Uma canção que resiste bem aos teclados
Eremita
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Depressão: estado de tristeza, angústia, desgostos, etc. Tudo isto resulta na debilidade física e mental do corpo. Tratamento interno: tília, salva, cidreira, crátego, alfazema, camomila e alecrim*. Tirar um pouco de cada das plantas aqui mencionadas, totalizando 40 g, para 1 l de água, ferver 1 min. e dexar 10 min. de infusão. Tomar 3 copos por dia, fora das refeiçoes. Andar a pé, arranjar distracções e esquecer tudo o mais. Alimentação à base de vitamina B. Ervas, Usos e Saberes, de José Salgueiro
Não deixa de ser extraordinário que um livro de ervanária deixe o Hypericum perforatum (erva de São João ou hipericão) fora desta infusão, visto que é provavemente a única erva com efeitos antidepressivos comprovados, mas o que admiro sobretudo em José Salgueiro, além de uma sintonia entre nome e ofício que não se via desde Fátima Felgueiras, é a prosa absolutamente straight to the point, quase à Hemingway. Se não fosse a falta de rigor, colocaria este parágrafo no cânone dos textos sobre a depressão que conheço. Aliás, as propriedades antidepressivas daquele "etc.", em jeito de "shup up, stop whining", e a referência à vitamina B, em jeito de displicente acrescento final, não devem ser subestimadas. Em tudo o mais, este é um dos melhores livros que adquiri em 2010. Onde também se fala do mel de esteva.
* Por lapso descaradamente freudiano escrevi primeiro "alegrim".
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A história dessa dúvida era extensa e pountuada por períodos distintos. Durante épocas, estações, a Adelaide convencia-se de que a tia sabia. Essa teoria era suportada por pequenos sinais e cálculos. A Adelaide tinha quase a certeza, tinha um pouco menos de certeza e, por fim, não tinha certeza nenhuma. Logo a seguir, a Adelaide convencia-se de que a tia não sabia. Ficava assim durante meses. Depois, tinha quase a certeza, menos, menos, e não tinha certeza nenhuma outra vez. Livro, página 79
Há o plágio, há o autoplágio e depois há o que acabámos de ler: o pastiche de um autor a si próprio. Esta curta citação capta as limitações e méritos da prosa de José Luís Peixoto. Destaco dois: a simplicidade do raciocínio e a simplicidade formal. Não há em Livro, até agora, uma única reflexão de fôlego. Peixoto não é um ensaísta disfarçado de romancista, o que pode ter as suas virtudes. Mas até o uso da palavra "teoria" denuncia a falta de interesse que o escritor tem pelo mundo das ideias - como se percebe, Adelaide não tem uma teoria, tem apenas uma impressão. Quanto à simplicidade formal, a sua expressão mais óbvia são as repetições e o vocabulário limitado (ainda que adornado com um esporádico regionalismo ou uma palavra moribunda). A citação não faz justiça a Peixoto, pois ele por vezes consegue efeitos muito bonitos e intencionais com estes parcos recursos, o que é admirável, mas são demasiadas as passagens em que a repetição de palavras e expressões se alia a um discurso pobre de ideias, sem que nenhuma solução - como um efeito-surpresa, por exemplo - seja praticada para criar alguma mais-valia. A repetição é de tal ordem que a prosa se torna quase didáctica e a redundância é tão fisicamente próxima - de uma frase para a frase seguinte - que José Luís Peixoto parece dirigir-se a um indivíduo com Attention Deficit Disorder.
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Já me ocorreu perguntar ao Judeu se ele é machista. Ao Judeu ocorreu-lhe um dia dar-me a resposta sem que eu tivesse chegado a formular a pergunta. Dizem que isto é marca de bom entendimemto, mas creio que foi um mero acaso. Eis a sua opinião:
Irrita-me que me tomem por machista. Eu sou apenas misógino. A propósito, tens uns aforismos de merda, mas gosto muito de um: "há sempre mais misóginos a morrer do que a nascer". É isso mesmo. A minha misoginia não é congénita, é adquirida. Também não é genérica, no sentido em que certas pessoas fazem dos ciganos ou dos imigrantes bodes expiatórios do que quer que seja conveniente. Eu aprendi a não gostar das mulheres apenas para que conseguisse não odiar uma delas.
Se o percebi bem, o Judeu teve um grande desgosto de amor que se tranformou num ódio depois sublimado em misoginia. É cada vez mais pertinente pegar no Ofício de Viver, livro que conta com uma magnífica introdução, escrita por Margarida Periquito, mas preciso de me lembrar de não ter mais de dois suicidas entre os autores que leio em paralelo.
Envelhecer é uma merda! Estava com saudades tuas, ...
Saúdo vivamente o regresso dos textos de O Ourique...
Nem eu...
Ignoro com que sensação o Eremita publicou estas 1...
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