16
Mai10
Discussão no cineclube
Eremita
Ninguém pode pôr em causa o empreendedorismo do rapaz do cineclube. Graças a ele, hoje pude ver o Como desenhar um círculo perfeito. Mas a sua ortodoxia começa a irritar-me ao ponto de o confronto físico ser praticamente inevitável - no fundo, estamos ambos à espera de um ciclo Bruce Lee. Bem sei que a ortodoxia pode traduzir características nobres, incluindo a coragem. Só que também há nele uma obsessão pelo rigor que o leva a encarar algumas propostas menos convencionais com um cepticismo de ignorante que não é compatível com o seu estatuto de presidente do cineclube. E um inesperado complexo de classe que me deixou com vergonha alheia, para ser franco. No fim da projecção, o nosso diálogo - spoiler warning - começou com um desabafo dele:
- Mais um gajo do Liceu Francês para aturarmos.
- Desculpa?
- Esta mania de fazer filmes em francês, pá... Detesto. Marco Martins está para o cinema como o David Fonseca para a música pop. Deve ser para ganhar prémios internacionais.
- Que disparate. Não me pareceu nada gratuito.
- Poupa-me. Só se a ideia era disfarçar as deficiências dos putos a representar em português. O ouvido para a língua nativa é sempre mais exigente.
- Não gostaste da Batarda?
- Não discutimos a Batarda.
- Certo. Não discutimos a Batarda. Os miúdos são bons. Aquela cena de sexo, não foi sublime?
- Sim, sobretudo porque ela não fala, só grita. Mas é a excepção.
- Não sejas desagradável.
- A cena é boa, concedo. Enfim, continuamos com pudor ao nu frontal, mas aquilo vai num crescendo muito convincente.
- Não me lembro de nenhuma cena de sexo feita em Portugal tão conseguida. Nem no cinema, nem na literatura.
- Sim, na fotografia houve aquela série da Clara Pinto Correia.
- ...
- Só que a cena de sexo não compensa a falta de raccord. Há coisas que não tolero. Falta de raccord, quintas paralelas, o verbo "haver" mal conjugado. Há mínimos.
- Pelo menos não vemos microfones.
- Certo, mas eu vi a avó a respirar na câmara ardente. O filme é sobre mortos-vivos?
- Uma pequena falha.
- Ah, bravo. Não tentas uma interpretação.
- Não. Foi uma falha. Mas é irrelevante.
- E a placa da agência imobiliária? Estava presente à entrada da mansão ao fim da tarde e desapareceu de manhã. A casa foi vendida durante a noite? Com o mercado neste estado?
- Não reparei.
- E a cena final? Aquele círculo precisava de sair perfeito, não era?
- Não saiu?
- Não. O fim do risco não apanha o princípio. Pensei que a solução fosse ocultar essa parte da parede com a miúda e estava a correr bem, mas depois vê-se um rabisco.
- Não estás a exagerar?
- Como é que se chama o filme? O círculo perfeito remete para... ajuda-me.
- Uma obsessão?
- Isso é vago.
- Uma impossibilidade de mudança? A dependência dessa impossibilidade?
- Sim, uma impossibilidade. Ora, o círculo imperfeito representa uma ruptura, esperança. O fim fica ambíguo.
- E isso é mau?
- Gosto de finais abertos intencionais e não de finais abertos por deficiências de comunicação.
- E que mais? Lembras-te do açúcar?
- Sim, bom som. O som foi a grande conquista do cinema português nas últimas três décadas. É uma vitória da tecnologia e dos subsídios.
- E o jogo do galo? E aqueles desenhos animados no fim da cena de sexo?
- O que é que têm?
- Nos marcos estereotipados das etapas do crescimento, deixar de perder ao jogo do galo segue-se a deixar de acreditar no Pai Natal. Só os idiotas e as crianças perdem ao jogo do galo. Mal se aprende o jogo, perde-se o interesse. Quando aquele pai desafia o filho adolescente para jogar com ele e o filho perde, para mais com o requinte de desenhar círculos perfeitos, sentimos que o pai não percebe nada e que o filho desistiu do pai.
- Perdi ao jogo do galo no outro dia.
- Não gozes.
- Perdi, juro. O judeu tramou-me.
- Estavas distraído. Tu percebeste. Também os desenhos animados reforçam a ideia de um regresso impossível à infância.
- É fascinante que ainda não tenhas tentado uma interpretação psicanalítica para todas aquelas masturbações incestuosas do miúdo, incluindo uma inspirada pela visão de seu pai a fornicar uma prostituta.
- As interpretações psicanalíticas são sempre aborrecidas...
- Não achas que se fuma muito naquele filme? É mais um sinal de francofilia. Até me surpreendeu não ver o logotipo do Canal Plus nos créditos finais.
- Há aí uma pontinha de xenofobia.
- E a mania de filmar interiores decrépitos?
- Sai-se melhor do que o Wim Wenders de Lisbon Story.
- Sim, é menos postaleiro, vê-se que é um lisboeta, mas chateia-me a estética on your face. Aquela chuva, a luz azulada.
- Estética on your face? Aqueles planos na praia são "on your face"? Não viste ali uma citação?
- Lá vens tu com o truque das citações encriptadas. Estás a fazer bluff, aposto.
- Não insisto.
- Insisto eu. O vizinho, pá, que nervos. Aquilo é dedo do M. Tavares, topa-se a milhas. O vizinho, se tivesse nome, era para aí o senhor Siegfried.
- O vizinho simboliza aqueles que passam a vida desenhando o mesmo círculo. Quando o pai oculta ao filho a imagem do vizinho morto, faz mais um mau serviço.
- Que perseguição ao pai do miúdo. Posso arriscar uma interpretação psicanalítica?
- Só se quiseres arriscar também um dente.
- Brrrrrrrr... que medo.
- Vai para o caralho.

