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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

15
Mar10

Dez regras de escrita, outras dez e ainda uma para Mário de Carvalho


Eremita

Ler estes exercícios por autores - enfim - vivos vale o que vale, sendo porém mais barato e útil do que um curso de escrita criativa. Se a estes escritores vivos acrescentássemos os conselhos entretanto deixados por todos os mortos, mais o Vargas Llosa, ficaríamos com um corpo de leis próximo do de um calhamaço de Direito. Limitei-me pois a extrair duas sínteses: a das regras mais divertidas e a das regras mais úteis para mim. Remato com uma regra boa para Mário de Carvalho, um escritor que cumpre sempre, embora sem perceber que qualquer manifestação de um dicionário de sinónimos no meio da prosa não é um oásis, é um baixio. 

 

Regras divertidas

 

1. Do back exercises. Pain is distracting. Margaret Atwood

 

2. You can never read your own book with the innocent anticipation that comes with that first delicious page of a new book, because you wrote the thing. You've been backstage. You've seen how the rabbits were smuggled into the hat. Therefore ask a reading friend or two to look at it before you give it to anyone in the publishing business. This friend should not be someone with whom you have a romantic relationship, unless you want to break up. Margaret Atwood

 

3. Do not place a photograph of your favourite author on your desk, especially if the author is one of the famous ones who committed suicide. Roddy Doyle

 

4. Do spend a few minutes a day working on the cover biog – "He divides his time between Kabul and Tierra del Fuego." But then get back to work. Roddy Doyle

 

5. The first 12 years are the worst. Anne Enright 

 

6. Are you serious about this? Then get an accountant. Hillary Mantel

 

7. Don't try to anticipate an "ideal reader" – there may be one, but he/she is reading someone else. Joyce Carol Oates

 

8. Stop reading fiction – it's all lies anyway, and it doesn't have anything to tell you that you don't know already (assuming, that is, you've read a great deal of fiction in the past; if you haven't you have no business whatsoever being a writer of fiction). Will Self

 

9. Don't be one of those writers who sentence themselves to a lifetime of sucking up to Nabokov. Geoff Dyer

 

10. Try to be accurate about stuff.  Anne Enright 

 

Regras úteis 

 

1. Finish the day's writing when you still want to continue. Helen Dunmore

 

2. Work on a computer that is disconnected from the internet. Zadie Smith

 

3. Keep in mind Oscar Wilde: "A little sincerity is a dangerous thing, and a great deal of it is absolutely fatal." Joyce Carol Oates

 

4. Try to think of others' good luck as encouragement to yourself. Richard Ford

 

5. Don't wait for inspiration. Discipline is the key. Esther Freud

 

6. Finish what you're writing. Whatever you have to do to finish it, finish it. Neil Gaiman

 

7. Remember: when people tell you something's wrong or doesn't work for them, they are almost always right. When they tell you exactly what they think is wrong and how to fix it, they are almost always wrong. Neil Gaiman

 

8. Laugh at your own jokes. Neil Gaiman

 

9. Read widely and with discrimination. Bad writing is contagious. PD James

 

10. Have regrets. They are fuel. On the page they flare into desire. Geof Dyer

 

Regra para Mário de Carvalho

 

Do keep a thesaurus, but in the shed at the back of the garden or behind the fridge, somewhere that demands travel or effort. Chances are the words that come into your head will do fine, eg "horse", "ran", "said". Roddy Doyle

 

 

14
Mar10

Os olhos de Tatiana


Eremita

 

 

Uma disciplina férrea impede-me de trocar os traços no rosto de Tatiana entretanto estabelecidos. É que não posso fazer com eles o que - aparentemente - Joaquim Manuel Magalhães faz aos seus poemas. Reformulando com recurso a um universo mais facilmente apreensível por todos, inclusive quem vos escreve: o rosto de Tatiana não é um produto de alta tecnologia para ir sempre actualizando, nem pode reflectir a eventual inconstância do seu criador. Para que não fiquem dúvidas: ela só não terá sempre o nariz de Rosemarie DeWitt se Igor a desfigurar.

