Dar a mão à palmatória
Eremita
Ando há anos a maldizer o filósofo José Gil. Creio que nunca o critiquei por escrito, porque todas as impressões que tenho sobre o seu pensamento resultam de o ouvir a falar, na rádio e na televisão. Como qualquer pessoa com um mínimo de experiência sabe, há homens com um grande diferencial de qualidade entre as formas de expressão oral e escrita, e o pensamento de alguém deve ser avaliado apenas na forma que mais o valoriza, pois a arte de pensar não pode ser reduzida a um número de Houdini - não interessa se alguém é capaz de pensar bem debaixo de água, o que interessa é o pensamento. Avaliar Paulo Portas pelos sound b(i/y)tes televisivos e prestações em entrevistas não seria uma grande injustiça, apesar da qualidade superior dos textos que escrevia no Independente, mas avaliar Vasco Pulido Valente pelas suas aparições televisivas seria trágico. A minha relação com José Gil manteve-se por isso num limbo; o que dele ouvia não me motivava para um livro com muitas páginas, como o famoso Medo de Existir, mas uma vontade indomável de expressar o meu descontentamento com pelo menos módica credibilidade obrigava-me a ler qualquer coisa do senhor. Felizmente, o surfista trouxe-me da Feira do Livro o ensaio Em Busca da Identidade, de José Gil, que apenas tem 59 páginas.
Tudo concorria para que hoje finalmente desabafasse, mas após algumas páginas a conclusão é avassaladora: José Gil, apesar da sua formação, é legível. E as ideias de Gil sobre o excesso de identidade (uma variante da visão Eduardo Lourenço mas que se projecta mais longe com a catapulta da psicanalização do colectivo - um interdito irresistível - e o arsenal dos pós-estruturalistas francesas) são apresentadas com coerência. Não sei tal coerência chega para fazer boa filosofia ou sequer uma boa análise, mas o texto entretém e aquela muralha de lugares-comuns regurgitados com grande sofisticação vem com frestas por onde entra alguma luz. Isto, creio, é uma boa definição de literatura.
