Excerto de um monólogo do judeu
Eremita
Após a sobremesa, ainda sóbrio
"... Foi a última conversa que tive com o meu aluno. Falávamos sobre um projecto. Não era a máquina do movimento perpétuo, pois na altura eu ainda trabalhava numa universidade e o meu aluno precisava de se doutorar. Ele tinha produzido os resultados de uma experiência por mim imaginada uma década atrás e fiquei tão emocionado que quase comecei a chorar. Foi a minha melhor emoção de sempre e não creio que acusasse apenas narcisismo ou que me revelasse então, consumadamente, misantropo - isso são coisas tuas. Se nunca me custou chorar, de tristeza ou de alegria, por todos aqueles motivos que emocionam as pessoas, como as derrotas, as vitórias, as mortes e os nascimentos, o sofrimento e a alegria dos que amamos, e tudo o que ainda sobra nas telenovelas, aquelas lágrimas foram totalmente inesperadas, embora exactas, pois não chorava à boleia de outras emoções. Nesse dia percebi que nada naquele preciso momento me arrebaria tanto e fiquei perplexo pela pequenez, a insignificância, a maníaca especificidade daquillo com que me emocionava, como se fosse um sinal de loucura. Mas veio depois a felicidade quase pura de quem é capaz de extrair das coisas banais ou irrelevantes para todos os outros quase uma razão de existir. E experimentei, pela primeira vez em muitos anos, aquilo que imagino ser a liberdade - ou até uma libertação..."
