O pulsar da treta
Eremita
A mentira incomoda muito, mas tanto que a situação depressa se torna insustentável. A treta ("bullshit") incomoda menos e, por isso, tende a acumular-se. Alguém que não seja um mentiroso compulsivo não deixa de mentir, mas não é conquistado pela mentira porque o seu organismo, mais tarde ou mais cedo, a vai rejeitar como se fosse um objecto estranho - daí a tal verdade que vem à tona, a confissão à hora da morte, Raskolnikov, etc. Nesse sentido, só a treta se torna verdadeiramente crónica e chega até a transcender essa sua natureza, para se confundir com o próprio corpo, como um objecto perfeitamente integrado e vascularizado.
Já não tenho presente o On Bullshit, de H.G. Frankfurt, e não sei se me apropriei desta distinção entre a mentira e a treta. Em todo o caso, depois de horas a preencher papéis - ainda me acontece - com um discurso redondo e absolutamente inconsequente, entradas após entradas entremeadas como uns pontapés no mobiliário, a irritação já foi embora e sinto dentro de mim o pulsar da treta. Se é verdade que se morre descontinuamente, creio que hoje morri bastante.
Que saudades de uma boa mentira. Uma das poucas desvantagens da solidão é a falta de convívio com alguém que nos minta a sério. O sofrimento causado por uma mentira não se pode simular, não se finge, não se compra nos bordéis das zonas raianas, como se compra carinho ou sexo. Faz sentido. O mercado não se engana. O carinho e o sexo não restauram a capacidade de indignação, que é o que há de mais regenerador e não pode ter preço.


