Noutra vida e noutro lugar, cedi às facilidades do chamado online dating. Refiro-me ao online dating a sério, um tipo de serviço que ocupa uma posição intermédia entre o seu substituto socialmente tolerado, o Facebook, e as páginas de facilitação da promiscuidade. Sobre o primeiro, tem a vantagem de ser menos hipócrita; sobre o segundo, tem a vantagem de não propagar tão bem as doenças sexualmente transmissíveis. Conheci pessoas interessantes e pessoas burras, pessoas decentes e gente sem nível. A única diferença em relação a outras formas de socialização - como o "sair à noite", os jantares e as festas - é que tudo acontece muito mais depressa. Pela minha experiência, todas as restantes apreciações negativas que fui ouvindo são imprecisas e, provavelmente, mentirosas. Percebi ainda, aos poucos, que o online dating é mais estigmatizado em Portugal do que noutros lugares. Mas a verdade é que escrever o chamado profile num site de online dating me pareceu sempre menos ridículo, mais genuíno e mais divertido do que escrever uma carta de motivação. Talvez isso fosse já um sinal de que me iria despedir, pois não nos devemos sentir ridículos a escrever uma carta de motivação, e também de que deixaria de frequentar o online dating, pois não nos devemos divertir tanto.