 

Felizmente, há um capital de partes omissas na fisionomia e anatomia de Tatiana que ainda posso ir usando para destrunfar a realidade, embora as juras de amor a esta mulher me impeçam de o fazer com a mesma desfaçatez com que um primeiro-ministro em ocaso de mandato delapida o patrinónio público. Deverá por isso haver sempre uma reserva de fisionomia indefinida na figura de Tatiana, capaz de me proteger, para que ela cumpra a sua missão, a saber: servir de tampão - isto é jargão da química - passional e ajudar-me a concretizar esta vida de eremita sem me perder, como, por falta de uma rede de salvação e um plano de contingência, se perdem aqueles que renunciam aos prazeres da carne e do espírito. Dito isto, creio que estou em condições de atribuir  um olhar a Tatiana e não prevejo qualquer arrependimento.

 

São pouco os rostos de mulheres belas na publicidade capazes de surpreender. A diversidade de rostos feios é infinitamente superior à diversidade de rostos bonitos. Não vou aqui discorrer sobre esta ambiciosa afimação, porque a sua defesa definitiva não está ao alcance de nenhum indivíduo - Umberto Eco não sabe nada de selecção sexual e quem sabe de selecção sexual não se preocupa com Umberto Eco -, mas não a solto para  compor um estilo ou transpor para a estética a frase de arranque de Tolstoy em Anna Karenina - de resto, uma frase que sempre me pareceu absurda. Digamos que é assim e pronto, pedindo eu aqui ao leitor o impossível, isto é, a credulidade que os matemáticos deram a Fermat. Retomando: um rosto belo e surpreendente é uma raridade e merece ser celebrado. Ora, a rapariga que entra no novo anúncio da Nivea tem uma beleza absolutamente desconcertante e tomei a liberdade de fazer dos seus olhos os olhos de Tatiana. Como é óbvio, não me vou preocupar com questões de compatibilidade e simular a quimera que leva o nariz da DeWitt e os olhos da modelo da Nivea para ver se combinam. Tatiana é uma personagem assumidamente atomizada. 

 

13
Mar10

Limbo social


Eremita

Há pessoas que cumprimentamos sempre e pessoas que nunca cumprimentamos. Trivial. Mas há também pessoas que cumprimentamos ou não em função do contexto. Reconhecê-lo não é uma admissão de hipocrisia ou de cobardia. Evitar certas pessoas em certos contextos pode ser um acto de altruísmo (quando não se quer complicar a vida do outro) ou de modéstia (quando se pensa que o outro não se lembra de nós), ainda que sempre assente num infundado optimismo (por implicar pensar que ninguém nos viu). Estas são situações exclusivas das grandes metrópoles e impensáveis em Ourique. Não que falte por aqui a complexidade arquitectónica e vivencial para gerar tais contextos - raios, temos cafés e esquinas. O que distingue Ourique é a pequenez da sua teia social. Aqui ninguém se pode dar ao luxo de decidir um cumprimento em função do momento, sob pena de transmitir uma vibração que se propagaria por toda a parte e chegaria a todos, inclusive à aranha capaz de o devorar.

 

 

11
Mar10

Lucinha


Eremita

 Celebração da Primavera

Republicações

 

