Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

14
Jun10

Game over


Eremita

Sou aqui acusado de lamber as botas a um editor, por alguém que nem à segunda é capaz de fazer uma acusação às claras. O editor é Maria do Rosário Pedreira. O post em que terei lambido botas é este. Algum pudor obriga-me a lidar apenas com as causas próximas e aparentes, para concluir que estamos perante um absurdo e - suspeito - uma projecção das pretensões literárias do acusador. Para quem segue o Ouriquense, espero que fique claro que, quanto a lambidelas nas botas, sempre preterimos editores em favor de críticos literários, como o altíssimo Rogério Casanova e o sublime Bruno Vieira Amaral. Admito que este plano denuncia algum optimismo, mas é cá uma mania minha e irrita-me que não haja rigor nas acusações que me fazem. Para a próxima podemos combinar e eu escrevo o texto. Sou melhor do que praticamente toda a gente a dizer mal de mim próprio.

14
Jun10

Strawberries


Eremita


 

The sperm whale, as with all other species of the Leviathan, but unlike most other fish, breeds indifferently at all seasons; after a gestation which may probably be set down at nine months, producing but one at a time; though in some few known instances giving birth to an Esau and Jacob:--a contingency provided for in suckling by two teats, curiously situated, one on each side of the anus; but the breasts themselves extend upwards from that. When by chance these precious parts in a nursing whale are cut by the hunter's lance, the mother's pouring milk and blood rivallingly discolour the sea for rods. The milk is very sweet and rich; it has been tasted by man; it might do well with strawberries. Nota de rodapé, capítulo 87

 

 


13
Jun10

Circo e requeijões


Eremita

 

Uma mulher é incapaz de perceber a atracção dos homens por outra mulher. Esta crítica a Nigella Lawson consegue o feito de ter imensa graça e nunca errar, mas passar ao lado do essencial. "Aquelas mamas"? Por amor de Deus, o essencial é a voz e o sotaque de Nigella. Qualquer homem que a oiça transforma-se num Francisco Mendes da Silva disposto a sacrificar as partes menos vitais do seu corpo pela velha Albion. Aliás, aposto que Nigella Lawson só tem sucesso nos países onde os programas são legendados. Enfim, o que é trágico nisto tudo é a aproximação do programa ao modelo americano do talk-show com assistência e convidados, quando o modelo anterior, em registo caseiro e com uma excelente fotografia, era muito mais cativante.
Este de Nigella sugere um Prós e Contras para se debater esta questão, mas eu preferiria um Achas que sabes fazer queijo? Em algum monte vive uma moça de seios fartos, cintura cinzelada e sorriso franco, que regressa do campo com as mãos perfumadas a poejo e prepara o queijo de ovelha com o jeito censurável pela ASAE de quem tem uma longa madeixa solta a tocar na coalhada. Em vez de se andar a descobrir pelo país quem é bom no karaoke ou a dar pinotes, já vai sendo tempo de descobrirmos a próxima Maria de Lourdes Modesto, mas em sexy.
13
Jun10

Metabloguismo


Eremita

Com uma única excepção,  as singularidades apontadas à blogosfera resultam apenas de se ter extremado uma tendência qualquer já presente noutro meio. A única excepção é termos hoje uma completa democratização da partilha em público do desgosto de amor. Salvo erro, isto é absolutamente novo. Sempre existiu para a elite dos poetas e trovadores, mas não para o cidadão comum. A tresleitura e os equívocos que daí resultam são as verdadeiras marcas da blogosfera de cunho pessoal. Fulano escreve sobre sicrano e é lido por beltrano, que escreve sobre fulano e é lido por sicrano, que escreve sobre beltrano e não chega a ser lido por nenhum dos dois. Nada disto é muito interessante para os que estão de fora e chega a incomodar os envolvidos, mas não só é praticamente impossível estar sempre de fora e ficar apenas incomodado, como tudo o resto - o comentário político, a calúnia, a partilha de um gosto, o imediatismo -  é muito menos interessante enquanto novidade.

11
Jun10

Um autodidacta


Eremita

 

 

Neste nosso mundo imperfeito, o autodidacta é apresentado como uma criatura que faz um percurso de aprendizagem à margem do ensino tradicional. Num mundo perfeito, o ensino tradicional apenas existiria para formar autodidactas eficientes, tão depressa quanto possível. A verdadeira função do ensino seria colocar todo o indivíduo diante daquela floresta virgem onde ninguém lhe pode dizer "agora vais por ali", só lhe restando ir abrindo caminho à catanada. No fundo, um investigador é um selvagem na floresta tropical que é o desconhecido. Naturalmente, o verdadeiro investigador é um autodidacta, só se distinguindo do autodidacta amador porque este resolveu pegar na catana para desbastar caminho por entre as sebes ordenadas do jardim do Palácio de Versailles, o que geralmente não produz grandes descobertas para a humanidade, apenas satisfação pessoal. A incapacidade de perceber estas noções tão elementares criou duas figuras trágicas: o investigador que não é autodidacta, uma figura que nunca produzirá conhecimento,  e o autodidacta que não é um investigador, uma figura que só colecciona conhecimento alheio.

