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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

31
Mai12

Não há choros grátis


Eremita

Jacques? Jacques Brel? Fuck you.


Certo dia, numa cidade muito longe de Ourique, visitei um daqueles psiquiatras que têm o consultório decorado à Freud. A sessão correu mal, mas salvou-se no derradeiro instante. Para rentabilizar o negócio, na América é habitual o consultório de psiquiatra não ter uma secretária que marque as sessões e receba os pagamentos. Não. Na América, os psiquiatras que eu podia pagar estendiam a mão no final da consulta para receber as notas sujas e engelhadas. Mas aquela era a primeira vez e eu ainda não sabia, pelo que a minha surpresa fez com que o psiquiatra frisasse a ausência do intermediário, num calão de Brooklyn que soou estranho no Upper East Side e me deve ter causado um irreprimível esgar anti-semita. Nunca mais esqueci aquele momento e o valor da transacção comercial. O consultório de psiquiatria é o único lugar seguro para se chorar acompanhado, porque o choro se cobra no próprio dia. Em qualquer outra circunstância, com um padre, com um amigo, com uma mulher, até com uma mãe, mais tarde ou mais cedo o choro partilhado será também cobrado, mas nunca no momento e nunca em dólares. Por outras palavras, sabemos que vamos pagar juros de mora, mas nunca sabemos quando vamos pagar e em que moeda.

25
Mai12

Pausa


Eremita

 

 

Sem morrer de amor pelos versos de Frederico Lourenço, ler a Odisseia tranquiliza-me. Volto quando acabar a leitura e tiver escrito o conto O nosso antídoto é o teu veneno. Não leiam blogs literários.

24
Mai12

Sobre o cabrão do sefardita


Eremita

 

 

O Judeu tem permanecido mal caracterizado, mas nos últimos dias a sua personalidade revelou-se através de diálogos. Quem é este gajo, apetece perguntar - enfim, apetece-me a mim perguntar: Judeu, quem és tu? "Olá, sou o Judeu, tenho setenta anos, desinteressei-me do sexo e das relações passionais em 2005, não uso computador e sei que vou falhar a máquina do movimento perpétuo, mas acredito que conseguirei desenvolver o melhor lubrificante de sempre". Infelizmente, nem inventado o Judeu consegue dar mais esclarecimentos, pelo que só sobro eu para o explicar. Uma hipótese: se Fausto Gomes é o palhaço que veicula as ideias que me envergonham mas em que deposito uma remota esperança, o Judeu é uma projecção no futuro para a pessoa que provavelmente serei caso decida mudar de vida, ou seja, um louco corajoso. O Judeu é quem mais temo e admiro no Ouriquense, um homem que, legitimado pela a convicção com que persegue a máquina do movimento perpétuo, me condena pela cobardia de não assumir o sonho e me refugiar no metadiscurso sobre o fracasso e no comentário sobre o que não faço, mas que, simultaneamente, também constitui o melhor argumento para que não mude de vida, pois não me agradaria acabar como ele e nem sequer foi preciso recorrer a golpes baixos, como dar-lhe incontinência. 

 

24
Mai12

Como era grega, não conta?


Eremita

Penélope sofre uma brutal discriminação no texto sobre a Odisseia (Cotovia) assinado pelo seu tradutor, Frederico Lourenço. Onde está a Comissão para a Cidadania e a  Igualdade de Género?

24
Mai12

O mural


Eremita

Detalhe de um mural de David Alfaro Siqueiros
 

- Judeu, interesso-me cada vez mais pelas discussões sobre assuntos que não me interessam nada. 

- Como o casamento gay?

- O casamento entre pessoas do mesmo sexo interessa-me.

- Porquê? 

- Porque... Judeu, posso falar-te de um podcast sobre desportos americanos?

- Não gostas de basquetebol?

- Gosto, mas não gosto de baseball, nem de futebol americano, nem de hóquei no gelo.

- E como explicas isso?

- Creio que estou cada vez mais interessado em retórica. O tema não deve distrair.

- Lê o Aristóteles, rapaz.

-  Só há um podcast que não consigo mesmo ouvir.

- Ah, uma excepção. A excepção é a fenda na parede que nos permite espreitar a realidade.

- Poupa-me, ainda não são nove da manhã. O podcast chama-se Manners for the Digital Age. Diz-te, por exemplo, o que fazer quando por engano recebes um nu de alguém.

- Quando herdas um quadro?

- Não, Judeu. Quando alguém que não conheces se despe, fotografa os genitais e te envia a foto.

- As pessoas fazem isso?

- Sim.

- Pessoas que não se conhecem? 

- Esses casos são raros e geralmente resultam de enganos. O programa explica-te como reagir.

- É preciso um programa para explicar isso?

- Justamente, Judeu. Justamente.

- É absurdo.

- É sobretudo irritante. Sabes o que é o realismo histérico?

- Trata-se de uma expressão da autoria do crítico literário James Wood que descreve um tipo de romance contemporâneo alimentado por uma compulsão para fazer de tudo uma história, como se não fosse mais possível meter um porteiro de hotel no enredo sem que saibamos a última mão que teve no jogo de poker da véspera.

- Muito bom, Judeu. 

- Posso dar exemplos de autores que escrevem assim e sinopses biográficas?

- Fica para depois. Pois bem, o que as redes sociais trouxeram foi a actualidade histérica. 

- Não sei se percebo.

- O Wood fala de uma vitalidade que vem da narração compulsiva e do excesso de detalhe, certo?

- Não me lembro se fala no detalhe. 

- O que, em si, é um detalhe. Não percebes? A telenovelização da existência devido às redes sociais... o em cada homem, um galã venezuelano... a...  a importância que sicrano dá ao que se escreve no mural de fulano.

- Num mural?

- Não sabes o que é um mural?

- Se um vândalo fizer um graffiti num mural do Siqueiros, não achas isso grave?

- Deixa lá.

 

24
Mai12

Sinais vitais


Eremita

- Sabes quais são os sinais vitais?

- Judeu, saí de Lisboa para não ter de fazer mais provas.

- Diz lá, aqui ninguém chumba.

- A pulsação e a respiração.

- Incompleto.

- A temperatura do corpo?

- Ainda incompleto.

- Aquele pontapé quando nos dão uma martelada no joelho.

- Não.

- Ah, a pressão arterial.

- Sim. Mais algum?

- Não estou a ver.

- Fala-se de um quinto sinal, mas é controverso.

- A flatulência?

- A dor.

- A dor física?

- Sim. Mas ainda bem que perguntas, porque também se fala de um sexto, o stress emocional.

- Com a quantidade gente apática que por aí caminha, seria um genocídio por decreto. 

- Eh, isto mexe com grandes interesses, companhias de seguros, subsídios estatais.

- Ainda tens idade para teorias da conspiração?

- Só para as boas, só para as boas.

- Eu proporia um sétimo sinal vital.

- Porque acabar em sete é melhor do que acabar em seis.

- O sete é um número cabalístico, como sabes.

- Sete mares, sete desertos, sete dias para a semana...

- Luís Figo. 

- O quê?

- Luís Figo jogava com a camisa 7. 

- Ah. Mas qual é então o sétimo sinal vital?

- O orgulho.

 

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