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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

06
Jul10

O pulsar da treta


Eremita

 

A mentira incomoda muito, mas tanto que a situação depressa se torna insustentável. A treta ("bullshit") incomoda menos e, por isso, tende a acumular-se. Alguém que não seja um mentiroso compulsivo não deixa de mentir, mas não é conquistado pela mentira porque o seu organismo, mais tarde ou mais cedo, a vai rejeitar como se fosse um objecto estranho - daí a tal verdade que vem à tona, a confissão à hora da morte, Raskolnikov, etc. Nesse sentido, só a treta se torna verdadeiramente crónica e chega até a transcender essa sua natureza, para se confundir com o próprio corpo, como um objecto perfeitamente integrado e vascularizado.

 

Já não tenho presente o On Bullshit, de H.G. Frankfurt, e não sei se me apropriei desta distinção entre a mentira e a treta. Em todo o caso, depois de horas a preencher papéis - ainda me acontece - com um discurso redondo e absolutamente inconsequente, entradas após entradas entremeadas como uns pontapés no mobiliário, a irritação já foi embora e sinto dentro de mim o pulsar da treta. Se é verdade que se morre descontinuamente, creio que hoje morri bastante.

 

Que saudades de uma boa mentira. Uma das poucas desvantagens da solidão é a falta de convívio com alguém que nos minta a sério.  O sofrimento causado por uma mentira não se pode simular, não se finge, não se  compra nos bordéis das zonas raianas, como se compra carinho ou sexo. Faz sentido. O mercado não se engana. O carinho e o sexo não restauram a capacidade de indignação, que é o que há de mais regenerador e não pode ter preço.

05
Jul10

Queequeg in his Coffin


Eremita

 

 

Hélio J.S. Alves seleccionou textos de crítica literária de Fernando Pessoa e dei instruções para que comprassem o livro, pois ando há anos a tentar reencontrar um texto de Pessoa sobre literatura infantil que considero a melhor crítica escrita em português que alguma vez li. Infelizmente, Hélio J.S. Alves não é da minha opinião e esse texto não foi seleccionado. Mas isso nem sequer seria um problema se este livro fosse mais do que um apanhado de textos organizado segundo  critérios que, no fundo, são uma forma de baralhar para voltar a dar. Será que não vai sendo altura de os pessoanos deixarem de tentar vender gato por lebre?

 

De momento racho lenha para o Inverno e não há vagar para uma crítica detalhada, mas é inadmissível que um livro destes, destinado ao grande público, seja tão parco em notas de rodapé. E é inadmissível que o material seja publicado sem a menor atenção. Por exemplo, num texto que Pessoa abre com as qualidades que devem contar para um obra de arte (a originalidade, a construtividade e o poder de suspensão), parece haver uma transmutação do tal "poder de suspensão" para "poder de sugestão", visto que é esse o termo usado por Pessoa na parte final do texto. O leitor fica na dúvida se são termos sinónimos, embora seja muito fácil defender uma distinção entre poder de suspensão e poder de sugestão, ou se há no texto um lapso de Pessoa. Era obrigação do responsável pela edição prestar um esclarecimento.

 

Suspensão. Sugestão. Whatever. O episódio em que Queequeng morre é sublime. Aqui fica, abridged comme il faut e com anotações minhas de erudição inferior à que Hélio J.S. Alves decidiu não exibir.

 

(...)


Now, at this time it was that my poor pagan companion, and fast bosom-friend, Queequeg, was seized with a fever, which brought him nigh to his endless end. Be it said, that in this vocation of whaling, sinecures are unknown; dignity and danger go hand in hand; till you get to be Captain, the higher you rise the harder you toil. So with poor Queequeg, who, as harpooneer, must not only face all the rage of the living whale, but-as we have elsewhere seen-mount his dead back in a rolling sea; and finally descend into the gloom of the hold, and bitterly sweating all day in that subterraneous confinement, resolutely manhandle the clumsiest casks and see to their stowage. To be short, among whalemen, the harpooneers are the holders, so called.

 

Poor Queequeg! when the ship was about half disembowelled, you should have stooped over the hatchway, and peered down upon him there; where, stripped to his woollen drawers, the tattooed savage was crawling about amid that dampness and slime, like a green spotted lizard at the bottom of a well. And a well, or an ice-house, it somehow proved to him, poor pagan; where, strange to say, for all the heat of his sweatings, he caught a terrible chill which lapsed into a fever; and at last, after some days' suffering, laid him in his hammock, close to the very sill of the door of death. How he wasted and wasted away in those few long-lingering days, till there seemed but little left of him but his frame and tattooing. But as all else in him thinned, and his cheek-bones grew sharper, his eyes, nevertheless, seemed growing fuller and fuller; they became of a strange softness of lustre; and mildly but deeply looked out at you there from his sickness, a wondrous testimony to that immortal health in him which could not die, or be weakened. And like circles on the water, which, as they grow fainter, expand; so his eyes seemed rounding and rounding, like the rings of Eternity. An awe that cannot be named would steal over you as you sat by the side of this waning savage, and saw as strange things in his face, as any beheld who were bystanders when Zoroaster died. For whatever is truly wondrous and fearful in man, never yet was put into words or books. And the drawing near of Death, which alike levels all, alike impresses all with a last revelation, which only an author from the dead could adequately tell. So that-let us say it again-no dying Chaldee or Greek had higher and holier thoughts than those, whose mysterious shades you saw creeping over the face of poor Queequeg, as he quietly lay in his swaying hammock, and the rolling sea seemed gently rocking him to his final rest, and the ocean's invisible flood-tide lifted him higher and higher towards his destined heaven. [Porra!]


