Ahah.

- Não se pode conversar consigo.

- Aposto que não conversa com mais ninguém aqui.

- Tenho o Judeu.

- Por favor, o Judeu é um sociopata, coitado.

- Não gosto que fale assim dele.

- O Judeu casou?

- Não.

- O Judeu tem filhos?

- Tem.

- Tem?

- Tem um.

- Cuida dele?

- Já é crescido.

- Educou-o?

- Não, foi a mãe.

- Ah, pois.

- O quê?

- Nada, nada.

- Está a insinuar que o Judeu...

- Essa conclusão é sua. 

- O Judeu é um criador.

- E o Bergman foi o quê, contabilista?

- Está a colar a peça à biografia do autor.

 

Continua.

 

 

05
Out12

36


Eremita

Screen Shot 2019-05-04 at 19.17.12.png

(pub) A brief history of romance comics

- O seu busto é republicano, que não sobrem dúvidas.

- Acha?

- De certeza. O seu cirurgião é maçon?

- Não faço ideia.

- Veja a figura da Liberdade, do Delacroix.

- Aquela gorda com a bandeira?

- Uma mulher saudável. 

- Poupe-me. 

- Você é monárquica, não é?

- Adoro a Kate Middleton.

- Mesmo depois do Ultimato?

- A Kate é uma trendsetter, sabia?

- Eu sou mais Liberdade, do Delacroix.

- Sim?

- Sim.

- Assim?

- Vá. Componha-se...

- É assim, não é?

- Fal... falta a bandeira.

- Dê-me a sua camisa.

- Não me vou des...

- Dê-me a sua camisa.

- Você é louca.

- Ai, pêlos no peito, que rústico.

- ...

- E agora?

- Falta o barrete frígio.

- Como é?

- Vermelho. 

- Tem alguma peça vermelha?

- Não.

- Eu tenho. 

- ...

- Assim?

- Precisa de uma dobra na ponta.

- Não a quer fazer?

-...

- Está com vergonha?

- Não sei se devo.

- É só renda e sou asseada.

- Falta tecido para um verdadeiro barrete.

- Não lhe quer tocar?

- ...

- E?

- É macia, apesar da renda.

- Não a quer cheirar?

- E a ética republicana?

- Viva um bocadinho. É só lavanda. Não embriaga.

 

 

 

 

 

02
Out12

Frase de Paris ainda ecoa em Ourique


Eremita


 

Nepal, 1998

 

Quase todas as frases se esquecem e só algumas se tornam - como se diz agora - virais. Mas há ainda frases que, escapando ao esquecimento imediato, ficam aquém do ditado, da antologia de citações, daqueles picos de popularidade que a televisão gera. Estas  frases propagam-se dentro do grupo de amigos ou da família, incapazes de dar o salto para a fama nacional, um pouco como as celebridades de bairro. No meu grupo de Paris, havia uma frase dessas: "não são os teus slides".

 

Já ninguém faz sessões de diapositivos para contar as férias, mas ainda nos lembramos. No grupo de Paris, em meados dos anos 90, surgiu a moda do trekking no Nepal. Por uma sucessão de acasos que não importa lembrar, quatro elementos desse grupo visitaram o Nepal em 3 viagens distintas (dois foram sozinhos e dois outros como casal), o que gerou três conjuntos de diapositivos sobre o mesmo percurso nas montanhas e sobre Katmandu. Ora, numa das sessões de diapositivos, um dos elementos do grupo, por ter sido o pioneiro nas viagens e por feitio, não resistiu a intervir quando outro elemento do grupo mostrava os seus diapositivos, ofuscando-o com a sua eloquência e graça. Ao longo do serão, esta sua tendência irreprimível começou então a ser fortemente censurada pela sua mulher, que dizia: "Pedro, não são os teu slides". A frase ficou e é das que mais recordo, quando me apetece dizer e fazer muito mais do que aquilo a que julgo ter direito. Não são os meus slides

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    Lamento não partilhar essa obsessão com o excesso ...

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