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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

26
Ago10

Um enorme bocejo


Eremita

 

 

Os ateus são pessoas aborrecidas. Dawkins emergiu de uma brilhante carreira de divulgador de ciência como um ser humano praticamente fanático e o fã pergunta: what went wrong, Richard? Hitchens, que vive dias difíceis e a quem, de Ourique, desejo as melhoras, instumentaliza a autoridade que lhe vem doença para continuar a dizer trivialidades sobre a inexistência de Deus e os caprichos do Universo, insistindo na sua descoberta de que as religiões são más (um breakthrough), o que provoca um desconforto que não deveria deixar de fora os próprios ateus (espero), por ser uma versão forçada da última cena de Braveheart, em que a personagem de Mel Gibson, levada ao limites das suas convicções por um estiramento, grita freeeeeeeeeedom, assegurando-nos de que se mantém fiel aos seus valores apesar das circunstâncias adversas. Hitchens está doente e não começou a ver Deus durante o seu sono. Isso é louvável? Hitchens vai para mártir? Por amor de Deus... O homem é corajoso e válido por outros motivos.

25
Ago10

Um outro legado


Eremita

O desprezo sexual que sinto por adolescentes foi betonado pelo filme Le Genou de Claire, por onde se passeiam duas rapariguinhas contrastantes. Uma é feia e precoce e a outra é bonita e meio tonta. À sua maneira, ambas são irritantes. Rohmer salvou-me de um casamento forçado e de eventuais problemas com a justiça.

23
Ago10

Sara Dias Oliveira


Eremita

"As abelhas estão a desaparecer do país e ninguém sabe porquê" entristece-me como notícia, mas é o melhor título de imprensa de 2010. As abelhas estão a desaparecer do país e ninguém sabe porquê. Repitam em voz alta: "as abelhas estão a desaparecer do país e ninguém sabe porquê". Lobo Antunes deve fazer emendas atrás de emendas para chegar a um daqueles títulos longos. Possidónio Cachapa dá voltas na cama antes de ceder à loucura. Sara Dias Oliveira, a jornalista do Público, deve ter escrito "as abelhas estão a desaparecer do país e ninguém sabe porquê" sobre a hora de fecho da edição. Serei o único a ver beleza neste verso?

 

Adenda: também aqui e aqui se acusou o efeito desta belíssima frase. Da minha parte, não farei um poema (para alívio colectivo), mas se esta frase aparecer nos próximos anos num qualquer conto meu terá sido intencional.

23
Ago10

Um frete


Eremita

Nenhum amor deve ser absolutamente cego e só por isso convém frisar que o ensaio Consider the Lobster é mau. Perto de Federer as Religious Experience, parece ter sido escrito por outra pessoa. Mas só um fanático vai ler Consider the Lobster como um ensaio sobre os direitos das pessoas e os direitos dos animais, porque se trata sobretudo de uma reportagem. Wallace é surpreendentemente unidimensional na sua reflexão, reduzindo o problema a saber se a lagosta sente dor, quando qualquer pessoa com um décimo do seu equipamento cognitivo e da bagagem que ele conseguiu acumular aos quarenta e poucos anos teria explorado outros caminhos: o impacto da tradição, a (i)legitimidade de uma opinião que acusa o diferente grau de empatia por animais, se a arte ou a sofisticação de um culto são suficientemente redentores, etc. Wallace não dá uma resposta, assume o egoísmo da sua posição (tem pouca consideração pelos radicais da defesa dos animais), que é a de alguém que não está disposto a abdicar de certos prazeres, e despacha o serviço com generalidades sobre o sistema nervoso do animal, seguro de que um amontoado de factóides fruto de uma pesquisa recente será bastante para épater o leitor da revista e de que umas notas de rodapé vão satisfazer os seus fãs. É claro que de um artigo publicado na revista Gourmet ninguém esperaria uma defesa pungente da lagosta e o próprio Wallace, como seria de esperar, dá conta dessa circunstância, mas o seu laconismo não reflecte uma qualquer pressão externa, antes a sua incapacidade de se interessar pelo assunto que trata. "Write what you know?" No. Write about what you care. A menos que haja contas a pagar.

