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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

09
Nov11

Uma geometria descritiva da memória


Eremita

 

É em torno da cozinha dos avós de Ourique que se organiza todo o casarão. Penso muitas vezes na melhor imagem que capte a distorção da memória antes do trabalho de restauro que é a imaginação a operar nos buracos abertos pelo esquecimento. Que esqueleto existe à partida e como se articula? A melhor imagem que consigo produzir é uma simples adaptação do homúnculo cortical, de Wilder Penfield. Este homúnculo é uma visão cubista neuroanatómica, em que o tamanho de cada parte do corpo é directamente proporcional à porção do córtex  cerebral que a controla. A grotesca imagem, de boca, língua e mãos enormes, lembra o local de um crime em que uma quimera de Mick Jagger, Gene Simmons e Shaquille O'Neal foi desmembrada por um sádico. A lembrança da cozinha dos avós é bem mais plácida e do homúnculo aproveito apenas a ideia, que no fundo corresponde a uma interpretação literal da expressão "peso na memória": quanto mais pesa, maior será. A paisagem resultante é às vezes lillliputiana, outras brobdingnaguiana, e sempre vista por uma lupa com lentes adulteradas. Esta transformação tem algumas virtudes, nomeadamente por transformar em paisagens oníricas as memórias reais sem se precisar de recorrer a alucinogénios, mas a cozinha dos avós de Ourique  expõe uma grande limitação. A lembrança mais forte, reforçada pelas inúmeras cabeçadas com que eu, o mano e os primos interrompemos correrias pela casa, é a das arestas do tampo de mármore da grande mesa que ocupava a parte central da cozinha. Ora, podemos prolongar uma aresta, mas isso não lhe aumenta a importância, apenas lhe aumenta o comprimento. E podemos aumentá-la em todas as suas dimensões, mas isso retira-lhe a essência de aresta, transformando-a numa parede  que corta um terraço sem muro. A questão está em saber se descobri uma excepção que, como parece, resulta da singularidade geométrica da aresta ou, pelo contrário, da importância que atribuo a esta recordação.

 

Continua

 

07
Nov11

O Ouriquense e os seus críticos


Eremita

Toda a revista, ainda mais cultural, tem de ter evidentemente o seu nomezinho. Mas SALAZAR… Ah, mas são meninos, tudo lhes serve para brincarem à cultura e à provocação bem-pensante, os rapazelhos diabretes, afinal não fazem mal a ninguém, tu é que estás velho e já não tens pedalada. Pois eu, que conheci Salazar e gramei com ele na escola e tive de lhe fazer a saudação fascista em riste e de comer do rancho da mocidade portuguesa e da legião portuguesa porque era e sou pobre, acho que os meninos já têm idade para largar essas fraldas ideológicas tão velhas e malcheirosas. Que tal revista TROIKA?

Ainda por cima têm a mania que são bons e que o mundo gira à volta das suas brincadeiras liceais.  O Vermelho e o Negro

 

Não tenho uma boa defesa. Estranhei o nome e não entranhei. Mas li depois a descrição da revista e não me pareceu tratar-se de um célula do PNR, nem de um projecto revivalista. Suponho que o nome Salazar foi pensado para, justamente, despertar reacções como as do autor de O Vermelho e o Negro. É uma estratégia de marketing eficaz. Imoral? Não. Uma criancice? Talvez. Podem rapar o fundo deste tacho, que eu só quero que haja um segundo número.

 

 

 

 

 

 

07
Nov11

Arranja-me um emprego


Eremita

O amor à tourada e ao flamenco, a misoginia, o recurso à prostituição, a paixão pela guitarra clássica e os clássicos, o latifúndio decadente, a total indiferença face às novas tecnologias e à morte de Steve Jobs fazem com que o Ouriquense jamais penetre no segmento jovem da população. Somos por todas as causas ditas fracturantes e essencialmente adeptos de uma social-democracia real, mas no espírito que finta os costumes e a ideologia política, a nossa - digamos - zeitgeist íntima, descobrimo-nos conservadores. Em consonância, concordámos em colaborar com uma revista que se chama Salazar. São duas as motivações: 1) dar uma voz ao interior no mundo da cultura, das artes e das ideias.; 2) angariar clientes para a prestação de serviços que gostaríamos de ter por ganha-pão: escritor fantasma

 

 

 

04
Nov11

Foder em Espanha


Eremita

Putas, touros e gaspacho

 

 

