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OURIQ

Um diário trasladado

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06
Out10

Grandes debates


Eremita

A probabilidade de uma leitura aos doze, catorze ou dezasseis contribuir para a releitura aos trinta ou quarenta, é bem maior que a probabilidade da ausência de leitura aos doze, catorze ou dezasseis contribuir para a primeira das leituras numa idade maior. Macguffin

 

"Yeah, well, you know, that's just, like, your opinion, man" The Dude

O mais extraordinário não é a altíssima probabilidade de esta convicta afirmação ter sido produzida sem evidência empírica substancial, mas a experiência pessoal que é apresentada para a sustentar. Se bem percebi, o Macguffin teve uma vaga interacção com o livro Dinossauro Excelentíssimo quando era criança e afirma que essa interacção despertou a sua curiosidade para o ler mais tarde. En passant, assume-se também como mais um dos freedom fighters que vão continuar a assegurar que as crianças e os jovens possam "folhear qualquer livro". Estamos todos comovidos. Lembro apenas que me referi ao problema das leituras precoces e não a uma política Fahrenheit 451 para menores de 16 anos, nem sequer ao fascinante universo das interacções entre crianças e livros. Se o Guerra e Paz tivesse caído do alto da estante e acertado na minha cabeça quando tinha 7 anos, poderia invocar hoje um trauma para ainda não ter lido o livro. Se tivesse usado os volumes da Recherche para chegar ao armário dos chocolates, teria hoje uma cumplicidade com a obra que me autorizaria a escrever apenas "Recherche" sem armar ao pingarelho, nem sentir um ligeiro peso na consciência. Como a minha tese era outra, relembro-a: a melhor forma de jamais se ler um livro com a competência que vem com a idade e a experiência de leitor é ler esse livro quando se é demasiado jovem, regra que se torna tão mais válida quanto mais espesso for o livro. Moby Dick, que espoletou esta discussão, é um livro espesso. É até provável que a versão para rapazes de Moby Dick seja ainda um livro espesso. A probabilidade de um desses rapazes, feito homem, se dar ao trabalho de (re)ler a obra completa é desconhecida, embora o Macguffin afirme que é uma probabilidade superior à de um outro homem, com hábitos de leitura semelhantes, ler esse livro pela primeira vez. Obviamente, não estamos a discutir se pessoas com hábitos de leitura (tantas vezes associados a leituras precoces) irão mais depressa reler um livro do que pessoas sem hábitos de leitura o lerão, e antes se naquela pessoa um - digamos - clássico lido em criança desperta um interesse de releitura superior ao interesse pela leitura de um outro clássico ainda virgem. Mas o Macguffin tem estas probabilidades todas tabeladas, não se preocupem.

 

Adenda: para ser absolutamente rigoroso, noutra vida já escrevi sobre este problema e não estou a ser absolutamente consistente. Mas as opiniões mudam e creio mesmo que a melhor forma de promover na altura certa a leitura de um livro é criar uma memória literária com um primeiro inóculo que não é o livro, nem versões infantis ou juvenis do livro, mas a história ou alusões à história (incluindo ao autor) num formato o mais distante possível do formato de livro. Desenhos animados do Quixote, uma colecção de pelúcia dos filósofos gregos, etc. É por aí.

06
Out10

Obra académica - do tomo I


Eremita

Ensaios

 

[actualização]

 

1. Causas da inexistência de uma saudação gestual que indique arrependimento e não implique  as duas mãos, mesmo depois de mais de um século de automobilismo.

 

True story: o The Last Samurai, um filme sobre choque de culturas - os ameríndios e os americanos, um oficial americano e os samurais, Tom Cruise e a sua tendência para tratar um sabre de madeira como um taco de baseball - ladeado por uma amiga indiana (da Índia) e um colega japonês (creio que de Quioto). Como foi nos EUA, comprei um balde de pipocas e, mais por distracção do que por gula ou falta de educação, esqueci-me de oferecer pipocas ao japonês, tendo chegado ao fim do balde no preciso momento em que uma cena do filme tratava da rudeza dos ocidentais. Revati, a indiana, encontrou ali uma boa oportunidade para me desancar. Felizmente, os três falávamos inglês e consegui desfazer-me em desculpas. É muito importante poder comunicar sem perda de informação.

 

(cont)

 

2. Rodrigo Vive! - divagações sobre o conceito de ressuscitamento psicológico.

 

Rodrigo  Vive! é um texto sobre o fenómeno, creio que familiar, de estarmos convictos da morte de uma pessoa que, afinal, continua viva. Comigo isso sucedeu com duas pessoas. A primeira experiência envolveu Holly Johnson, nome a que retrospectivamente reconheço alguma presciência. Trata-se, como é do conhecimento geral, do vocalista da antiga banda pop britânica Frankie Goes to Hollywood. Dos finais de oitenta ao princípio do século, julguei-o morto, até que ele ressuscitou na minha cabeça, mais velho, não excessivamente mais gordo e como se pegasse num verso interrompido há quase  duas décadas de The Power of Love. O outro ressuscitamento psicológico aconteceu com o fadista Rodrigo, que julgava morto em parte por ele ser tão popular na RTP Memória, e que acabo de ver anunciado como figura de cartaz de um espectáculo que não me pareceu ser de espiritismo. Mas escrevo este texto, essencialmente, por gostar muito do seu título. Rodrigo Vive! tem uma sonoridade especial, que Holly shit! (uma conseguida tradução para a versão em inglês deste trabalho) não reproduz. As nossas motivações podem ser mesmo muito prosaicas. Por exemplo, certo dia - true story - uma mosca pairava sobre a cabeça de um amigo meu, durante uma aula, e ele começou a mexer o braço para a afugentar, chamando a atenção da professora, que julgou estar perante um aluno com uma dúvida; o meu amigo, depois de um breve instante em que terá medido eventuais esforços e consequências, achou que seria mais simples improvisar uma pergunta do que explicar a realidade. E se assim se prova que a curiosidade académica nem sempre é o que parece, quem poderá negar o capricho de escrever um texto só para justificar um título?

 

3. Sobre os solos de Brian May

 

 

 

 

4. Enterrar ou cremar a personagem?

 

Creio que as discussões sobre a cremação tocaram já na reciclagem dos nutrientes e outros aspectos relevantes para a ecologia, mas desconheço estudos que comparem as possibilidades narrativas do enterramento das personagens com as da cremação. É isso que me proponho fazer em Enterrar ou cremar a personagem?

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