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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

15
Jun12

 

 


Meus amigos,

 

Ourique precisa de se impor no universo cultural lusitano. Não podemos ser apenas a capital do porco preto, nem depender das coordenadas geográficas de uma batalha como um náufrago depende da bóia. Ourique precisa de uma movida. Por isso, eu, Fausto Gomes, futuro candidato independente à câmara da nossa vila, apoio o movimento que visa alterar a tradução do título de Infinite Gest. Não li o romance, sou um homem de dossiers, do parecer técnico, e penso até que a literatura é decadência, é escapismo, é coisa de homem pouco empreendedor. Mas adiro à causa. Contra Lisboa. Por Ourique. Sempre por Ourique.

13
Jun12

Deus me perdoe


Eremita

Está a ser uma semana em que já por mais de uma vez fui agredido online por uma famosa prosa de Miguel Esteves Cardoso, o Elogio ao amor. O problema não é a prosa; MEC será sempre a referência da minha geração para uma forma iluminada de olhar a vida e assinou textos memoráveis. O problema são os aficionados de MEC em herd thinking. Não é coisa bonita de testemunhar e chega a ser perturbador ver como a própria prosa do cronista vai perdendo qualidades a cada novo elogio.

 

Este episódio confirma a importância da biblioteca pessoal. Se eu tivesse aberto um livro de crónicas de MEC e (re)lido o Elogio ao amor debaixo do plátano, teria apreciado a prosa, nada incomodado pelo seu tom assertivo, nem pela banalidade da sua ideia central, inúmeras vezes repetida, que é o elogio da paixão violenta, urgente e efémera. Mas o mal está feito e foi assim que uma crónica de Pedro Picoito, expressando uma ideia diametralmente oposta e com chancela do Vaticano, me pareceu tão mais arrebatadora do que as frases de MEC, que os fãs fazem ecoar como clichês. 

13
Jun12

Novas de Lisboa


Eremita

- Judeu, de Lisboa só recebo notícias de mortes e nascimentos. 

- Os teus amigos já começaram a morrer?

- Os pais.

- E são os filhos dos teus amigos que têm filhos?

- Não. São mesmo os meus amigos.

- Mas tu tens que idade?

- Tu sabes a minha idade. 

- Estão dizer-te que ainda vais a tempo.

- Não quero falar sobre isso.

- Continuas sem procriar.

- ...

- Percebo a tua estratégia.

- A minha estratégia?

- Pensas que um filho tardio é um turbo.

- Um turbo?

- Pensas assim: "se aguentei este tempo todo sem filhos, quando vier o primeiro ficarei supersónico".

- Tiveste o Adriano com que idade?

- Tinha 51 anos. 

- Ficaste supersónico?

- Fui supersónico até aos 30. É essa a nossa diferença. Tu nunca foste supersónico. 

- Judeu, vai olear a máquina do movimento perpétuo. 

10
Jun12

Crise: mode d'emploi


Eremita

Este vídeo, pela qualidade da interpretação, proximidade e ângulo de filmagem, é um excelente contributo para um dia conseguir tocar esta sublime peça sem gastar dinheiro em professores. O meu obrigado à Lodi, Stagione Internazionale di Chitarra Classica 2011.


09
Jun12

Um título trágico


Eremita

 

A Quetzal lança a tradução de Infinite Jest em Novembro (vem no Ípsilon). Trata-se de um acontecimento editorial e espero que façam com Wallace o que fizeram com Bolaño: muito barulho. O artigo do Público faz referência a "100 notas [de rodapé]", o que me deixa apreensivo: foi lapso da jornalista Isabel Coutinho ou a tradução elimina (388-100=) 288 notas de rodapé? * A tradução é de Salvato Telles de Menezes e Vasco Telles de Menezes, pai e filho, que "optaram por dividir o livro", razão para ficar ainda mais apreensivo, apesar do curioso desafio académico que será descobrir no livro a descontinuidade de Telles de Menezes, ou seja, o sinal de pontuação que separa o trabalho dois dois tradutores. Mas o mais assustador é o título que pretendem dar ao livro: "A Piada Infinita". Estão malucos? Assim de repente, consigo lembrar-me de uma alternativa que, não sendo ideal, tem uma adequação polissémica e sonoridade superiores: "A Graça Infinita" ou apenas "Graça Infinita". Enfim, qualquer solução me parece melhor.  Não só "piada" é das palavras mais feias que temos, como "A Piada Infinita" é uma expressão dominada pelo contraste entre a brevidade que associamos à piada e a eternidade para que "infinita" remete, o que seria inteligente e inteligível se não corrompesse a ideia do romance. Por favor, encontrem outro título. O próprio Wallace teve um título provisório antes de se decidir por Infinite Jest

 

Rogério Casanova, com justiça descrito como "o maior especialista português da obra de Foster Wallace", tem a obrigação moral de usar a sua autoridade para impedir esta tragédia. Mas como Casanova, com a excepção que foram as eleições no SCP, não tem por hábito intervir na realidade antes de a realidade lhe surgir nas mãos devidamente contextualizada por uma capa e contracapa, o melhor mesmo é criarmos um movimento de cidadãos. Contem comigo para marchar sobre Lisboa e parar as rotativas. Se houve vaga de fundo para alimentar o ego de Manuel Alegre, há vaga de fundo para qualquer coisa. Juntemo-nos.

 

* A falha foi minha e peço desculpa a Isabel Coutinho pela precipitação. São "100 [páginas] de notas" e não 100 notas de rodapé.