Ainda fodo em Espanha. Foi-se a vaginal Lucinha, foi-se a anal Consuela e agora venho-me com Penélope, que é predominantemente verbal. Muitas vezes, quando regresso, já perto da fronteira, volto a gozar de memória as coisas porcalhonas que ela me diz  na cama e sinto que as pirateio sem direito, pois Penélope cobra menos por palavra dita, ronronada, sussurrada e entremeada em lambidelas, do que o mais medíocre dos tradutores de Inglês-Português. Mas é só quando entro em Portugal que reprimo a lembrança de Penélope como se fosse uma daquelas súbitas pulsões assassinas contra alguém que se estima (espero não ser o único a experimentá-las). Sem deixar de detestar os libertinos e a revolução sexual,  os anos foram passando e aderi ao sexo pelo tesão. Fechei os olhos e troquei nomes na cama. Fodi porque me pediram ou para poder dormir. Cedi à pornografia. Ejaculo agora como quem mija. Só duas regras me separam hoje da decadência completa e mantêm acesa a possibiilidade de voltar a fazer amor: nunca mentir por sexo e nunca pagar para ter orgasmos. Em rigor, apenas respeito a primeira, já que a segunda violo regularmente, ainda que só em Espanha. Tenho reflectido sobre isto. "Será que pagaria para foder numa embaixada?" é uma das questões formais interessantes que levanta este capricho de me manter imaculado em território nacional, mas tenho pensado sobretudo na importância do critério mercantilista.

 

Continua [é mais um texto definitivo]

 

02
Nov11

Metamorfoses


Eremita

 

 

Quando Tatiana toma novas qualidades, muda a forma antes do conteúdo. Não houve grande originalidade em a criar, se pensarmos no Pigmalião de Ovídio ou nas suas versões modernas, da de Bernard Shaw, erudita, artística e elitista, à boneca insuflável, vulgar, comercial e democrática. A única inovação, que me faz reclamar algum crédito, foi ter conseguido manter Tatiana sem corpo e sem rosto ao longo destes 3 anos. É certo que houve a tentação de lhe dar o nariz de RoseMarie DeWitt, mas que na verdade concretizou uma contradição. E mesmo nesta única descrição, um momento de menor clarividência e non sequitur, a ideia mais importante é a de esquisso de Hugo Pratt. Imaginemos então Tatiana como uma massa de barro e aquele dia em que a descrevi como uma cedência à tentação, como se me tivesse demorado um derradeiro segundo a mais antes de devolver à massa informe o rosto moldado. Assim se cumpre a tal função de passe-partout passional. As mulheres passam por Ourique, umas aqui chegando por estrada, outras vindas da memória, outras ainda nos relatos do meu moço de recados, e no dia seguinte cruzo-me com a Tatiana, ela na caixa registadora, eu com os meus pacotes de gaspacho, e parecendo que a cena se repete, como se fosse o Bill Murray de Groundhog Day, Tatiana mudou. Ganhou um novo gesto, uma expressão que me cativou, uma ideia, uma atitude. A diferença essencial para Groundhog Day não é o tempo ir passando em Ourique, enquanto no filme é sempre o mesmo dia; a diferença é Bill Murray aprofundar o conhecimento que tem daquela única mulher lembrando-se de tudo o que aprendeu na véspera, enquanto eu preciso de esquecer o acessório para chegar ao essencial de todas aquelas mulheres, o denominador comum. Sobram então duas interpretações diametralmente opostas para esta errância. Que é uma estratégia dominada pelo medo do desgosto de amor, uma infantilidade cínica e cobarde que me salva do mergulho de cabeça e da entrega total, ou que é a minha busca quixotesca, não o Quixote que faz uma donzela de uma camponesa, mas o Quixote a investir contra moinhos de vento - ou seja, o equivalente horizontal do vertical mergulho, o que provavelmente quer dizer alguma coisa, pois existe na geometria uma verdade amoral. Faz frio.

 



01
Nov11

Uma espécie de indiana ou assim


Eremita

Comecei a ler Alentejo Blue, de Monica Ali, dominado pela necessidade de odiar este livro: quem julga esta gaja que é para vir escrever sobre o meu Alentejo? Poucas vezes terei atingido níveis de xenofobia tão elevados e o que aqui temos é um teste à minha objectividade enquanto crítico. Isto, claro, se não atirar o livro para a fogueira antes de o terminar.

 

01
Nov11

Mellow Bellow


Eremita

É vergonhoso ter chegado a esta idade tendo apenas lido um livro - Dangling Man - e passagens de outro - To Jerusalem and Back. Mas também me surpreende a capacidade que a cabeça tem de fazer associações a partir da matéria-prima mais parca. O último livro que ofereci, quando ainda oferecia livros, foi justamente To Jerusalem and Back. E ofereci-o a alguém com quem tive um comportamento hesitante, distante, passivo, muito à imagem de Joseph, a personagem de Dangling Man. Joseph acaba por ser salvo pelo exército (que o recruta), mas eu era então um homem absolutamente livre e só dependia de mim para me salvar. Então ela fugiu para sempre e suspeito que nunca concluirá To Jerusalem and Back

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