Moby
As crianças atribuem vida a qualquer objecto que se mova - é o animismo infantil, um termo sancionado. Eu atribuí vida a um livro, depois de ter o num cúmulo de imobilidade - é uma idiossincrasia aparente. A história conta-se depressa. Regressava à vila de bicicleta e passei por um Pajero estacionado na berma da estrada. O condutor procurava algo no chão e resolvi perguntar se precisava de ajuda. Só depois de parar reparei que um macaco levantava o carro pelo chassis, o suficiente para retirar o pneu furado mas não para encaixar o pneu cheio. O homem parecia capaz e não duvidei que o macaco estivesse distendido no máximo da sua capacidade. O homem estava também algo irritado, pelo que não tentei esclarecer se o Pajero vinha de origem equipado com um macaco inútil ou se alguém o trocara pelo macaco de uma viatura com um chassis mais rasteiro. Havia pois um problema e nenhuma pedra chata e solta nas redondezas. Daí a minha ideia de usar o livro que trazia na sacola. O homem riu-se. Percebi que não era um literato. Insisti e ele acedeu com um encolher de ombros. Voltámos a enfiar o pneu furado e a atarraxar ligeiramente as porcas; desci o macaco, até aliviar toda a pressão; meti o livro dentro de um saco de plástico e coloquei-o no chão, a servir de base ao macaco, que assim ganhava os 4 cm necessários; comecei a dar à manivela; o macaco pressionou a capa, os cantos ergueram-se ligeiramente, mas depois o livro deixou de acusar qualquer esforço e o Pajero subiu. Fizemos então o que sempre se faz quando se muda um pneu. O homem agradeceu-me, ainda antes de eu recolher o livro e de lhe sentir as marcas do esforço com a polpa dos dedos, sem olhar, para exibir uma confiaça inabalável na força da literatura. Só quando o Pajero arrancou, e já depois de o perder de vista e de a paisagem recuperar o silêncio, murmurei, como se tivesse um cachorro ao colo: "meu Moby"...
O Acordar das personagens
[acabo depois de jantar]