O Judeu e a academia
Eremita
Há cerca de três semanas, o Judeu começou a falar ao jantar dos tempos em que pertenceu à academia. Cheguei a sentir na sua voz alguma saudade. A primeira conversa foi sobre um cientista que conseguiu fazer uma conferência em torno do seu neto autista sem embaraçar a audiência, sem se emocionar demasiado e sem deixar de discutir a biologia daquela doença, nem de se revoltar contra os seus charlatães, num misto de esperança e cepticismo que só se encontra paralelo no comentador desportivo idóneo refém da paixão clubista. A segunda conversa foi sobre um outro cientista, alto, magro, bonito e com cara de homem bom, que não deixou de dar uma conferência para que fora convidado, mesmo depois de saber que o seu pai tinha morrido, e que cumpriu com eficiência, sem qualquer referência à sua vida pessoal, tendo mesmo transformado o anúncio de que ia fechar a braguilha inadvertidamente aberta durante o primeiro terço do seminário numa graça bem conseguida. Tudo isto para dizer que a decência dos homens que falam em público emerge com uma naturalidade e discrição que o teleponto não recria.
