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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

07
Fev10

XI


Eremita


John Coplans


 

20.04.08 Uma colega de faculdade que não via há mais de 25 anos cruzou-se hoje comigo no ginásio. Não teria sido capaz de a reconhecer e comportei-me com o cuidado necessário para quem não se lembra do nome do interlocutor. Houve conversa de circunstância, ela disse-me que tinha engordado e eu respondi que também engordara - não sendo mentira, tentei sobretudo ser solidário. "Mas tu eras esquelético", respondeu-me - sendo verdade, soou-me sobretudo cruel.

07
Fev10

Quo vadis? (II)


Eremita

 

A principal disciplina que um diário trasladado impõe é o respeito pelo tempo real. Tatiana teve um filho e  desapareceu do Ouriquense. Só podia ser assim. A criança tirou-a do Pingo Doce e atenuou a vontade de matar Igor. Mas ela voltará ao supermercado em breve e regressarão também os planos homicidas, com o ímpeto reforçado por um elemento novo: Tatiana e Igor não são casados, o que não muda tudo, mas muda alguma coisa. A simplificação do divórcio, a sua banalização e o declínio do casamento católico pouco contam para as decisões verdadeiramente importantes. Quando se planeia um assassínio, uma vítima casada ainda incomoda mais do uma vítima solteira. O activismo gay não pode recorrer a este argumento na defesa dos seus objectivos, mas a verdade é que para nós, futuros executantes do crime passional, o recentemente aprovado casamento gay nada fez para desprestigiar o casamento como o conhecíamos. Saber que Igor não é o marido de Tatiana tem em 2010 o mesmo impacto que teria em 2008. Na eventualidade improvável de algum membro do clero passar por aqui, espero que esta revelação lhe traga algum conforto.

06
Fev10

O estranho caso do crematório de Ferreira do Alentejo


Eremita

Jornalismo de investigação 

 

A primeira cremação em Portugal aconteceu a 28 de Novembro de 1925, no Cemitério do Alto de S. João, em Lisboa. O crematório foi encerrado em 1936 e reaberto em 1985, diz-se que por pressão da comunidade Hindu. Desde então, esta solução deixou de ser praticada apenas por hindus e gente que sofre de claustrofobia. São várias as vantagens da cremação, tanto para quem gere um cemitério como para os cidadãos. Os primeiros não precisam de se expandir para continuar a cumprir a sua missão e os segundos deixam de falhar sistematicamente no dia de finados, podendo substituir uma ida à campa dos familiares numa invernosa manhã de Novembro pelo afagar da tampa de uma terrina colocada sobre a lareira. A adesão à cremação foi tal que já não estamos perante uma simples moda, mas sim uma mudança de paradigma. Enfim, os lisboetas estão a par. O lisboeta moderno quer as suas cinzas num recipiente de porcelana, na caixa de charutos que herdou do avô, espalhadas ao vento num dia bonito e na presença dos entes queridos, ou então enterradas num local com valor sentimental. A moda é tão aguda que há hoje quem se preocupe com as emissões dos fornos crematórios, aflição que não poderia estar mais afinada com a actualidade. 

 

Até 2002 existiam apenas três fornos crematórios a funcionar em Portugal. Continuava em uso o mais antigo, na capital, e começara a funcionar um outro, no cemitério do Prado do Repouso, no Porto. Esta é uma cronologia normal, visto esperar-se que a urgência de construir um forno crematório seja proporcional à dimensão das cidades. Para mais, os efeitos de proximidade devem contar muito pouco, pois se as agências funerárias cobram 1 euro por quilómetro quando transportam um cadáver, no que toca à cremação cada povoado terá mesmo de funcionar como uma cidade-estado, tão auto-suficiente quanto possível (1). Sendo assim, devemos tentar perceber por que motivo o terceiro forno crematório de Portugal surgiu em Ferreira do Alentejo, vila do Baixo Alentejo com 4800 habitantes. Parece que este acidente na história da tradição funerária lusa se deve à vontade de um único homem, que nem sequer era político. A história pública deste homem merece pois ser contada, pela promessa de insólito que encerra e, também, pelo sucesso do forno crematório de Ferreira (48 cremações em 2001, 134 em 2002 e provavelmente mais de 235 em 2007), que destoa daquilo que é a evolução das valências construídas no interior, tantas vezes sobredimensionadas. Para o fazer, preciso da vossa ajuda, pois - como sabem - de Ourique só admito sair para ir a Castro Verde ou à praia da Galé. Tendo em conta o estado a que o respeito pela privacidade chegou neste país e algum revisionismo sobre o que é a privacidade, preferia que veiculassem qualquer informação relevante  (contactos, estatísticas, histórias, receios à época) por correio electrónico (eremitadaplanicie@spo.pt). Chamemos a este exercício jornalismo de investigação de sofá

 

(1) Não foi possível confirmar se os carros funerários cobram bandeirada.

