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O que faz mesmo falta aqui é uma rede de transportes públicos. Mas Ourique é uma vila órfã de Odorico Paraguaçu, o que me entristece. Se ter um excêntrico à frente dos destinos de um país seria trágico, o desaparecimento dos autarcas excêntricos será empobrecedor. A geografia cultural também se faz à custa das idiossincrasias dos localmente poderosos. Aliás, com tantas normas, directivas, o monopólio da telha e o aumento de um nível de vida que concomitantemente normaliza os anseios, as vilas e aldeias tendem para a homogeneidade e serão daqui a 200 anos manchas isoladas de um mesmo bairro interrompido por zonas despovoadas. Esta tendência contraria-se de duas formas. A forma institucional é a promoção dos características regionais que o tempo criou, da arquitectura à gastronomia - falamos, no fundo, da defesa do património. A segunda forma é a promoção de novas especificidades regionais. Ora, a melhor fonte de diversidade ainda é a cabeça dos indivíduos. Daí a necessidade de dar poder aos autarcas. Um poder absoluto, centralizado num único indivíduo e sem conselho, comissão ou oposição que lhe seque a veia criativa. Sim, agora que deixei de votar e não me sinto com grandes obrigações de cidadania, posso confessar que gostaria de ter em Ourique um tiranete com ideias megalómanas. Talvez seja essa a única forma de se construir aqui uma linha de metropolitano com duas únicas paragens: chegada e partida. É que de todos os rostos anónimos que fui observando, só tenho mesmo saudades de alguns rostos vistos nos transportes públicos. Não é a lei dos grandes números que explica esta impressão. Há uma qualidade específica dos rostos nos transportes públicos que não encontramos em mais nenhum lugar ou circunstância. É só isso que falta a Ourique.