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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

23
Mai12

Estilo


Eremita

 

 

Há duas formas de estilo. O estilo Legendary Tiger Man e o estilo Joseph Brodsky durante o seu julgamento. Ambos são construções, ambos têm mérito, mas só o segundo é realmente imprescindível. Não se pode escolher qual destes estilos se praticará, mas podemos escolher o que admiramos mais.

 

Judge: What is your profession?
Brodsky: Poet. Poet and translator.
Judge: Who said you were a poet? Who assigned you that rank?
Brodsky: No one. (Nonconfrontational.) Who assigned me to the human race?

 

Aqui.

22
Mai12

Violação de propriedade


Eremita

Casa dos avós

- Tu entraste dentro da casa?

- Sim. 

- Isso não é violação de propriedade?

- Quem violou aquela propriedade foi a GNR.

- A GNR?

- Compraram a casa e deixaram-na apodrecer no meio da vila. 

- Foste sozinho? Julgava-te medricas.

- Entrei com uma fada.

- Por favor...

- Juro. Uma voz disse-me que entrasse pela janela e depois nunca me abandonou.

- E o que sentiste?

- Que o chão podia ceder a qualquer momento.

- Além do medo... 

- Não tive medo, estava com a fada.

- Ah, claro, a fada. E fantasmas, não?

- Há dias em que penso que um dia vou esbarrar com o fantasma da minha avó num dos corredores, mas não quando estive lá dentro.

- Que maravilha que fada. Posso conhecê-la?

- É a minha fada.

- As fadas são pessoais e intransmissíveis?

- Creio que sim. Em todo o caso, a minha é. 

 

 

 

20
Mai12

Oportunidade de negócio


Eremita

Pretendo plantar romãzeiras na horta do monte. Mas não sei onde as comprar. Isto não é uma brincadeira: compro romãzeiras, as árvores que dão romãs. Sei que a época de plantação é entre Novembro e Março, estou apenas a fazer aquilo a que chamam networking. Por princípio, só admito negociar com entidades ou particulares que vivam a sul do Tejo.

18
Mai12

18 de Maio


Eremita

- Tanta correspondência, Judeu. Não te sabia tão desorganizado.

- Sou organizadíssimo.

- Ninguém se atrasa tanto nas respostas. Deves até pagar multas. Segurança social, hum? O que é isto?

- Devia-lhes uma justificação.

- Judeu, se leio bem, era para ter seguido em Abril. Julgava-te mais germânico.

- Sou sefardita.

- És negligente.

- São os anos da minha mãe.

- E?

- Gosto de escrever a data do seu aniversário.

- 18 de Maio.

- 18 de Maio. Hoje escrevi "18 de Maio" 14 vezes.

- A tua mãe aprovaria?

- Não, claro que não. Nem poderíamos gostar tanto um do outro se ela se me permitisse um disparate destes.

16
Mai12

Sexo, música e Marcel Proust


Eremita

Et, avec une solennité qui était nouvelle chez lui [Swann]: «Ce sont des êtres magnanimes, et la magnanimité est, au fond, la seule chose qui importe et qui distingue ici-bas. Vois-tu, il n’y a que deux classes d’êtres: les magnanimes et les autres; et je suis arrivé à un âge où il faut prendre parti, décider une fois pour toutes qui on veut aimer et qui on veut dédaigner, se tenir à ceux qu’on aime et, pour réparer le temps qu’on a gâché avec les autres, ne plus les quitter jusqu’à sa mort. Eh bien! ajoutait-il avec cette légère émotion qu’on éprouve quand même sans bien s’en rendre compte, on dit une chose non parce qu’elle est vraie, mais parce qu’on a plaisir à la dire et qu’on l’écoute dans sa propre voix comme si elle venait d’ailleurs que de nous-mêmes *, le sort en est jeté, j’ai choisi d’aimer les seuls cœurs magnanimes et de ne plus vivre que dans la magnanimité. Un Amour de Swann