 

Um dos traços mais apelativos de Moby Dick é o modo como o conhecimento de um autodidacta nos é transmitido. Melville já era um autodidacta amadurecido quando escreveu o livro. Compare-se a sua sapiência com os rudimentos de fado à wikipedia que João Tordo debita no seu romance Hotel Memória, para percebermos a diferença. Melville estudou para escrever o livro, mas antes disso adquiriu bagagem, aparentemente sem grande propósit; Tordo surfou a web entre a escrita de dois capíitulos para sacar umas cenas de fado e compor uma personagem. Melville escreve como um nerd; Tordo tem a eficiência de um escriba da Lonely Planet. E quem queremos levar para a ilha deserta? A nerdiness de Moby Dick, claro. É uma nerdiness tolerável, porque genuína, e uma nerdiness essencial, pois prepara o caminho para a verdadeira literatura. O capítulo sobre cetáceos lê-se com o entusiasmo de quem, para leitura de mesa-de-cabeceira, só encontrou no quarto de hóspedes uma chave dicotómica de escaravelhos, mas muitos capítulos depois encontramos uma descrição do olho e da visão do cachalote que é provavelmente o que de melhor li até hoje sobre qualquer animal, sem excluir a mulher. E quando aí se chega, o capítulo sobre cetáceos faz finalmente sentido, como se a dissonância de um prolongado acorde finalmente resolvesse. Hitchens, Amis, McEwan, beat this:

 

Now, from this peculiar sideway position of the whale's eyes, it is plain that he can never see an object which is exactly ahead, no more than he can one exactly astern. In a word, the position of the whale's eyes corresponds to that of a man's ears; and you may fancy, for yourself, how it would fare with you, did you sideways survey objects through your ears. You would find that you could only command some thirty degrees of vision in advance of the straight side-line of sight; and about thirty more behind it. If your bitterest foe were walking straight towards you, with dagger uplifted in broad day, you would not be able to see him, any more than if he were stealing upon you from behind. In a word, you would have two backs, so to speak; but, at the same time, also, two fronts (side fronts): for what is it that makes the front of a man--what, indeed, but his eyes?

 

Moreover, while in most other animals that I can now think of, the eyes are so planted as imperceptibly to blend their visual power, so as to produce one picture and not two to the brain; the peculiar position of the whale's eyes, effectually divided as they are by many cubic feet of solid head, which towers between them like a great mountain separating two lakes in valleys; this, of course, must wholly separate the impressions which each independent organ imparts. The whale, therefore, must see one distinct picture on this side, and another distinct picture on that side; while all between must be profound darkness and nothingness to him. Man may, in effect, be said to look out on the world from a sentry-box with two joined sashes for his window. But with the whale, these two sashes are separately inserted, making two distinct windows, but sadly impairing the view. This peculiarity of the whale's eyes is a thing always to be borne in mind in the fishery; and to be remembered by the reader in some subsequent scenes.

 

A curious and most puzzling question might be started concerning this visual matter as touching the Leviathan. But I must be content with a hint. So long as a man's eyes are open in the light, the act of seeing is involuntary; that is, he cannot then help mechanically seeing whatever objects are before him. Nevertheless, any one's experience will teach him, that though he can take in an undiscriminating sweep of things at one glance, it is quite impossible for him, attentively, and completely, to examine any two things--however large or however small--at one and the same instant of time; never mind if they lie side by side and touch each other. But if you now come to separate these two objects, and surround each by a circle of profound darkness; then, in order to see one of them, in such a manner as to bring your mind to bear on it, the other will be utterly excluded from your contemporary consciousness. How is it, then, with the whale? True, both his eyes, in themselves, must simultaneously act; but is his brain so much more comprehensive, combining, and subtle than man's, that he can at the same moment of time attentively examine two distinct prospects, one on one side of him, and the other in an exactly opposite direction? If he can, then is it as marvellous a thing in him, as if a man were able simultaneously to go through the demonstrations of two distinct problems in Euclid. Nor, strictly investigated, is there any incongruity in this comparison.

