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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

26
Mai10

Quercus suber soberano


Eremita

 

O jacarandá não se dá bem no Alentejo. Comparadas com as congéneres lisboetas, as árvores alentejanas impressionam pouco. Tenho ouvido algumas explicações, todas excessivamente técnicas. O problema não pode ser a falta de humidade. Parece-me óbvio que o jacarandá floresce mal no Alentejo pela influência que o sobreiro sobre ele exerce; não uma influência que lhe roube o solo, ou o deixe à sombra. Falamos de uma influência psicológica. O sobreiro é a árvore do Alentejo e mais nenhuma pode brilhar acima dele. Sobretudo uma árvore que recorra a truques baixos, como florir com grande espectacularidade. O jacarandá faz  de blockbuster da botânica, como a magnólia. São árvores para a gente da cidade, que não tem tempo para os gostos adquiridos. Mas nós aqui sabemos apreciar as árvores sóbrias.

26
Mai10

Um conjunto de determinadas árvores


Eremita

 

"Não foi há muito tempo que a imprensa portuguesa apresentou os três altares-mores dos suicidas portugueses. São eles a Ponte D. Luís no Porto, o promontório da Nazaré e um conjunto de determinadas árvores do Alentejo, na zona de Sabóia. Pelos menos foi essa a análise dos psiquiatras Carlos Brás Saraiva, director da Consulta de Prevenção do Suicídio do Hospital Universitário de Coimbra, e de José Barrias, director do Centro Regional de Alcoologia do Porto. Brás Saraiva defendeu em Março último uma tese de doutoramento versando os para-suicídios (ou seja, as mortes tentadas). (...)


No entanto, é no Alentejo, que se regista a mais elevada taxa de suicídio do país - nomeadamente no concelho de Ourique. Aqui, são as azinheiras, vulgo chaparros, o local por excelência para a morte escolhida, em regra o enforcamento e, de um modo geral, as mesmas árvores.". Fonte

 

Sem dar grande atenção ao vanguardismo com que o último parágrafo está redigido (a pontuação e a circularidade do raciocínio - de resto,  inadmissíveis num bilhete suicida), é de louvar a nobreza do suicida ao escolher a azinheira, poupando assim o sobreiro, que pode continuar a ser mais um auxiliar de introspecção do que de enforcamento. Naturalmente, estes dados chocam com a idílica visão que os citadinos fazem da vida no campo. Leia-se este ridículo arranque de prosa, no Guardian:

 

It's official: move to the countryside and you live longer.

 

O problema do jornalismo é a incapacidade para lidar com conceitos subtis ou complexos. São poucas as classes profissionais que traçam o seu limiar de conhecimento em plena física quântica. São mais numerosas as que traçam essa linha perto das funções derivadas. Os jornalistas, como classe, estão a milhas dessas fronteiras e, para eles, "desvio-padrão" e "variância" são terra incognita. Pirâmides etárias? Uma cena dos egípcios. Há nisto uma grande irresponsabildiade. E se começam a chegar ingleses velhinhos a Sabóia? Que efeito terá nesses velhinhos os relatos dos suicídios locais? E a visão de um homem pendurado pelo pescoço no ramo de uma azinheira, mesmo que aligeirada pelo contra-luz de um poente? Enfim, só espero que lhes distribuam panfletos sobre como realizar um bom enforcamento à alentejana. Aliás, o mesmo se aplica aos ingleses que vierem gozar a reforma em Ourique. De Ourique a Sabóia, como se vê, é um tirinho.


25
Mai10

Gimn Sovetskogo Soyuza


Eremita

 

 

Nos momentos de grande melancolia, o Judeu costuma escutar o hino da URSS. Se o volume da sua aparelhagem está no máximo, há vizinhos que gritam "comuna de merda", mas eu sei que o volume está positivamente correlacionado com a sua tristeza e chego a arrepiar caminho.

 

A união indestrutível das repúblicas livres.
A Grande Mãe-Rússia consolidou para sempre.
Viva a criada pela vontade dos povos,
Única, poderosa União Soviética!

REFRÃO: Glória à nossa Pátria livre,
Sólido esteio da amizade dos povos!
Que a bandeira soviética, bandeira popular,
Prossiga de vitória em vitória!

Através das tempestades brilhou-nos o sol da liberdade,
E o grande Lenin iluminou-nos o caminho,
Stálin educou-nos à dedicação ao povo,
Inspirou-nos ao trabalho e às façanhas!

(REFRÃO)

Formamos o nosso exército nas batalhas,
Varreremos os infames inimigos do caminho!
Nas batalhas, decidimos o destino das gerações,
Levaremos nossa Pátria para a glória!

