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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

04
Out10

A educação pornográfica de Inácio Ramalho


Eremita

[republicação]

 

Geodésicas

 

Foi na qualidade de cadete do colégio militar que Inácio Ramalho se iniciou na pornografia. Porque o desejo antecedeu em dois meses a competência para a masturbação, a data precisa depende do critério que se considere relevante, mas na primeira e na segunda foi usada a mesma revista, o mesmo número e até o mesmo exemplar. Como sempre acontece nos colégios, um colega empreendedor dominava o mercado negro da distribuição do material. Este rapaz cedo percebeu que o verdadeiro negócio estava no aluguer, mas optou por não plastificar o seu espólio, pois o papel autocolante transparente era caro e  aplicá-lo sem deixar bolhas de ar uma tarefa difícil para quem tivera negativa na disciplina de trabalhos manuais. A sua solução foi penalizar quem não devolvesse a revista como a recebeu; de início a penalização foi pecuniária, mas a dado momento passou a ser uma interdição de novos alugueres durante um mês, fórmula que vingou. Foi assim que Inácio desde o início adquiriu hábitos de higiene rigorosos, primeiro com papel higiénico e a seguir com guardanapos descartáveis, que têm uma folha mais absorvente e o tamanho certo.

A primeira namorada  tocava-lhe como se  ele não existisse da cintura para baixo, o que acentuou o consumo de pornografia. Livre das restrições do colégio, Inácio havia aderido com entusiasmo à filmografia centro-europeia, que consumia em vídeo, depois de uma experiência desagradável numa sala de cinema.  O namoro durou pouco tempo.

Inácio perdeu a virgindade e o vício da pornografia com a segunda namorada, que viria a ser a sua primeira mulher. Por comparação, o sexo verdadeiro parecia-lhe mais satisfatório, inclusive quando acabava. Na pornografia, Inácio experimentava sempre uma ressaca de culpa, que atribuía à disciplina militar e à catequese. Com a sua mulher essa sensação de ressaca desaparecera e dera lugar a uma satisfação muito próxima da felicidade, sobretudo ao sábado de manhã, se o céu estava limpo, o esquentador não falhava e não haviam usado preservativo. Era um prazer tão intenso e compensador que Inácio só voltaria a cruzar-se com a pornografia ao surpreender o filho adolescente de calças desapertadas no sofá da sala, diante do televisor, num dia em que voltou do trabalho mais cedo do que era habitual.

A mulher de Inácio acabaria por sair de casa para ir viver com o amante. Inácio não aceitou bem a separação e depois de umas aventuras inconsequentes acabou por voltar a cair no vício da pornografia. De início, recuperou as velhas rotinas e na aparência lembrava um adolescente. Mas se a pornografia começa por ser uma cábula da imaginação, tende a transformar-se num antídoto da memória. Assim foi. Inácio procurava expulsar as imagens eróticas que a sua ex-mulher lhe deixara e o mobilizavam insistentemente. Daí a escalada que começou na contemplação da rotina onanista de uma mulher asseada e ao fim de algumas semanas já envolvia uma loira oxigenada numa estrebaria. Seria a futura segunda mulher de Inácio a salvá-lo desta via de perdição e ele não voltaria a consumir pornografia nas duas décadas seguintes.

A viuvez de Inácio chegou devagar. A mulher fora diagnosticada com um cancro e logo ficou acamada. No início da doença, pedira a Inácio que procurasse junto de uma profissional a satisfação sexual que ela já não lhe podia assegurar. A proposta supreendeu-o vindo de uma mulher tão doce e recatada, dando-lhe coragem para sugerir  a opção da pornografia, que de súbito lhe pareceu muito pouco desrespeituosa. A mulher esboçou um sorriso fraco. Viria a falecer meses depois.

O luto de Inácio incluiu o nojo da pornografia. Por a ter consumido enquanto a mulher definhava, a culpa, que antes vinha na ressaca, instalou-se a montante e passou a ter um efeito dissuasor. Assim se passaram muitos anos, em que o natural  acumular de tensão sexual foi sendo dissipado pela progressão da velhice, num equilíbrio dinâmico. Até ao dia em que Inácio deu com uma publicidade a um detergente de máquina.

