Mistérios de Lisboa
Eremita
Há pelo menos um anacronismo na adaptação de Raúl Ruiz da obra de Camilo Castelo Branco. A dada altura, um contemporâneo do Marquês de Pombal regressa a Portugal de coche e vemos na imagem uns eucaliptos, mas estas árvores só foram introduzidas no nosso país por volta de 1830. Outro detalhe irritante: o guarda-roupa é cuidado, só que cada uma das várias analepses parece remeter sempre para uma mesma festa. Enfim, a história é - como dizer? - uma grande seca e não merece dois filmes separados por um intervalo de dez minutos, embora seja de assinalar que entre tantos encontros e desencontros o autor tivesse resistido à tentação de criar um incesto - clap, clap. Mas para Ourique o saldo é profundamente negativo, pois o rapaz do cineclube vai aproveitar o incidente e reforçar ainda mais o cinema americano.
Perante este fiasco, os grandes momentos de cultura do dia de hoje foram a audição do primeiro capítulo do audiobook Lolita, na voz de Jeremy Irons, e a leitura integral de The Humbling, a novela de um Philip Roth cada vez mais entediado com a prosa e com uma vontade irreprimível de escrever uma peça de teatro. De tudo isto darei conta nos próximos dias, mas não queria deixar de partilhar já o momento de cross-pollination que foi começar a ouvir o Jeremy a dizer Lo-li-ta e, de repente, silenciando a banda sonora do audiobook, na minha cabeça surgir este tema:
Também assim se prova que a música é a mais indomável das artes.