22
Ago10

Judeu and 4 other people dislike this


Eremita

Nos anos em que tive uma vida social normal, distinguia os amigos em dois grupos. Perdoem-me se vos aborreço com mais uma dicotomia, mas estou apenas a dividir os meus velhos amigos e deixo o resto da humanidade em paz. A divisão era feita entre aqueles amigos em que a inveja nunca esteve presente e aqueles em que a inveja esteve na origem da amizade. Como percebi cedo que só não tenho inveja dos meus amigos, a única forma de deixar de ter inveja de algumas pessoas foi aproximar-me delas e ganhar-lhes a amizade. Não ajuda pensar que inveja é apenas uma manifestação extremada de interesse em alguém que possui algo que desejamos, pois apenas pretendia apaziguar a inveja e não partilhar o que era deles. Ou melhor, pensar assim ajuda. Ajuda a perceber melhor o papel central da inveja na formação dessas amizades.

22
Ago10

This is funny


Eremita

 

Infinite Jest - notas de rodapé

Contexto: um rapaz está a ser entrevistado por um painel para entrar na Universidade. O painel sabe que o rapaz é um bom atleta (tenista) mas levanta dúvidas sobre o seu currículo académico. O rapaz tinha ido acompanhado pelo tio, que foi fazendo as despesas da conversa, até que, pressionado pelo painel, começa a falar pela primeira vez.

 

"My application's not bought", I am telling them, calling into the darkeness of the red cave that opens out before closed eyes (1). "I am not just  a boy who plays tennis. I have an intricate history. Experiences and fellings. I'm complex. (2)

 

"I read", I say. "I study and I read. I bet I've read everything you've read. Don't think I haven't. I consume libraries. I wear out spines and ROM-drives. (3) I do things like get a taxi and say: "The library, and step on it". (4)

 

 

(1) O momento Mendes Bota da passagem, isto é, aquele em que o autor estabelece um vínculo com todo e qualquer leitor, embora Wallace consiga fazê-lo sem comprometer a sua inteligência, nem a do leitor, o que também nos lembra que morar em Massamá é uma característica irrelevante se um dia Pedro Passos Coelho tentar a internacionalização da sua carreira. A frase serve ainda para informar o leitor de que a personagem começa a falar com os olhos fechados e que só os abrirá no fim da sua erupção discursiva ou curto percurso oratório, se preferirem- a escrita por vezes é só isto, informa as pessoas.

(2) isto é um clichê que esvazia as expectativas do leitor.

(3) isto é só para para ganhar tempo.

(4) isto é hilariante. Deeply goofy, completamente inesperado, económico e cinematográfico. Mas o mais impressionante é que o melhor surge a seguir.

 

Terminado o Moby, inicio a leitura de um calhamaço ainda maior: Infinite Jest, de David Foster Wallace. Se não acabar até ao Natal, votarei em Cavaco Silva. Este anúncio não mancha o meu percurso cívico e opinativo, antes visa frisar o meu compromisso com a leitura. Espero que o meu percurso blogosférico e interventivo seja suficiente para não deixar dúvidas a esse respeito.

 

É claro que houve planeamento prévio. Cronometrei o tempo que demoro a consumir 2 páginas de Infinite Jest. Para minha surpresa, demorei mais de 6 minutos. A surpresa foi tanta que repeti a cronometragem (obviamente, para um par de páginas virgens), demorando nesta segunda vez 8' 7''. Nunca pensei que lesse tão devagar e um dia terei de calcular o tempo médio de leitura em função da língua e do autor, da hora do dia, da época do ano, do dia da semana, do que comi na véspera, do período que separa o momento de leitura da última leitura de um texto de Domingos Amaral e de um texto de Brodsky, da qualidade do papel, do tipo de letra usada na impressão, da minha postura, do número de estímulos inanimados circundantes, da presença de pessoas e dos seus graus de simpatia, beleza, sensualidade e exposição de pele, do efeito da presença de uma linha do horizonte, etc., estudo que conto apresentar, numa primeira fase, sob a forma de histogramas de barras com desvio padrão e, numa segunda fase, mediante financiamento estatal atribuído por um dos programas de incentivo à leitura, na forma de análise de componentes principais que extrairá os grandes segredos desta matriz de dados, para benefício da comunidade e em total acerto com o que seria a projecção do  meu percurso individual enquanto pessoa. Retomando: 4' por página, 1079 páginas, 4316' (uma estimativa por defeito, visto que a minha edição não tem notas de rodapé mas um capítulo de notas, o que provavelmente se traduzirá em 10'' extra para encontrar cada uma das 388 notas e retomar a leitura), ou seja, 3 dias de leitura ininterrupta. Impressionante? Nem por isso.

 

Nem por isso.  Uma pessoa organizada, que consiga ler 12 horas por dia, mesmo lendo a um ritmo como o meu, que pode ser confundido com o dos que mergulham na etimologia de cada palavra e vão teletransportados até à Grécia à Roma antigas antes do primeiro ponto final, mas também com o daqueles que têm alguma dificuldade com os endadeamentos lógicos e precisam de um dicionário, como dizia, essa pessoa despacha Infinite Jest em menos de uma semana de dedicação exclusiva, o que não me parece hercúleo. Convém pois começar logo por desconstruir o mito dos leitores de fundo.

