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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

13
Fev12

"Nikita, I need you so"*


Eremita

Ah, como amo este filme. Mas agasalhem-se, desconfiem sempre dos sóis enganadores.

 

 

 

* Outra decisão editorial é semear versos de letras pop pelo Ouriquense. Nem só da Recherche se faz a dieta de um homem.

10
Fev12

...


Eremita

A mulher nega o primado do poder no homem da mesma forma que o homem nega o primado da beleza na mulher.*

 

 

* Com o devido pedido de descupas às minorias do foro da orientação sexual, pois não seria possíve incluí-las sem quebrar a simetria

10
Fev12

Aquela frase na sonata de Vinteuil


Eremita

 

Madeleine Lemaire ('Madame Verdurin') - foi o que se arranjou, mas espero que compreendam que não podia meter aqui a Rachel Weisz.

Swann enamorou-se de Odette e associou-a a uma frase musical que ouviu na sonata de Vinteuil, num serão em casa dos Verdurin. Parece-me inverosímil. Swann é já um mulherengo experiente e só os jovens namorados têm tendência a associar o namoro a uma melodia. Em todo o caso, Proust faz serviço público, pois lembra-nos que esta tradição precede o aparecimento da MTV e do videoclip. Mas insisto na inverosimilhança, embora mais não possa do que partilhar a minha experiência pessoal e dela fazer regra. Só associo dois namoros a músicas e foram o primeiro e o segundo. Não digo quantos tive, mas asseguro que a probabilidade deste padrão surgir por acaso é extremamente baixa. A primeira música, que tocava na cave onde nos beijámos pela primeira vez, fazia parte da banda sonora do filme Karate Kid. Era o The Glory of Love.


 

Pouco tempo depois, já em pleno segundo namoro, veio a Pavane pour une infante défunte

 

 

A transição Peter Cetera-Maurice Ravel ilustra bem a profunda revolução operada por esta segunda mulher na minha vida, que no fundo radica numa única epifania: a descoberta do gozo do gosto adquirido. Enfim, retomando o tema, nunca mais voltei a associar músicas a namoros ou, o que é mais rigoroso, nunca mais tive prazer em alimentar esse tipo de memória, pois sem esforço poderia recuperar uma música de cama, uma canção para umas férias de Verão, temas para ouvir com o volume muito alto enquanto se aspira a casa em trajes menores e harmoniosa conjugalidade, e até duas canções que escrevi, uma das quais ainda sei de cor, entre outros possíveis recuerdos musicais associados a mulheres. Sucede que não me interessa essa catalogação. Se são vários os motivos para ter desistido, creio que a palavra "catalogação" faz uma síntese feliz, acrescentando apenas que a tralha passional da outra pessoa e a pobreza musical da pop geram a desconfiança insanável de que a associação não é absolutamente exclusiva, mas uma reciclagem, um pouco como a desconfiança que surge quando, pela manhã, na casa onde vive sozinha, ela desaprova que voltemos a vestir as mesmas cuecas e retira da gaveta uns boxers lavados que não nos pertencem. Ao menos o Cetera teve a pureza das coisas instintivas - vá, inconscientes. E o Ravel foi já programado, sim, mas de uma forma que me parece insuperável e que nem sequer resulta de um exercício desonesto de presciência retroactiva que me levasse a retirar sentenças do título da Pavane ou da sua melancólica harmonia, pois o que conta mesmo é a imagem da jovem pianista que amei, de costas, tocando no piano vertical do quarto. Agora o Proust, com aqueles rodriguinhos à Proust:

 

Or, quelques minutes à peine après que le petit pianiste avait commencé de jouer chez Mme Verdurin, tout d’un coup après une note haute longuement tenue pendant deux mesures, il vit approcher, s’échappant de sous cette sonorité prolongée et tendue comme un rideau sonore pour cacher le mystère de son incubation, il reconnut, secrète, bruissante et divisée, la phrase aérienne et odorante qu’il aimait. Et elle était si particulière, elle avait un charme si individuel et qu’aucun autre n’aurait pu remplacer, que ce fut pour Swann comme s’il eût rencontré dans un salon ami une personne qu’il avait admirée dans la rue et désespérait de jamais retrouver. A la fin, elle s’éloigna, indicatrice, diligente, parmi les ramifications de son parfum, laissant sur le visage de Swann le reflet de son sourire. Mais maintenant il pouvait demander le nom de son inconnue (on lui dit que c’était l’andante de la sonate pour piano et violon de Vinteuil), il la tenait, il pourrait l’avoir chez lui aussi souvent qu’il voudrait, essayer d’apprendre son langage et son secret. (...)

