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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

18
Out10

Cânone de cá


Eremita

Morgada de V. não devia perder tempo com incidentes capazes de a desviar da sua grande obra, que sumariamente descrevo como A Consciência de Zeno em Tempo Real. Como integra, sem cunhas, o clube onde convivem Rogério Casanova*, António Figueira, Tiago Galvão, um geólogo da outra banda, Bruno Vieira Amaral, Alexandre Andrade, Pedro Mexia e Yesterday Man, agradeço-lhe não só por escrever como escreve, mas também por ser quem é, ou seja, uma mulher, pois só ela me defende da acusação de misoginia literária, sobretudo agora que já ninguém lê Marguerite Yourcenar, pelo que até essas leituras prescreveram, e tendo ainda em conta que o meu último comentário a um livro de Agustina Bessa-Luís foi de filistino, pois limitei-me a  dizer que tinha uma densidade de erros ao nível dos posts do maradona.

 

* O número de vezes que escrevo este nome implica a imposição de medidas de discriminação negativa.

18
Out10

Mais umas notas


Eremita

Despachar umas ideias que sempre surgem quando o Palácio da Pena se intromete, de repente, na paisagem alentejana, trazendo tudo atrás, das loiças e turcos ao recorte da serra de Sintra. É um imóvel de uma mobilidade espantosa na minha cabeça. A ideia do texto é fazer com que, no fim, "Palácio da Pena" comece a soar a algo completamente diferente do que soava de início. Não sequer é muito difícil.

 

18
Out10

Emília


Eremita

Emília, provavelmente a mulher que mais gostou de mim, excluindo as mulheres com quem tenho laços de sangue e algumas das que acordaram comigo em manhãs de sábados solarengos, faria hoje bastantes anos e um número de dias que, para minha grande vergonha, também não tenho presente. Mas sempre soube a quem dedicarei o meu épico alentejano, obra que arrancarei depois de despachar o mais modesto  BW, e que se enquadra no grupo do grande romance lusitano, a acreditar que fez tantas vítimas como o great american novel. Como disse aquele bêbado de Long Island que uma vez esbarrou comigo:  it's great to think big, son, even if not always gratifying  - e depois soltou as mãos que tinha pousado nos meus ombros, deixando na atmosfera uma long lasting impression of Maker's Mark. Enfim, só ainda tenho rabiscada a árvore genealógica desta grande saga e nem sequer tratei das ramadas dos ilegítimos e das sementes bastardas que tombam junto de outras árvores.

17
Out10

Verbatim


Eremita

Sem ser doente, a sua memória superava a de um idiot savant. Incapaz de truques circenses, como memorizar listas telefónicas ou declamar todos os decassílabos compostos por Vasco Graça Moura por ordem de publicação e anunciando o número da página na edição mais recente, era a lembrança das suas memórias de infância que desafiava o nosso entendimento. Recordava-se de todos os diálogos que ouvira com total precisão, sendo inclusive capaz de reproduzir as entoações e as pausas. Ouvi-lo  aproximava-se de carregar no play de um gravador que se escondeu a um canto da casa e se descobriu muitos anos depois, inclusive nos riscos que tal exercício envolve. Mas "Verbatim" era o nome do cão do vizinho, foi apenas coincidência.

 

Continua

17
Out10

XIV


Eremita

 

John Coplans

 

1.05.08 Por vezes também nado. Nadar tem aquela coisa meio mística do regresso ao útero, quando se entra, e do renascimento, quando se sai. É mesmo assim, sobretudo se se nada a meio do dia. Socialmente, nadar também é muito menos penalizado do que o exercício nas máquinas ou com pesos livres, que levanta sempre a suspeita de vaidade.


17
Out10

Três etapas


Eremita

Sentir que a  crítica dos outros difere da autrocrítica na intensidade, alivia; sentir que difere na qualidade, diverte; sentir que difere na intensidade e qualidade, liberta.

 

 

16
Out10

Eu devia era acabar o livro


Eremita

Este texto de Rui Catalão sobre David Foster Wallace não é mau. Catalão mergulhou um mês na escrita de Foster Wallace e é evidente que não poderia voltar à superfície com a pérola - mas trouxe uma ostra, o que é honesto. Ele faz com Wallace o que Wallace fez com o Festival da Lagosta e os direitos dos animais. Para fazer com Wallace o que Wallace fez com Federer, o Ípsilon teria de ter feito com Rogério Casanova o que fez com Rui Catalão: encomendar-lhe um texto sobre Wallace (creio que não troquei nenhum nome). Mas o texto não é mau, repito, e devemos tolerar os pecados da pesquisa via internet, bem como as 10 notas de rodapé à Foster Wallace, um misto de homenagem e de impulso adolescente de que ficamos reféns no início do convívio com o escritor.

 

O texto é sobretudo muito eficaz a despertar interesse na tradução da obra de David Foster Wallace*1, por alimentar o culto da imagem do escritor sobredotado e suicida - no fundo, a Sylvia Plath*2 de que a rapaziada com a mania da prosa e uma relação íntima com a posteridade andou durante décadas necessitada. Não me parece desajustado, pois Wallace passa precisamente essa impressão. Por outro lado, cheguei ao fim do texto e lembrei-me de um comentário de Gore Vidal a um então futuro artigo sobre ele escrito por Martin Amis: "... a bit too short on the work" (cito de memória).

 

* Se me permitem esta nota de rodapé, não estou certo de que traduzir Infinite Jest seja uma boa ideia. Não só a escrita é tão idiomática que muito se perderia, como o tradutor zeloso teria necessidade de introduzir numerosas notas de rodapé às mais de trezentas notas de rodapé do romance. Nesse processo, não é improvável que ficasse louco e começasse a adicionar notas de rodapé às suas próprias notas de rodapé, fazendo o seu próprio triângulo de Serrpinsy, mas à laia de quadratura do círculo. Preocupa-me pois que haja a tentação de traduzir esta obra, sobretudo porque a pessoa mais competente e a escolha natural é Rogério Casanova - e seria trágico vê-lo consumir-se nesta empreitada [muitas exclamações]. Havendo uma garantia com peso legal de que Rogério Casanova nunca traduzirá Infinite Jest, é evidente que a cabeça começa logo a divagar. Nos momentos mais pervversos, penso no rácio entre o tamanho da letra dos nomes "David Foster Wallace" e "Vasco Graça Moura" na capa da tradução do Jest; penso também se os alicerces da fortaleza psicológica que Graça Moura aparenta ser resistiriam, mas é a inveja a tomar conta de mim. No fundo, o que me fascina em Graça Moura ao ponto de provavelmente vir a fazer dele a única referência viva em BW é a fusão da ética de trabalho e competência com a aparente solidez psicológica. É possível ter ética e competência (Lobo Antunes) e solidez psicológica (Pacheco Pereira), mas é raro ter as duas coisas.

 

*2 Para ser perceber o comentário de Sérgio Lavos, escrevi "Platt" na primeira versão - foi gralha (e até uma gralha interessante), mas a blogosfera é como os directos televisivos e privar o leitor de episódicos ascendentes plenos de  meritocracia e oportunidade seria perder a autoridade moral. Sylvia Plath, Plath, Plath. Castigo: ler 20 poemas de Sylvia Plath até segunda-feira e escrever um texto de 2000 palavras sobre o declínio da palavra "poetisa".

 


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