 

 

04
Jul10

Quo vadis? (III)


Eremita

 

 

 

 

Nigella, Larissa Riquelme, Mafalda Pinto Leite, o Mundial, metabloguismo... O Ouriquense anda à deriva e nem a Primavera é atenuante. Parafraseando Maradona: podemos não cumprir o sonho, mas não podemos sair do caminho. É preciso voltar às raízes; a Igor e a Tatiana, a Mike Magic e Rosy, a Ricardo Chibanga, à máquina de movimento perpétuo, ao inventor, ao cineclube, ao último surfista vivo de Ourique, ao Honório, ao Mira, a Torpes e à minha querida Emília. Para pôr a casa em ordem, passarei a contar com os serviços de Nuno Salvação Barreto, o grande forcado e homem com força moral e arcaboiço para me manter no rumo virtuoso que tracei para o Ouriquense, a salvo das tentações mundanas e da embriaguez da actualidade. Salvação Barreto será o nosso censor e prometemos honrar a sua memória.

 


 

 

 

"...Porque no se cumplió el sueño pero se encontró un camino.

El de respetar la historia (...), de volver a las raíces, de jugar por abajo".

 

Paráfrase

04
Jul10

Mafalda Pinto Leite


Eremita

A SIC Mulher é a principal explicação para o atraso no meu baptismo literário. O conto Sentanyhu só precisa de uma manhã de domingo para fermentar, mas optei por apontar os paralelos entre Nigella e a rapariga que está neste momento a fazer pizzas. Nigella tem um leve sotaque posh e esta rapariga chama-se Mafalda e tem sotaque da Foz. Nigella é sensual e a Mafalda é bonita. Ninguém conhece os filhos de Maria de Lurdes Modesto, mas recusaríamos uma esmola a uma criança que se pareça com algum dos filhos da Nigella ou da Mafalda, que tendem a aparecer numa casa aburguesada (Nigella)  ou num court de ténis (Mafalda). Nigella cozinha coisas simples e a Mafalda não está a cozinhar o tradicional português. Nigella é a guardiã de uma sabedoria familiar e a Mafalda diz que aprendeu com um tio dela uns truques para fazer hamburgers. Não comento as características sexuais secundárias, porque já juntámos matéria suficiente para provar que estamos perante o maior caso de mimetismo que pode ser visto em território nacional. Nada contra. Mas para quando um programa com uma mãe africana da Cova da Moura? Até já há um tema (Mãe negra) que, devidamente adulterado na letra ("Mãe negra não sabe nada/Mãe negra sabe tudo"), seria perfeito para o genérico. Spice it up.

03
Jul10

Uma surpresa


Eremita

 

 

 

 

Na cena final de Fire Down Below, filme de 1997, Steven Seagal oferece um conjunto de colmeias à mulher por quem, entre duas cenas de pancadaria, teve oportunidade de se apaixonar. Bem sei que as "incríveis" coincidências da numerologia  funcionam porque ignoramos os milhões de não-coincidências, mas como a probabilidade de eu ver o fim de um filme de Seagal multiplicada pela probabilidade de umas colmeias aparecerem num guião da filmografia de Seagal é astronomicamente baixa, que tudo isto se concretize menos de uma semana depois de ter escrito sobre a possibilidade da apicultura foi suficiente para que tivesse acusado algum alvoroço diante daquela cena. Ainda combalido, é da mais elementar justiça reconhecer que Seagal, afinal, também consegue despertar sensações relativamente complexas nos seus espectadores. Por esse motivo, entendi ilustrar este texto com uma das poucas fotografias do actor que testemunham a sua dimensão espiritual.

03
Jul10

Segovia versus Barrios Mangoré


Eremita

 

There was another encounter between the two masters, many years later, at the end of Barrios' life. In March of 1944 Segovia visited San Salvador to play a concert. The two masters met and spent several hours chatting in Segovia's hotel room. Not even a note was played, as Barrios was in bad physical shape and Segovia felt a certain amount of pity for his "foe", as he was forgotten and poor in a relatively isolated country and Segovia knew the fame and recognition that his talent merited.

 

They had a polite and cordial meeting, where Segovia left Barrios a set of gut strings as a gift. fonte

03
Jul10

Valorização pessoal


Eremita

A um eremita fica bem andar o dia todo fora de casa e ainda ter pasta de dentes ao canto da boca quando tocam as seis da tarde. Sim, sei que um criativo argentino faria deste incidente um anúncio em que um infeliz é beijado por uma rapariga bonita viciada no sabor de uma qualquer pasta dentífrica, mas ainda existe uma fronteira entre a realidade e a fantasia, sendo a primeira mais relevante do que a segunda.

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