A alteração do papel desempenhado pelo homem no lar levara a mudanças na publicidade. De exclusivo dos anúncios das cervejeiras e das marcas de carros, a publicidade com figuras femininas carregadas de sexualidade extravasou para outros mercados, como o dos detergentes de roupa e amaciadores, que antes tinham por público-alvo donas de casa, tias e avós. Mas Inácio era de outro mundo e o confronto com a modelo peituda espojada sobre uma pilha de toalhas turcas veio com um misto de surpresa e excitação, num contexto redentor, pois nem um mamilo se topava.  Gozar o sorriso maternal da modelo na garrafa de amaciador passou a ser o momento alto das manhãs de Inácio. Depois também das tardes. E das noites. Inácio reencontrava um fulgor sexual e, pela primeira vez, não se sentia culpado, nem a montante, nem a jusante. Esta liberdade de consciência conduziu-o à obsessão, embora seja impossível estabelecer, com rigor médico, se Inácio efectivamente se masturbou até à morte. Em todo o caso, quando o filho forçou a porta de entrada da casa do pai, que andava desaparecido, deu com o cadáver na casa-de-banho e uma garrafa de amaciador na cama. Por não ter levantado a tampa da sanita, o filho não chegou a saber que um guardanapo, até então preso à louça da retrete acima do nível da água, seria arrastado pela descarga de água do autoclismo para os esgotos da cidade.

 

04
Out10

Não há pachorra


Eremita

Sobre este debate, creio que o essencial é isto: Moby Dick pode ser lido com um simples livro de aventuras e, nesse sentido, é muito mais literatura juvenil do que Proust, mas seria um desperdício ficar apenas com essa leitura. Por isso, o verborreico maradona volta a ter graça e a não ter razão. Se até seria giro desenquadrar a discussão para se fazer aquela defesa que agrada a todos, que é a defesa da liberdade ou da autonomia, embora ninguém se tivesse lembrado de proibir Moby Dick a adolescentes, a verdade é que o argumento do maradona parte de um pressuposto empiricamente falso. A "riqueza de nos desmentir por cada leitura", sobretudo num livro com aquela dimensão, é uma frase catita e adequada a grandes leitores, mas demograficamente absurda e tão válida como retórica para converter convertidos. O maradona pode tentar convencer o leitor de que relê Moby Dick sempre que é Janeiro, para entrar em Fevereiro purificado por renovadas epifanias, e muitos de nós até seríamos capazes de acreditar, mas isso seria mérito apenas dele. A verdade? Relê-se muito pouco - e quem é que relê um livro de 500 páginas? Sendo assim, passar por Moby Dick quando se é muito novo é a uma forma particularmente eficaz de jamais se retirar daquele livro o que ele tem de precioso. O resto são floreados.

03
Out10

Efeitos secundários do verbo fácil


Eremita

A propósito de uma biografia de Leonor de Habsburgo, no programa Sociedade das Nações Nuno Rogeiro lembra-se de descrever os "casamentos na Idade Média". Leonor de Habsburgo viveu no século XVI e a Idade Média terminou no século XV.

02
Out10

Dois notáveis corpos


Eremita

 

Alle Anderen (2009)
Refiro-me menos à notável secura de carnes de Lars Eidinger e ao improvável rabo arrebitado de preta de Birgit Minichmayr e mais ao modo como Maren Ade os filma. As primeiras cenas são a melhor representação do enamoramento que vi no cinema, pelo menos desde a cena da sauna em Soleil Trompeur, de Nikita Mikhalkov. Depois o filme é um autêntico disparate, como também costuma acontecer às relações. São mesmo as cenas iniciais que o salvam.