O moço traz-me jornais. Costumo lê-los de trás para a frente, mas sempre com a mesma frustração. Há poucos obituários na imprensa. Como se explica isto? A hipótese de que as pessoas interessantes têm vidas longas (Saramago, Oliveira) é aparentemente falaciosa, mas ganha pertinência quando conjugada com o culto da juventude e a efemeridade da memória. Se Michael Jackson tivesse morrido aos 80 anos não teria havido nem um décimo do alarido. O interesse do povo por uma determinada pessoa tende a decair com o anos. Como o decaimento é exponencial e nunca linear,  não resulta do simples desaparecimento físico dos fãs, mas antes da atenuação da condição de fã. É também possível que a juvenilização das redacções tenha tido impacto. Vejo aqui matéria para uma tese de charneira. Ciências sociais e ciências da comunicação, 5 anos passados entre arquivos, belos gráficos e melhores conclusões, enriquecidas pela gravidade que reconhecemos em tudo o que à morte diz respeito. Em tudo? Em quase tudo. Ao folhear um dos jornais, fui surpreendido no momento em que tinha a folha a prumo e em contraluz. Um anúncio de missa de sétimo dia foi então corrompido pela imagem do verso da folha. Ainda se destacava a cruz e o texto, breve e digno, mas a foto do respeitável sexagenário fundia-se com o redondo traseiro de Lucinha Gostosa, 96#######, numa sobreposição de contornos literalmente kamasutrianos. Fiz figas para que a mulher e os filhos do senhor apenas tivessem folheado o jornal na penumbra de uma casa enlutada, mas quem sabe se um deles, perante o insólito, não soltaria a mesma gargalhada que fez com que o moço de recados, montado na prancha e já a meio da barragem, tivesse rodado o pescoço. 

 

8 de Julho de 2009

11
Mar10

Transplantar de cabeça


Eremita

Celebração da Primavera

Republicações

 

 

 

As traseiras desta casa abriam  para o nosso quintal e o avô alugara o lugar ao Mira, que aí fizera uma taberna. Ia lá quase todos os dias. O álibi era a compra de saquinhos de pevides e o móbil coisa distinta: calendários de mulheres nuas forravam uma das paredes e naquele tempo o uso do silicone não estava generalizado, a única coisa estofada na parede era só mesmo uma enorme cabeça de touro embalsamado, pelo que as mamas ainda não tendiam para uma deprimente uniformização e cada rapariga oferecia a sua idiossincrasia com merecido orgulho -  curioso isto de a beleza ser a qualidade que mais ostensivamente despreza a lógica da meritocracia. Esforço-me por recordar as caras de uma daquelas mulheres. Abril de 1977? Julho de 1978? Dezembro de 1979? Nada. Nem a Páscoa, nem o Verão, nem o Natal. Fevereiro de 1980? Nem sequer o Carnaval. Esforço-me também por recordar as mamas propriamente ditas. Outra vez nada, ou então memórias que não me parecem genuínas - a mama é de grande  volatilidade, troca de rosto com facilidade, passa do celulóide e do papel para onde gostaríamos que estivesse, pois nesta arte o homem comum leva avanço sobre o cirurgião, quando este começou a implantar de bisturi há séculos que o outro já transplantava de cabeça.


6 de Agosto de 2008

 

 

11
Mar10

A primeira vez


Eremita

  Celebração da Primavera 

Republicações

 

Acabo de regressar do Pingo Doce (6 litros de Gaspacho). A Tatiana (a ucraniana que subiu comigo ao palco no espectáculo de Maik e Rosy) começou a sorrir para mim em meados de Setembro e desde então faço sempre fila na caixa dela. A fila de Tatiana tem o rácio de sexos invertido relativamente às outras. Dos poucos homens que entram no supermercado, quase todos escolhem a sua caixa. Não creio que tal se deva à sua simpatia, pois ela sorri pouco - e gostaria de acreditar que só sorriu ainda para mim. Hoje vestia uma farda um número abaixo do seu tamanho e só assim reparei no que devia ser já ser evidente para todos. Isto deixou-me um pouco desapontado, porque desejar uma mulher atraente não é necessariamente uma manifestação de alta sensualidade. Como se não bastasse, esta súbdita revelação tocou-me como a um adolescente. É que ela tem as mamas da Sophie Marceau, ao ponto do próprio discreto relevo dos mamilos sob a bata me ter lembrado uma cena da francesa em La Fidelité. Por sorte, o crachá com o seu nome está mesmo por cima do seu mamilo esquerdo e creio que ela pensou que eu fixara o olhar no seu nome. Só isso explica que me tivesse hoje falado pela primeira vez, assim: "eu sei que escreve-se com "i" mas prefere "y". Não mereço esta sorte.  

 

                                                                                                                                  9 de Outubro de 2008

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