 

A son entrée, tandis que Mme Verdurin montrant des roses qu’il avait envoyées le matin lui disait: «Je vous gronde» et lui indiquait une place à côté d’Odette, le pianiste jouait pour eux deux, la petite phrase de Vinteuil qui était comme l’air national de leur amour. Il commençait par la tenue des trémolos de violon que pendant quelques mesures on entend seuls, occupant tout le premier plan, puis tout d’un coup ils semblaient s’écarter et comme dans ces tableaux de Pieter De Hooch, qu’approfondit le cadre étroit d’une porte entr’ouverte, tout au loin, d’une couleur autre, dans le velouté d’une lumière interposée, la petite phrase apparaissait, dansante, pastorale, intercalée, épisodique, appartenant à un autre monde. (...)

 

Il trouvait ouverts sur son piano quelques-uns des morceaux qu’elle préférait: la Valse des Roses ou Pauvre fou de Tagliafico (qu’on devait, selon sa volonté écrite, faire exécuter à son enterrement), il lui demandait de jouer à la place la petite phrase de la sonate de Vinteuil, bien qu’Odette jouât fort mal, mais la vision la plus belle qui nous reste d’une œuvre est souvent celle qui s’éleva au-dessus des sons faux tirés par des doigts malhabiles, d’un piano désaccordé. La petite phrase continuait à s’associer pour Swann à l’amour qu’il avait pour Odette. Il sentait bien que cet amour, c’était quelque chose qui ne correspondait à rien d’extérieur, de constatable par d’autres que lui; il se rendait compte que les qualités d’Odette ne justifiaient pas qu’il attachât tant de prix aux moments passés auprès d’elle. Un Amour de Swann

 


 

Ficha Técnica: a série "Recherche" baseia-se na escuta do audiolivro A la Recherche do Temps Perdu: L'Intégrale (111 CD), que conta com André DUSSOLLIER, Lambert WILSON, Denis PODALYDES, Robin RENUCCI, Mickael LONSDALE e Guillaume GALLIENNEAs citações são retiradas da magnífica edição online da eBooks@Adelaide - e viva a Austrália. 

09
Fev12

"Puta que os pariu!"


Eremita

 

 

Natalie hum Portman

[Tenho andado entretido com...  8.01.12] Li a biografia de Luiz Pacheco, a aguardada obra de João Pedro George, publicada pela Tinta da China. Subscrevo este texto de Sérgio Lavos, sublinhando que a tralha sociológica do livro é a única parte má, embora me tivesse servido para confirmar que a Sociologia  e as interpretações de teor psicanalítico - há disso algumas pinceladas - dificilmente se destacam nas suas conclusões das banalidades da linguagem e pensamento comuns. O resto é extenso e muito bom, a léguas - no fôlego, clareza, profundidade, português - da última biografia de um escritor luso que li, o muito publicitado livro de Filomena Mónica sobre Eça de Queirós. 

 

Pausa. Há afazeres.

 

Há mais para dizer sobre o livro, George e Pacheco. Por exemplo, que Pacheco emerge como uma espécie de sistema fechado, em que as suas evidentes contradições e hesitações são essencialmente a manifestação de uma profunda convicção. Que o admirador de Pacheco, sobretudo admirador burguês (essencialmente, todos os que compram este livro, que não é barato), é permanentemente agredido por Pacheco, o que faz desta leitura uma experiência vagamente religiosa, de punição. 

 

Nova pausa. Entretanto li a crítica de João Bonifácio (Público).

 

Que George nunca escreve asneiras como este naco que encontrei na crítica de Bonifácio:"... parece haver em Pacheco uma necessidade constante de denúncia do abuso - como se o facto de em Portugal se produzirem obras de baixa qualidade, quase sempre amparadas pela crítica devido a razões de amizade, constituísse para o leitor e para a literatura um abuso. Tendo em conta que Pacheco foi abusado sexualmente, e além disso vítima de abandono pelos pais, é perfeitamente natural que denunicasse formas de abuso". Eis um encadeamento abusivo para a lógica. Mas retomemos.