*Doravante, assinalarei a amarelo as passagens de elevado teor proustiano

É costume dizer-se que o tema mais ingrato de abordar em literatura é o sexo. Tenho dúvidas. Será seguramente a opção mais fácil de parodiar, mas não há nada de misterioso no sexo, que é a mais simples das interacções: surge o desejo, o pénis cresce, a vagina lubrifica-se, vem a cópula, partilha-se um cigarro - a versão homossexual deste enredo ainda é mais simples, por dispensar um substantivo. Difícil é escrever sobre música. Os críticos de música pop resolveram este problema de uma forma engenhosa: a propósito de música, escrevem sobre tudo o resto, da pose ao penteado, da importância de uma letra na adolescência ao choque de egos dentro da banda, só que não escrevem sobre música. E os poucos que  escrevem, fazem-no mal, oscilando entre a apreciação técnica que ignora a melodia, a harmonia e o ritmo, concentrando-se no acessório, das "influências" a aspectos conspícuos, como a versatilidade instrumental de sicrano ou o virtuosismo de fulano no baixo-eléctrico, e o arrebatamento lírico que nos toma por cúmplices passivos; há apenas uma corporação que desprezo mais do que a dos críticos de música pop, só que não vou perder agora tempo com os criativos da publicidade. Quanto aos críticos de outros géneros musicais, não sendo tão grave, a situação está longe de ser satisfatória. Parte do problema resulta da desadequação do meio ao tema. Enfim, isto tem tanto de trivial -  a escrita comunica-se em silêncio e a música faz-se de interrupções do silêncio -, como de tosco - a gastronomia funciona muito bem na forma escrita, sem que precisemos de trazer o papel ao paladar. Parte do problema, a parte do leão (for disambiguation, see Leão* Tolstói), resultará então do mistério da própria música, mas seria estúpido tentar explicá-lo aqui e agora. 

 

Creio que uma das grandes ideias de Proust foi escrever um ensaio sobre estética em forma de romance, o que ele concretiza com um equilíbrio feliz de enredo e teoria. As passagens sobre a sonata de Vinteuil criam tanta ou mais tensão dramática do que o romance entre Odette e Swann, e tal como na personagem interpretada por Moretti crescia a vontade de ver o candidato D'Alema dizer alguma coisa de esquerda à medida que o debate avançava, também em mim cresce a vontade de ver Proust escrever qualcosa sobre Wagner.

 

Vem isto a propósito da compra de um livrinho que recolhe as reflexões de Eduardo Lourenço sobre música. Estou com um enorme receio de avançar. Não só a autora da recolha, no texto de abertura, deixa a impressão de que os abutres se lançaram sobre a arca de Lourenço com uma precipitação que atraiçoa a sua condição necrófaga, como não cheguei ainda aos anos da magnanimidade a que Proust se refere na passagem supracitada e que me permitirão assumir um dia o amor incondicional pela obra de Eduardo Lourenço, sem que entretanto tivesse chegado o desprezo por Lourenço que alimenta alguns jovens turcos da intelectualidade lusa. 

 

* Ver comentário de Pirata Vermelho.

 

Ficha Técnica: a série "Recherche" baseia-se na escuta do audiolivro A la Recherche do Temps Perdu: L'Intégrale (111 CD), que conta com André DUSSOLLIER, Lambert WILSON, Denis PODALYDES, Robin RENUCCI, Mickael LONSDALE e Guillaume GALLIENNEAs citações são retiradas da magnífica edição online da eBooks@Adelaide - e viva a Austrália.


 

14
Mai12

A cueca cor-de-rosa


Eremita

- Judeu, isto parece-me um disparate.

- É uma mera precaução.

- Uma ideia peregrina...

- Uma ideia adequada aos tempos que se avizinham. O suicídio será revisto em alta.

- Mas tu não percebes que o simples facto de escreveres uma carta destas me deixa preocupado?

- Toda a gente já pensou em acabar com a sua própria vida.

- Achas mesmo?

- Sim. Qualquer pessoa. Não depende da infelicidade, depende da capacidade de raciocínio abstracto. Fala-se é pouco disto.

- Mas daí a deixares-me uma carta...

- É uma carta de não-suicídio, já te expliquei. 

- A tua pior invenção.

- Que mal pode resultar?