Que seja um filme alemão a lembrar-me o que é o amor não seria tão bom como descobrir um brilhante cómico de stand up algures em Hamburgo, perdido num alinhamento de cabaret, mas chega para estilhaçar outro estereótipo. O amor no cinema europeu costumava acontecer na Europa do sul (Igreja e ilhas gregas), em Paris (mulheres a fumar), no Reino Unido (na versão amor de época, com um belo guarda-roupa,  e na versão do amor realista, com gente a carecer de um dentista) e na Escandinávia (quando Bergman filmava). Na Alemanha, na Áustria e em praticamente toda a Europa de Leste o tratamento do amor tende a ficar refém de grandes acontecimentos históricos, dos empalhamentos de Vlad Dracula ao nazismo e ao comunismo - bem sei que qualquer leitor se lembrará de vários exemplos que destroem esta tese, mas estou apenas a partilhar uma impressão pessoal. Acresce que a contribuição da Alemanha para o universo de referências erótico-passionais registava uma descida constante desde o fim dos anos noventa, por causa da subtil metamorfose que pôs  no rosto de Claudia Schiffer o eterno sorriso de um coelhinho e do desaparecimento daquele belíssimo enquadramento televisivo que era a posição de recepção de serviço de Steffi Graf filmada de costas, sobretudo quando em Roland Garros, talvez por o ligeiro ocre da terra batida ligar tão bem com o branco da roupa e realçar ainda mais aquelas pernas sublimes. Podia ainda referir incidentes menores, como as recorrentes gravidezes de Heidi Klum e, curiosamente, a substituição de Helmut Kohl por Angela Merkel (o chanceler Schröder é uma figura absolutamente irrelevante, neste contexto), que também contribuíram para o decaimento do erotismo da mulher alemã no contexto internacional. Vivemos pois uma época longe das glórias passadas que foram Marlene Dietrich, a adaptação cinematográfica de As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant e os anos dourados da pornografia centro-europeia antes da queda do muro de Berlim (isto li eu numa colectânea de ensaios), não sendo até descabido afirmar que o principal ícone feminino alemão contemporâneo é Bill Kaulitz, aquele moço do grupo Tokio Hotel.
01
Out10

XIII


Eremita

John Coplans


29.04.08 Acredito na verdade absoluta, mas as medidas do corpo são sempre relativas. As mamas crescem na razão inversa do diâmetro da cintura; a altura esmaga-nos quando não é superior à altura de quem consideramos baixo; e o pénis, na cabeça de um homem que se deite com uma mulher sexualmente experiente, só admite dois tamanhos: maior ou menor do que o pénis do antigo companheiro dela. Existe pois em cada confronto com o espelho um exercício de cubismo, em que as dimensões do espaço são redimensionadas em função dos nossos anseios, numa espécie de quadratura da vaidade de que a bulimia, a anorexia e outras patologias do corpo são apenas os extremos de um espectro contínuo. Consideremos a barriga.

 

Os magros envelhecem melhor do que os outros. Magríssimos na adolescência, tendem sem esforço para uma elegância feita do natural acumular de quilos que vem com os anos. Nos outros, aqueles que eram atléticos ou já algo roliços, o mesmo fenómeno faz deles pessoas gordas. Mas o gordo de raiz tem uma vantagem sobre os magros e sobre os gordos por progressão na vida: nele, nunca a barriga é um sinal de decadência física, enquanto nos outros pode chegar inclusive a ser um sinal de decadência moral. A nossa barriga mede-se sempre em relação à fase em que não a tínhamos. Se essa fase não consta da biografia, a barriga deixa de existir, por mais imensa que seja. Em certa medida, a barriga mais presente é a que está ausente. Enfim, a juntar a este relativismo, temos um dado absolutamente objectivo: não há silhueta mais repugnante que o de um homem magro com uma barriga proeminente. Tudo isto é trivial.

 

Menos documentada é a relação que as mães estabelecem com o despontar da barriga nos filhos adultos. Eu diria que tal evento, aos 30 ou aos 40 anos, desperta na progenitora um instinto atávico, que a transporta de volta ao tempo da infância do seu filho. Por isso, a mãe revela um espírito quase lúdico que choca com o pudor, o embaraço, por vezes até a atitude de negação do seu filho. Esta novidade foi-me revelada ontem por um colega de ginásio que insiste com particular fervor nos exercícios para a região abdominal. Ele não se exercita para despertar comentários elogiosos entre o mulherio. Não. A sua principal motivação em perder a barriga é que a sua mãe deixe de brincar com ela como se fosse a de um menino no momento do banho. Nunca li nada de parecido a este relato, mas aceito-o como verdadeiro.


Adenda efémera: esta é a melhor série do Ouriquense e também a menos apreciada. Creio que induz um certo desconforto e o autor revela uma dimensão - digamos - pouco nobre. Manuel Alegre não mora aqui. Entretanto, resolvi apagar o título ("somatização existencialista"), que era francamente mau, e promover o subtítulo a título propriamente dito. Assim nasce "Um tributo a John Coplans", de petit nom "Tributo".

 

 


Nuno Salvação Barreto defende que um corpo deve levar uma marrada ou uma bala, se a ideia é fazer dele assunto.

 


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