 

Que George consegue o extraordinário efeito de escrever uma biografia que não é queer, mas possivelmente pós-queer; em todo o caso, não é anti-queer, o que seria inadvertidamente queer (para se perceber este efeito, leia-se na biografia o texto curioso de Eduardo Prado Coelho, à época "menino-prodígio", em que denuncia Pacheco como o mais convencional dos escritores por, justamente, fazer propaganda do seu estatuto de marginal).  E que o que seduz em Pacheco, pese embora os esforços e a óbvia inclinação de George para revelar um escritor com uma honestidade patológica dentro de um indivíduo que podia ser um grande caloteiro, é o seu talento inquestionável para a prosa, claro, mas também o seu elevado grau de ineficiência, exceptuando talvez o seu trabalho como editor. Como escritor (produziu pouco para uma vida dedicada em exclusivo à escrita e fez inúmeros planos), como pai de família (fazer filhos sabia ele, os problemas só vinham a seguir; ainda assim, que inveja um pai poder ser salvo por um texto como Comunidade, a que o filho Paulo - aprende-se na biografia - por vezes ainda regressa), como sedutor (levou tampa até do magala de Braga), como amigo (a zanga com Cesariny, documentada na biografia com um detalhe que chega a aborrecer, parece ser apenas um exemplo), como tradutor (o famoso episódio do Dicionário Filosófico de Voltaire é hilariante também por revelar uma incompetência atroz), como "homem de negócios", etc. E isto seduz porquê? Porque a ineficiência nas pessoas que fazem a diferença dá-nos sempre a ilusão de que talvez nós - leia-se: eu -  também possamos escapar à mediocridade. 

07
Fev12

O caso do casaco de peles animado


Eremita

 Agelina Jolie

 

Na mesma semana, o moço de recados lidou com a morte três vezes: no velório de uma pessoa próxima da  minha família, para os lados de Alvalade, e na homenageam póstuma a Assis Pacheco, no cinema Nimas, eventos que ele cobriu por telemóvel a meu pedido, bem como na cinemateca, vendo como Truffaut cuida dos seus mortos em  La Chambre Verte, numa iniciativa própria que revela ter ele incorporado aquela ideia algo pateta de que a cultura nos pode melhorar. Regressou há dois dias a Ourique, bem pior do que quando daqui partiu, e ainda não pegou na prancha, nem deve ter pregado o olho. Mas disse-me que não foram as mortes que mais o impressionaram; foi um casaco de peles a atravessar sozinho uma passadeira de peões - pela sua descrição, julgo que essa alucinação teve lugar na Avenida dos EUA.

 

Continua

06
Fev12

Uma aprendizagem


Eremita

Mathilda May

Aprendemos primeiro que "não se brinca com coisas sérias". Aprendemos depois que, afinal, é com as coisas sérias que se brinca. Mas reaprendemos mais tarde que "brincar com coisas sérias" não é a mesma coisa do que "brincar às coisas sérias". Brinquemos ainda, brinquemos com a ideia de família, sabendo agora que não devemos brincar às famílias.

 

 

 

06
Fev12

A unanimidade nacional


Eremita

Susanna Hoffs*

 

Ricardo Araújo Pereira é o nosso Chico Buarque, isto é, a unanimidade nacional. Ora bem, não quero perder o passaporte, mas a verdade é que o homem também diz uns valentes disparates. Por exemplo, numa entrevista que anda a ser saudada como mais uma manifestação do génio de RAP, a conclusão "lá fora a actividade de fazer publicidade não é criminalizada moralmente" é das mais parvas que li desde que deixei de acompanhar o percurso do arquitecto Saraiva, sobretudo se tivermos em conta que foi escrita e que é o próprio RAP a lembrar alguns exemplos de estrelas americanas que só fazem certa publicidade no Japão porque têm medo de prejudicar a sua imagem nos EUA. Em rigor, os EUA e o Japão são "lá fora", mas há aqui qualquer coisa que não bate certo. Enfim, se calhar foi nonsense. Mas admito que ri bastante.

 

* A perda de leitores levou-nos a pensar em algumas medidas para a revitalização do Ouriquense. Até ao Verão, todos os posts serão ilustrados com fotografias de mulheres. Seremos uma espécie de E Deus Criou as Morenas. Também temos na calha propostas interactivas.

 

 

 

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