- Deixaste-me preocupado.

- Pretendo apenas assegurar que ninguém se apropriará da história da minha vida. Tenho um filho.

- Mas revelas um excesso de zelo que é próprio dos obcecados. 

- Limito-me a reagir às circunstâncias actuais. Já não se pode escorregar, meu caro. Já não há direito ao acidente. Hoje, somos todos suicidas até prova em contrário. Este é o mundo que criámos. E esta é a minha prova. Não vou deixar este assunto nas mãos do Estado, de um qualquer investigador com relatórios em atraso e problemas de alcoolismo. 

- Como garantes que acreditarão no que escreveste? Podes ser um suicida que forjou o seu próprio acidente mortal. 

- É verdade, tenho andado a pensar nisso, espero encontrar uma solução. Entretanto, faço de ti o depositário da minha carta.

- É uma honra que preferia evitar.

- Faz isto por mim. Guarda a carta numa caveta. O mais provável é não precisares de a abrir nunca. 

- Tenho alguma curiosidade, confesso. 

- Só escrevi um parágrafo. Digo que só terá sido suicídio se me encontrarem de cuecas cor-de-rosa.

- Porque noutras circunstâncias nunca as vestes. Entendo-te.

- Sim, tal como houve o Vestida para matar, imaginei o vestido para morrer. A cueca cor-de-rosa é um mero capricho.

- Será? Não chega a ser engraçado, é sobretudo triste.

- Eu sei. 

- E até algo decadente.

- Isso é heteronormativo.

- Vai-te foder. É decadente, não me lixes.

- Talvez.

- No fundo, tu esvazias o suicídio de estilo. 

- Pode ser.

- Usas a humilhação como garantia de sobrevivência...

- Sim. Podes parar?

- É eficaz, mas excessivo. Não queres antes reescrever a carta mencionando meias de cores diferentes?

- Por vezes ando mesmo com meias trocadas.

- Já tens as cuecas?

- Não. 

- Não as compres, peço-te.

- Não conto comprá-las. 

- Judeu, eu sou teu amigo. Tu não me obrigues a abrir a tua cómoda como quem procura uma pistola. 

- Só encontrarás cuecas brancas e uma com caras do rato Mickey. 

- Tiveste medo de usar essa na carta?

- Foi prenda de uma tia, não seria correcto. Tenho um filho, mas também tenho primos. 

13
Mai12

Estilhaços de um discurso amoroso


Eremita

Ao contrário da personagem de um dos pequenos contos de Herberto Helder, se eu quisesse, não enlouquecia. Sobre quem enlouquece por vontade própria fica a pairar a dúvida de que, afinal, continua são. Com o amor sucede o mesmo. A única diferença é que não despertaria a mesma empatia entre os leitores conto que começasse assim: "se eu quisesse, apaixonava-me". E isto porquê? Como ficaria a pairar sobre a autenticidade da paixão a mesma dúvida que aplicámos à autenticidade da loucura autodeterminada, a explicação tem de ser outra. Mas qual? Creio que é por reconhecermos em quem diz que se decide apaixonar um entendimento do amor mais deficiente do que o entendimento da loucura em quem diz que enlouquecia se quisesse; o que este tem de ignorância, o outro tem de incompreensão. E só para a ignorância há cura. Q.E.D. Mas o que acontece quando os dois enredos decorrem em simultâneo? Que dinâmica emerge e que legitimidade se cria? Não será verdade que, tal como um homem é levado à loucura pela mulher que põe em causa o seu amor, também um homem se apaixona pela mulher que acredita na sua sanidade? O que sucede, portanto, quando este homem e esta mulher vivem as duas situações em simultâneo? Não sei. Ora apetece escrever um programa de computador e correr a simulação esclarecedora, ora apetece escrever um poema de amor que mistifique. Mas não será o poema de amor também um conjunto de instruções destinadas a desencadear uma determinada resposta, ou seja, um programa? Qual é a diferença? E o que sobrará deste permanente questionar? Não terá a paixão, além da suspensão de descrença, para vencer o medo, também algo de suspensão de raciocínio, para vencer o impasse? 

 

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