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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

20
Fev10

Transplantes verbais


Eremita

 

Este Pedro Amaral tem uma bela voz, uns belos olhos, sabe umas coisas e não é nada parvo. Em tempos, eu disse a um amigo que Wagner havia explorado os limites da tonalidade, uma expressão que seguramente roubei de um dos programas de Amaral. Ao ouvir tal expressão, este meu amigo riu e nos meses (talvez até anos) seguintes não deixou passar uma oportunidade para fazer pouco de mim com paráfrases sobre a exploração dos limites da tonalidade aplicadas aos mais diferentes contextos, como se distendesse no tempo a famosa réplica de Cyrano; ele era a exploração dos limites dos têmperos da cozinha tradicional portuguesa, a exploração dos limites das práticas heterossexuais a dois sem brinquedos, a exploração dos limites da razão, a exploração dos limites do politicamente correcto. A expressão, em si, tem um potencial histriónico nulo e este meu amigo um sentido de humor apurado. A explicação é simples: ele fora sobretudo sensível à ausência de naturalidade de tal expressão no meu discurso.

 

Há uma forma natural, quase aristocrática, de se adquirir intelectualidade, que decorre de um contexto familiar, bairrista e liceal. Há depois uma forma esforçada, mas a que não basta o estudo, é preciso alguma teatralidade. Caso contrário, as coisas aprendidas fora de tempo soam estranhas à partida e serão sempre censuradas socialmente, vindo a cair em desuso, como cai o enxerto de pele transplantada de um dador errado. Assim, temos confiança no intelectual natural mas pouca admiração, e temos admiração pelo intelectual esforçado mas pouca confiança. É desconcertante poder lançar este anátema sobre qualquer intelectual sem por uma vez se revelar antisemitismo - deve ser dos serões com o judeu.

 

19
Fev10

Movimento perpétuo


Eremita

Leonardo da Vinci

 

 

Também eu m'espanto às vezes, outras m'envergonho. O espanto resulta da minha inferioridade intelectual face ao judeu (o inventor). Curiosamente, a vergonha surge com a mesma pessoa, mas é vergonha alheia. O judeu é um daqueles homens em que um qualquer trauma deixou o crânio incólume mas a cabeça avariada. 

 

 

18
Fev10

Speedy Gonzalez


Eremita

 

Entremear Dangling Man, de Saul Bellow, em capítulos do meu Moby não é uma traição, nem sequer falta de disciplina. É uma forma de perceber que o esforço para mungir o inglês de Moby dá um poder acrescido momentâneo a quem, de repente, começa a ler um inglês mais moderno. Entrar no raciocínio ambicioso em estilo espartano de Bellow, vindo de Melville, foi uma autêntica trip sem drogas e, até à página 48, senti-me profundamente inteligente. Obrigado aos dois. Mais tarde partilharei com os leitores uma ideia algo paradoxal de liberdade, por implicar uma qualquer forma de aprisionamento, e que, embora sem servir para organizar a política, porque os imperadores romanos esgotaram o campo da promoção de excentricidades a lei, descreve com rigor, lamento admiti-lo, as circunstâncias em que me senti verdadeiramente livre, como num sábado em Katmandu, por não haver voo de regresso à Europa, ou dentro de uma carruagem, no Cais-do-Sodré, por haver uma avaria na catenária (esta deve ser a frase mais longa do Ouriquense, mas julgo que está bem pontuada)*. A história de um homem à espera de ser recrutado para a guerra e impedido por entraves burocráticos de trabalhar (Dangling Man) parecia-me, à partida, um relato propício para desenvolver esta noção de liberdade, num registo the untold story. Mas adio o veredicto, pois o livro parece caminhar noutra direcção. Em todo o caso, acabo de ler a descrição de uma festa que mete a declamação forçada de um poema surrealista e termina com um número falhado  de hipnotismo, sem que nada disto pareça excêntrico e com uma economia de tempo e riqueza de pormenores que só julgava possível nos filmes de Robert Altman. 


* A frase tinha uma construção absurda, que era uma espécie de atavismo. Não há pior inimigo da prosa do que a remodelação desatenta.

 

17
Fev10

The end


Eremita

 

Num texto, detesto os remates universalistas ("... Como todos nós."), os estóicos ("... Não poderia ser de outro modo.") e os inconclusivos ("... Ou talvez não."). Para ser franco, só gosto de finais com banda sonora e essa é, para mim, a única vantagem do cinema sobre a literatura. 