 

 

09
Jun12

A estética indie serviria o Ouriquense?


Eremita

 

Não serviria. Seria muito fácil trazer ao Ouriquense uma pitada de Wes Anderson, mas que mérito haveria nisso e que vantagens? Nenhum mérito. Trata-se de uma estética tão batida que já deve existir um filtro nos iphone para fazer fotos indie. E também não vejo grandes vantagens, porque o único problema real do Ouriquense é a falta de poder de concretização, o que não pede uma solução estética, pede disciplina. Então e o moço de recados? Embora admita que a imagem de um rapaz montado na prancha no meio da barragem do Monte da Rocha possa ser tida por opção indie, não abdico do único surfista de Ourique, por me parecer que é sobretudo um caso de absurdismo, ainda que até agora mal explorado. 

 

07
Jun12

O ouvinte em loop


Eremita

Il vit alors que dans sa résolution de ne pas prendre acte, de ne pas avoir été touchée par la nouvelle qui venait de lui être notifiée, de ne pas seulement rester muette, mais d’avoir été sourde comme nous l’affectons, quand un ami fautif essaye de glisser dans la conversation une excuse que ce serait avoir l’air d’admettre que de l’avoir écoutée sans protester, ou quand on prononce devant nous le nom défendu d’un ingrat, Mme Verdurin, pour que son silence n’eût pas l’air d’un consentement, mais du silence ignorant des choses inanimées, avait soudain dépouillé son visage de toute vie, de toute motilité...  Un Amour de Swann

Nas últimas três ou quatro semanas, tenho ouvido o CD de uma secção do Un Amour de Swann incessantemente. Não é a primeira vez que volto a escutar uma passagem, porque oiço e volto a ouvir logo de seguida cada CD antes de avançar para o seguinte, sendo esta a única forma eticamente aceitável de consumir um romance em audiolivro. Porém, a partir da quarta audição a descoberta de novidades cai a pique e, sem exagero, creio que vou na nona. Sem desconsiderar as fontes adicionais de dispersão que nos últimos tempos baixaram a minha capacidade de concentração a níveis históricos, julgo que identifiquei uma armadilha para o ouvinte de romances: ao contrário do que sucede com o livro convencional, em que as passagens aborrecidas são por vezes vencidas com um certo relaxamento da leitura, que tende a tornar-se mais oblíqua e pode traduzir-se até num folhear de página, como única forma do leitor náufrago alcançar em braçadas o capítulo seguinte, quando escutada, a passagem aborrecida é intransponível. Admito que este problema seja mais frequente em ouvintes de livros que também tenham o hábito de voltar atrás para confirmar que o carro está mesmo imobilizado pelo travão de mão ou que revelem qualquer outro gérmen de obsessão. Ou então este episódio prova que, apesar da minha argumentação para equivaler a audição à leitura, no fundo sou ainda vítima do preconceito que procuro vencer, o que me entristece tanto como se viesse a saber que Hitchens se converteu leito de morte e Richard Dawkins ameaçou de morte quem o revelasse. Ainda que tolhido pela possibilidade de uma tão avassaladora derrota, abro agora o livro e começo a ler a passagem aborrecida, contando vencê-la com todos os métodos que uma política de don't ask, don't tell legitimou entre os amantes da literatura. Não reajam, façam como a Mme Verdurin e espelhem no rosto o tal silêncio ignorante dos objetos inanimados. 

 

Ficha Técnica: a série "Recherche" baseia-se na escuta do audiolivro A la Recherche do Temps Perdu: L'Intégrale (111 CD), que conta com André DUSSOLLIER, Lambert WILSON, Denis PODALYDES, Robin RENUCCI, Mickael LONSDALE e Guillaume GALLIENNEAs citações são retiradas da magnífica edição online da eBooks@Adelaide - e viva a Austrália. 


 

05
Jun12

22


Eremita

Screen Shot 2019-05-04 at 10.41.20.png

(pub) A brief history of romance comics

- Você é de uma arrogância insuportável. 

- Isso é um anacronismo.

-  Um quê?

- Anacronismo. Vem fora de tempo. Eu fui arrogante.

- Ninguém aprende a modéstia.

- Pois não. Mas sentimos a vergonha.

- Ora conte lá...

- Não conto coisa nenhuma.

- Conte, eu dou-lhe mimo.

- Foi há muitos anos.

- Num país longínquo.

- Como é que sabia?

- Estava a brincar.

- Ah. Foi há muitos anos, estava nos EUA. 

- E foi preterido.

- Fui, mas isso já me tinha acontecido. 

- Então?

- Fui preterido e um amigo lembrou-me que talvez eu não ganhasse o suficiente. 

- Não o sabia tão materialista.

- Não sou. Não era. Enfim, aquilo foi o meu wake up call...

- O seu quê?

- O wake up call. É uma expressão. Viu o Wall Street?

- Não. 

- Uma epifania. Sabe o que é?

- Isso é religioso?

- Um "fez-se luz", está a ver?

- Mas você não ganhava até em dólares?

- Oiça, percebi pela primeira vez que a essência perde para a circunstância.

- Mas a essência não forja a circunstância?

- Apercebe-se que fez uma boa pergunta?

- Deve ter sido por acidente.

- Forja. Mas só em certa medida. E há depois uma retroacção da circunstância sobre a essência.

- Como a vergonha a fazer de si um homem menos arrogante?

- Hoje você merece um chocolate. 

- Vê? Não tem razão, a essência resistiu. 

- Acha?

- Venha cá. Eu sou herdeira e gosto é das suas mãos.

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