 

05
Fev10

Estamos todos de parabéns


Eremita

Completo hoje 50 anos. O inventor quer oferecer-me um jantar e uma das libertinas fez uma proposta ainda mais generosa. Não lhes cheguei a contar a minha teoria sobre o aniversário. Defendo, há muito tempo, que só faz sentido celebrar o dia de anos quando ultrapassámos a esperança média de vida. Até esse momento, limitámo-nos a fazer o que se espera de nós. Não transformemos pois o aniversário numa comenda de ex-primeiro-ministro. Mas dirão os mais argutos: o que te leva então a divulgar o aniversário que não pretendes celebrar? Uma fraqueza de espírito, obviamente.

04
Fev10

Outras samarras


Eremita

Nicolau Santos (Sic Not) aparece de echarpe. Manuel Loff ( RTP N) surge de blusão de pele com um grau de desgaste perfeito. Do dandismo ao casual chic, este foi o serão em que nos esquecemos dos decotes de Ana Lourenço.

 

 

04
Fev10

8


Eremita

Screen Shot 2019-05-04 at 10.18.56.png

(pub) A brief history of romance comics

- Ah... Mas não eram os tutsis que tinham as catanas?

- Os hutus. 

- Estou sempre a trocar os nomes. 

- Experimente também trocar a catana de mãos e estará tudo certo. 

- Você anda com um humor de cão, sabia?

- É desta rotina de trocar por você alguém mais novo do que eu.

- "Trocar"?

- Eu disse "tratar".

- Não, disse "trocar". Foi um lapso seu. Falava de nós?

- Sim. Tenho idade para sermos irmãos com três irmãos de permeio.

- Pensei que iria dizer que tinha idade para ser meu pai. Quer trocar-me pela minha amiga, é? Só ganharia 3 anos e ela tem mais rugas. 

- Não se incomode.

- Mas prefere que nos tratemos por "tu"?

- Não. Prefiro não lhe dar essa confiança.

- Confesse lá, isto excita-o um bocadinho, não excita?

- A sua dislexia em história contemporânea?

- O tratamento cerimonioso.

- Só se houvesse um desfasamento entre o discurso e o comportamento.

- Não espero outra coisa de si.

- Bem sei, mas já lhe disse que estou apaixonado por outra mulher.

- Confesso que isso me excita um bocadinho.

- Também já não espero outra coisa de si.

03
Fev10

Yeah, right


Eremita

And this sense of the exhaustability of the earth is a completely new idea, one that would have made no sense to anyone not born in or after the 20th centuryMartin Amis

 

The power of population is indefinitely greater than the power in the earth to produce subsistence for man. Population, when unchecked, increases in a geometrical ratio. Subsistence increases only in an arithmetical ratio. A slight acquaintance with numbers will show the immensity of the first power in comparison with the second. Malthus T.R. 1798. An essay on the principle of population

 

É embaraçoso que se pergunte a um romancista mais do que aquilo a que o romancista pode responder com competência. Se a nossa sociedade fizesse algum sentido, o romancista apenas teria autoridade para se manifestar sobre os livros que escreveu e a sua arte (o que inclui os livros que outros escreveram, os mecanismos da ficção e a história da literatura). Não defendo que o romancista não seja livre de expressar a sua opinião sobre outros assuntos, como o aquecimento global e a teoria das cordas. Defendo apenas que não o devemos ouvir com demasiada atenção sobre esses assuntos, sob pena de começarmos a duvidar dele sobre os temas que efectivamente domina. A entrevista a Martin Amis é uma das melhores ilustrações deste problema. Quando fala de literatura, Amis é brilhante, ou pelo menos interessante. Sente-se que há ali uma cabeça que produziu pensamento original. Mas quando fala de outros assuntos, nomeadamente os assuntos da moda, Amis parece um blogger médio e regurgita os aerossóis de informação que pairam por aí.

 

Pode ser que a suspensão de cepticismo de que um escritor goza seja um atavismo do tempo em que os homens de cultura e os autores eram Leonardos, mas esse tempo acabou. Não se faz aqui prova da decadência do homem; muito pelo contrário, esse tempo acabou por causa do progresso do conhecimento que o homem produziu. Hoje, a única forma que sobra de restaurar a ilusão de omnisciência é o misticismo. Mas eu preferia que Martin Amis não fizesse de Paulo Coelho. 

 

 

 

 

03
Fev10

Invictus


Eremita

 

Habitam o rapaz do cineclube uma série de qualidades: empreendedorismo, persistência, coragem e... enfim, creio que a enumeração é já exaustiva. Mas o moço tem também uma notória falta de sociabilidade. Pode ser desagradável, irascível ou  irrascível (para os criativos da língua), manipulador,  autoritário e capaz de pôr os seus intentos à frente de valores como a honestidade e a justeza. Ontem fez-nos mais uma. No preciso momento em que terminava Invictus e antes dos créditos finais,  acendeu a luz. A ideia era apanhar-nos em flagrante lacrimal. Como eu chorava ligeiramente, indignei-me, primeiro com o abuso e depois com a estupidez. Para o moço, não se pode chorar num filme e afirmar que não se gostou. Voltarei ao tema, pois houve aqui um encadeamento raro: partir de uma falha ética e acabar a trucidar a estética.

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