16
Fev10

Curb your enthusiasm


Eremita

Como se sabe, o lado negro do empreendedorismo do rapaz do cineclube é a sua prepotência. Não deve haver lugar em Ourique sob uma disciplina mais férrea do que o casebre onde têm lugar as sessões. Mas nunca pensei que o moço pudesse levantar a voz para que me sentasse. Tudo isto porque em Whatever Works há uma cena filmada naquele que era o meu restaurante preferido em Nova Iorque, o Cafe Mogador. A surpresa por ver a East Village em Ourique fez-me saltar da cadeira. Pois bem, como em Lisboa gastei toda a tolerância que tinha para criaturas prepotentes, recusei a ordem, soltei um "vai bugiar, fedelho" e bati com a porta. O meu desabafo soa pouco verosímil e deixou-me orgulhoso, pois é o resultado de um  esforço de extensão do vocabulário em situações de stress, que ainda não havia sido posto à prova. Pelo sucedido, ainda não sei ainda como acaba o filme.

16
Fev10

Código laboral


Eremita

E Tatiana? São inimagináveis os efeitos de uma licença de maternidade de 5 meses. Maldito Estado, que retirou esta mulher do espaço público por um período insuportavelmente longo.

16
Fev10

Escrever


Eremita


 

There are certain queer times and occasions in this strange mixed affair we call life when a man takes this whole universe for a vast practical joke, though the wit thereof he but dimly discerns, and more than suspects that the joke is at nobody's expense but his own. However, nothing dispirits, and nothing seems worth while disputing. He bolts down all events, all creeds, and beliefs, and persuasions, all hard things visible and invisible, never mind how knobby; as an ostrich of potent digestion gobbles down bullets and gun flints. And as for small difficulties and worryings, prospects of sudden disaster, peril of life and limb; all these, and death itself, seem to him only sly, good-natured hits, and jolly punches in the side bestowed by the unseen and unaccountable old joker. That odd sort of wayward mood I am speaking of, comes over a man only in some time of extreme tribulation; it comes in the very midst of his earnestness, so that what just before might have seemed to him a thing most momentous, now seems but a part of the general joke. There is nothing like the perils of whaling to breed this free and easy sort of genial, desperado philosophy; and with it I now regarded this whole voyage of the Pequod, and the great White Whale its object. The Hyena, cap. 49

15
Fev10

Moby e o acordar das personagens


Eremita

Moby

 

As crianças atribuem vida a qualquer objecto que se mova - é o animismo infantil, um termo sancionado. Eu atribuí vida a um livro, depois de ter o num cúmulo de imobilidade - é uma idiossincrasia aparente. A história conta-se depressa. Regressava à vila de bicicleta e passei por um Pajero estacionado na berma da estrada. O condutor procurava algo no chão e resolvi perguntar se precisava de ajuda. Só depois de parar reparei que um macaco levantava o carro pelo chassis, o suficiente para retirar o pneu furado mas não para encaixar o pneu cheio. O homem parecia capaz e não duvidei que o macaco estivesse distendido no máximo da sua capacidade. O homem estava também algo irritado, pelo que não tentei esclarecer se o Pajero vinha de origem equipado com um macaco inútil ou se alguém o trocara pelo macaco de uma viatura com um chassis mais rasteiro. Havia pois um problema e nenhuma pedra chata e solta nas redondezas. Daí a minha ideia de usar o livro que trazia na sacola. O homem riu-se. Percebi que não era um literato. Insisti e ele acedeu com um encolher de ombros. Voltámos a enfiar o pneu furado e a atarraxar ligeiramente as porcas; desci o macaco, até aliviar toda a pressão; meti o livro dentro de um saco de plástico e coloquei-o no chão, a servir de base ao macaco, que assim ganhava os 4 cm necessários; comecei a dar à manivela; o macaco pressionou a capa, os cantos ergueram-se ligeiramente, mas depois o livro deixou de acusar qualquer esforço e o Pajero subiu. Fizemos então o que sempre se faz quando se muda um pneu. O homem agradeceu-me, ainda antes de eu recolher o livro e de lhe sentir as marcas do esforço com a polpa dos dedos, sem olhar, para exibir uma confiaça inabalável na força da literatura. Só quando o Pajero arrancou, e já depois de o perder de vista e de a paisagem recuperar o silêncio, murmurei, como se tivesse um cachorro ao colo: "meu Moby"...