(REFRÃO)

23
Mai10

Dar a mão à palmatória


Eremita

Ando há anos a maldizer o filósofo José Gil. Creio que nunca o critiquei por escrito, porque todas as impressões que tenho sobre o seu pensamento resultam de o ouvir a falar, na rádio e na televisão. Como qualquer pessoa com um mínimo de experiência sabe, há homens com um grande diferencial de qualidade entre as formas de expressão oral e escrita, e o pensamento de alguém deve ser avaliado apenas na forma que mais o valoriza, pois a arte de pensar não pode ser reduzida a um número de Houdini - não interessa se alguém é capaz de pensar bem debaixo de água, o que interessa é o pensamento. Avaliar Paulo Portas pelos sound b(i/y)tes televisivos e prestações em entrevistas não seria uma grande injustiça, apesar da qualidade superior dos textos que escrevia no Independente, mas avaliar Vasco Pulido Valente pelas suas aparições televisivas seria trágico. A minha relação com José Gil manteve-se por isso num limbo; o que dele ouvia não me motivava para um livro com muitas páginas, como o famoso Medo de Existir, mas uma vontade indomável de expressar o meu descontentamento com pelo menos módica credibilidade obrigava-me a ler qualquer coisa do senhor. Felizmente, o surfista trouxe-me da Feira do Livro o ensaio Em Busca da Identidade, de José Gil, que apenas tem 59 páginas.

 

Tudo concorria para que hoje finalmente desabafasse, mas após algumas páginas a conclusão é avassaladora: José Gil, apesar da sua formação, é legível. E as ideias de Gil sobre o excesso de identidade (uma variante da visão Eduardo Lourenço mas que se projecta mais longe com a catapulta da psicanalização do colectivo - um interdito irresistível -  e o arsenal dos pós-estruturalistas francesas) são apresentadas com coerência. Não sei tal coerência chega para fazer boa filosofia ou sequer uma boa análise, mas o texto entretém e aquela muralha de lugares-comuns regurgitados com grande sofisticação vem com frestas por onde entra alguma luz. Isto, creio, é uma boa definição de literatura.

22
Mai10

Não estou a dizer mal da imprensa desportiva


Eremita

O maradona está cada vez mais verborreico e cada vez melhor. Esta é a marca de um grande escritor, isto é, conseguir que a prosa não se ressinta de um defeito óbvio e que continua em plena expansão. Do que o maradona precisa - além de abdicar da postura de autodidacta da margem sul - é de um editor. Se José Gil fosse bem aconselhado nas suas leituras, diria certamente que o maradona tem medo de existir, o que me parece algo redutor e até burguês. Por isso, atenção: o maradona não necessita de um publisher, só mesmo de um editor. A falta do publisher do maradona só se faz sentir na imprensa desportiva, mas a imprensa desportiva gosta de apostar em quem não desgosta de aparecer. Não vale a pena é transformar o maradona num injustiçado. Já vai sendo altura de o país perceber que se o maradona não escreve na imprensa desportiva é por não estar interessado. Where there's a will, there's a way, sobretudo sobrando tanto talento. Não havendo vontade, nada acontece. E ainda bem, pois os homens apenas devem ser escravos da sua vontade. Isto não nos impede de pensar, mais ou menos secretamente, que o maradona, no fundo, é um grande palerma, só que estamos diante de um palerma livre e isso deve ser respeitado, até com alguma religiosidade.

 

 

Espero não ter de voltar a intervir a propósito deste assunto. Intervir na sociedade corrompe os ideais e temática do Ouriquense, que são a contemplação a partir do campo, o desprezo inconsequente pela vida citadina, o amor, o sexo, as mulheres morenas, a literatura, o corpo, as diversas manifestações do nome "Vasco Graça Moura" nas capas dos livros publicados em Portugal, a ansiedade da descendência, a vida falhada, a monitorização da qualidade dos gaspachos comerciais, o sonho de ter uma horta que me baste e a música, sobretudo quando assistida por um intrumento que perde nas capacidades harmónicas para o piano, que perde no timbre para o oboé, que perde na plasticidade para a voz e que perde no ritmo para a marimba, mas que globalmente é o melhor instrumento de todos os tempos. Como o Daley Thompson - para o maradona perceber.

22
Mai10

1/4 de Feira do Livro


Eremita

Enviei o surfista à Feira do Livro de Lisboa. O rapaz não levou uma lista, porque a Amazon também chega a Ourique e tenho alguma noção do que é a gestão de recursos humanos; um tarefeiro - para não recorrer a eufemismos - é tanto melhor quanto mais convencido estiver da sua autonomia na realização do trabalho. Naturalmente, dar carta branca ao surfista na feira do livro seria uma loucura e meio caminho andado para ele me comprar Curtas-Metragens, obra de Marta Rebelo, uma mulher que já deu sobejas provas de não saber escrever. Ou então, quem sabe se para me agradar, compraria um texto de duas páginas de Pessoa, que a Babel, ao dar a cada frase a importância de um haiku, tenta fazer passar por ensaio, convertendo-o num livrinho de 14 páginas em papel de duvidosa qualidade e folhas agrafadas, para ser vendido a 3,80 €. Pois fique a Babel a saber que  com 22.5 € - aliás, 22 €, pois a menina não queria desfazer-se dos trocos e deve ter apreciado aquela envergadura de ombros  - até um surfista bem treinado consegue adquirir, na Relógio de Água, 8 livros com lombada a sério e que totalizam cerca de 1400 páginas, cada uma mesmo cheia de letrinhas. Como evitar então estes desastres sem recorrer a uma lista pré-definida e sem abusar do uso do telemóvel? Com uma grelha de critérios sobre o tipo de livros que pretendia e, sobretudo, o tipo de livros que não pretendia, obviamente. Passo a partilhar essa lista, de seguida o resultado obtido e, por fim, o relato da deserção do surfista, mas tudo aqui, porque sacar mais dois posts à conta disto seria babélico, nos sentidos polissémicos do termo.

 

 

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