 

Dito isto, Infinite Jest tem um dos melhores arranques que conheço e, apenas pelo impacto, sem procurar outros paralelos, coloco-o junto de Para sempre, A Jangada de Pedra D. Quixote, entre outros, impondo-se aqui uma nota de rodapé derradeira para as falhas de memória, que serão poucas e eventuais, e para as falhas que resultam de décadas de leituras em atraso, que são infinitas e uma certeza - recentemente, vejam bem a vergonha, depois de eu ter elogiado a expressão, esclareceram-me com uma delicadeza que traduz um nobre conflito interno entre rigor, modéstia e caridade, sobre a autoria de "azorean torpor". Enfim, não poderia terminar já e violentar aquilo que é o meu percurso consciencioso e ético. Por isso sublinho que estou apaixonado por David Foster Wallace como se fosse uma colegial (de college) de 18 anos e que o David escreve para mim como se jogasse em casa, beneficiando de uma diferença de idade que o transforma num irmão mais velho ideal, se me é permitida a incestuosa associação de ideias, enquanto Lobo Antunes sempre escreveu para mim como se viesse a um campo onde, por tradição, nunca ganha, o que faz da minha cabeça um desses infernos,  se me é também permitido - abuso da paciência do que aqui chegou - este futebolês pouco consonante com o meu percurso nas suas múltiplas direcções, mas que é até um eufemismo para o prazer culposo - tradução de guilty preasure - que espremi da epifania que foi perceber como o virtuoso Lobo Antunes (dos primeiros livros) é completamente esmagado (em virtuosismo vistoso) pelo David (pronunciado aqui à portuguesa, sff). Agora é que é: sim, há neste novelo elementos reconhecíveis na prosa do maradona, mas foi mais ou menos casual, porque a ideia desta série sobre a Jest - nasce um petit nom - é que a voz se aproxime de um discurso falado forjado, cheio de avanços e recuos, envios e reenvios, ressalvas, guinadas, verborreia e até o ocasional palavrão, como "foda-se?" e  "levar no cu?", nas suas múltiplas declinações.  Aliás, para esclarecer que não há pastiche, relembro que a única voz que me entra na cabeça sem pedir licença é a voz de Herzog a falar inglês (nota mental: usar este detalhe no BW, talvez fazendo Guillaume depender da voz de Hans falando em inglês para se conseguir acalmar)... Ah, e aproveitar "prazer culposo" para um poema, mas que não poderá conter alusões à pornografia nem a drogas e deverá sobretudo focar-se nas falhas íntimas que não têm moldura penal, tanto na Justiça como no relacionamento social (se mantidas secretas, bem entendido).

21
Ago10

Epílogo


Eremita

 

 

"And I only am escaped alone to tell thee." JOB

 

The Drama's DoneWhy then here does any one step forth? - Because one did survive the wreck.

 

It so chanced, that after the Parsee's disappearance, I was he whom the Fates ordained to take the place of Ahab's bowsman, when that bowsman assumed the vacant post; the same, who, when on the last day the three men were tossed from out the rocking boat, was dropped astern. So. floating on the margin of the ensuing scene, and in full sight of it, when the half-spent suction of the sunk ship reached me, I was then, but slowly, drawn towards the closing vortex. When I reached it, it had subsided to a creamy pool. Round and round, then, and ever contracting towards the button-like black bubble at the axis of that slowly wheeling circle, like another ixion I did revolve. till gaining that vital centre, the black bubble upward burst; and now, liberated by reason of its cunning spring, and owing to its great buoyancy, rising with great force, the coffin like-buoy shot lengthwise from the sea, fell over, and floated by my side. Buoyed up by that coffin, for almost one whole day and night, I floated on a soft and dirge-like main. The unharming sharks, they glided by as if with padlocks on their mouths; the savage sea-hawks sailed with sheathed beaks. On the second day, a sail drew near, nearer, and picked me up at last. It was the devious-cruising Rachel, that in her retracing search after her missing children, only found another orphan.

 

 

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Comentários recentes

  • Anónimo

    https://www.scribd.com/document/27843291/A-Invasao...

  • Eremita

    Saí do Twitter, entre outras razões, por me parece...

  • Anónimo

    Eremita: o tipo fez-te uma simples pergunta, pouco...

  • P. P.

    Infelizmente, TRUE.

  • Eremita

    O Ouriq não precisa de trolls.

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