The eye in this city [Veneza] acquires an autonomy similar to that of a tear. The only difference is that it doesn't sever itself from the body but subordinates it totally. After a while - on the third or fourth day here - the body starts to regard itself as merely the eye's carrier, as a kind of submarine to its now dilating, now squinting periscope. Watermark, Brodsky
Não é a melhor das passagens. Aliás, o "to regard" parece-me mesmo um verbo muito mal escolhido para uma acção de um corpo sem olho. Noto apenas que sou cada vez mais sensível às descrições do modo como observamos. A passagem que mais me tocou em Moby Dick foram as descrições da visão do cachalote e agora surge este olho como lágrima embutida que toma conta do corpo.
É possível que exista uma lei da recapitulação para os sentidos; que o recém-nascido tacteie como uma amiba; que os primeiros sabores traduzam o aparecimento da boca nos deuterostómios a partir da segunda abertura embrionária; que o olfacto seja um atavismo reptiliano e a audição nos ligue aos cães; e que só quando a visão passa a dominar todos os sentidos fazemos coincidir a nossa vida com a nossa condição filogenética de primatas. Foi o que me aconteceu, talvez há um ou dois anos. O tempo em que o olfacto e o paladar eram poderosos mobilizadores de memórias já passou e sei que vou chegar à madeleine de Proust com uma década de atraso. Sinto-me absolutamente dependente da visão e da beleza das imagens. A ideia de cegar, sempre perturbadora, agora dá-me ataques de pânico.
A vontade cada vez mais irreprimível de ver mulheres bonitas deve muito mais à hegemonia deste sentido do que ao desejo sexual. Deve algo também à esperança de uma projecção no futuro, como se só as imagens fossem capazes de me catapultar no sentido certo, ao contrário dos cheiros e sabores, que são catapultas apontadas para a rectaguarda. É claro que isto soa a ressalva, feita a décadas de distância, caso fique como um daqueles velhos decrépitos que se perdem em olhares pelas raparigas que passam na rua.