 

It may be but an idle whim, but it has always seemed to me, that the extraordinary vacillations of movement displayed by some whales when beset by three or four boats; the timidity and liability to queer frights, so common to such whales; I think that all this indirectly proceeds from the helpless perplexity of volition, in which their divided and diametrically opposite powers of vision must involve them.

 

But the ear of the whale is full as curious as the eye. If you are an entire stranger to their race, you might hunt over these two heads for hours, and never discover that organ. The ear has no external leaf whatever; and into the hole itself you can hardly insert a quill, so wondrously minute is it. It is lodged a little behind the eye. With respect to their ears, this important difference is to be observed between the sperm whale and the right. While the ear of the former has an external opening, that of the latter is entirely and evenly covered over with a membrane, so as to be quite imperceptible from without.

 

Is it not curious, that so vast a being as the whale should see the world through so small an eye, and hear the thunder through an ear which is smaller than a hare's? Capítulo 74

 

 

 

 

 

 

10
Jun10

Cordame


Eremita

 

 

 

 

Sempre que fala de cordame, Moby Dick torna-se profundamente existencialista. Os cabos, as cordas, as guitas, o barbante, os baraços, o fio de Ariadne - por amor de Deus! - marcam presença na grande literatura. Mas importa frisar que as passagens sobre o cabo que agarra o arpão são das mais sublimes. O filme faz justiça ao livro, pois numa das cenas há um close up do desenrolar da espiral concêntrica desenhada pelo cabo cuidadosamente arrumado num balde ( 1' 58'', neste trailer).

 

 

Thus the whale-line folds the whole boat in its complicated coils, twisting and writhing around it in almost every direction. All the oarsmen are involved in its perilous contortions; so that to the timid eye of the landsman, they seem as Indian jugglers, with the deadliest snakes sportively festooning their limbs. Nor can any son of mortal woman, for the first time, seat himself amid those hempen intricacies, and while straining his utmost at the oar, bethink him that at any unknown instant the harpoon may be darted, and all these horrible contortions be put in play like ringed lightnings; he cannot be thus circumstanced without a shudder that makes the very marrow in his bones to quiver in him like a shaken jelly. Yet habit--strange thing! what cannot habit accomplish?--Gayer sallies, more merry mirth, better jokes, and brighter repartees, you never heard over your mahogany, than you will hear over the half-inch white cedar of the whale-boat, when thus hung in hangman's nooses; and, like the six burghers of Calais before King Edward, the six men composing the crew pull into the jaws of death, with a halter around every neck, as you may say.

 

Perhaps a very little thought will now enable you to account for those repeated whaling disasters--some few of which are casually chronicled--of this man or that man being taken out of the boat by the line, and lost. For, when the line is darting out, to be seated then in the boat, is like being seated in the midst of the manifold whizzings of a steam-engine in full play, when every flying beam, and shaft, and wheel, is grazing you. It is worse; for you cannot sit motionless in the heart of these perils, because the boat is rocking like a cradle, and you are pitched one way and the other, without the slightest warning; and only by a certain self-adjusting buoyancy and simultaneousness of volition and action, can you escape being made a Mazeppa of, and run away with where the all-seeing sun himself could never pierce you out.

 

Again: as the profound calm which only apparently precedes and prophesies of the storm, is perhaps more awful than the storm itself; for, indeed, the calm is but the wrapper and envelope of the storm; and contains it in itself, as the seemingly harmless rifle holds the fatal powder, and the ball, and the explosion; so the graceful repose of the line, as it silently serpentines about the oarsmen before being brought into actual play--this is a thing which carries more of true terror than any other aspect of this dangerous affair. But why say more? All men live enveloped in whale-lines. All are born with halters round their necks; but it is only when caught in the swift, sudden turn of death, that mortals realize the silent, subtle, ever-present perils of life. And if you be a philosopher, though seated in the whale-boat, you would not at heart feel one whit more of terror, than though seated before your evening fire with a poker, and not a harpoon, by your side. Capítulo 60

 

 


Pesquisar

Comentários recentes

  • Anónimo

    Paciência, muita paciência, é o que é preciso para...

  • Anónimo

    ... há que analisar com agá, claro.

  • Anónimo

    «Já se vêem os bandos de pombos atrás do milho.»So...

  • Anónimo

    A natureza de alguns comentários neste Blog que ...

  • Anónimo

    Como assim? destrói?

Links

WEEKLY DIGESTS

BLOGS

REVISTAS LITERÁRIAS [port]

REVISTAS LITERÁRIAS [estrangeiras]

GUITARRA

CULTURA

SERVIÇOS OURIQ

SÉRIES 2019-

IMPRENSA ALENTEJANA

JUDIARIA

Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D