 

O Acordar das personagens 

 

[acabo depois de jantar]

13
Fev10

A inspiração é uma coordenada


Eremita

Abomino os cursos de escrita criativa. A irritação começa logo no epíteto "criativa". Parece que existe para distinguir estes cursos das aulas de alfabetização, embora a muitos dos seus alunos talvez estas fossem uma opção mais avisada. Também a ideia de discutir os exercícios com os outros colegas é muito pouco apelativa. E se nesses cursos Salinger se deu bem sentado, quando aprendia, deu-se depois muito mal de pé, como professor. Haja respeito por um homem que conseguiu morrer duas vezes sem recorrer a truques místicos.

 

Com a bibliografia de "escrita criativa" a relação é distinta, sobretudo porque não há convívio. Mas quando olho para trás, o melhor conselho que aprendi num desses livros ou artigos não é de E. M. Forster, John Gardner, James Wood ou qualquer outro nome respeitável. O melhor conselho é de Stephen King. Não o King provocador de fiction writers, present company included, don't understand very much about what they do—not why it works when it's good, not why it doesn't when it's bad. I figured the shorter the book, the less the bullshit. Nem o King assertivo de I believe the road to hell is paved with adverbs, and I will shout it from the rooftops - uma tirada que entusiasma adolescentes mas em que a primeira oração é boa e a segunda sofrível. É mesmo o King que gasta alguns parágrafos do seu pequeno livro a explicar como a sala onde se escreve deve estar mobilada. Tal preocupação tocou-me fundo. Durante anos pensei que uma carreira de escritor estaria à distância do IKEA mais próximo. Depois apurei o juízo, comecei a ir a antiquários. Mas foi em vão. Nunca consegui recriar o local ideal para escrever - e seria uma recriação, pois fui tendo imagens na cabeça. Só em Ourique vim a perceber que o meu erro foi ter feito uma interpretação literal do conselho de King. 

 

Aqui no Cotovio não há propriamente mobília, pois a casa está em ruínas e tão vazia por dentro que parece ter sido pilhada. Só que no outro dia, quando descia do monte encimado pelo marco geodésico e caminhava ladeado de arbustos que se enchem de flores brancas na Primavera, flores grandes, capazes de atrair abelhas e até apicultores, senti ali, ali mesmo, não uma promessa de Primavera mas algo que, à falta de outro termo, eu diria, sem mais demoras, poder ser descrito como "inspiração". Se sempre pensara que a inspiração descia sobre os homens vinda dos céus, experimentei algo distinto: a minha inspiração subiu-me pelas pernas e vinha tão carregada do cheiro aos actinomicetos da terra molhada que, em rigor, também me entrou pelas narinas. Estaquei logo, como se fosse um  descobridor de água por radiestesia que, de súbito, sente vibrações no seu graveto em forquilha. Sentei-me num pequeno afloramento xistoso, senti a pedra quente, etc., tirei o bloco de notas e comecei a escrevinhar impacientemente, freneticamente e depois obsessivamente (grita, Stephen, vai gritando). Nunca nada assim me havia acontecido. Há homens que têm dias triunfais; eu tive umas boas 3 horas triunfais. E materializou-se uma história no fim. Uma história em que não havia sequer pensado até então, nem mesmo quando estava junto do marco geodésico, mas que não é filha da escrita automática. A história não tem qualidade para se apresentar ao público e só a sua génese importava contar.

 

Tenho voltado ao mesmo sítio. Ao fim do primeiro dia, temi que aquela experiência tivesse resultado do cheiro a terra molhada. Todos sabemos que não há nada mais forte do que um estímulo olfactivo para reavivar a memória, com a excepção do waterboarding. Por isso decidi voltar nos dias seguintes. Escolhi dias solarengos e secos, dias frios, tardes amenas e até uma noite de luar. Fiz variar tudo o que se pode variar, inclusive os meus humores. Cheguei mesmo a ir para aquele lugar com vontade de urinar. Só não levei lá o moço de recados, pois seria incapaz de lidar com a confirmação de que também aquele idiota pode ser possuído pela minha inspiração. O resultado tem sido sempre o mesmo: a terra pode estar seca, a minha bexiga acalma-se sempre e o que vem, sem falta, é uma compulsão para a escrita que dura 3, por vezes 4 horas. É sempre com o frenesim do primeiro dia que tenho composto contos. A qualidade varia muito, mas conto mostrar dois deles nos próximos dias. Um é sobre um tenista etíope de 2 metros, a envergadura de um albatroz e um serviço tão infalível e indefensável que as regras tiveram de mudar para o jogo não morrer, matando-o a ele. O outro é sobre um velho que troca a pornografia hardcore por uma modelo peituda que nem os mamilos mostra. A demora explica-se pela dificuldade em decifrar a minha caligrafa - mesmo vertida sem urgência, é praticamente ilegível. 

 

 

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