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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

24
Jan10

IX


Eremita

John Coplans

 

10.04.08 Enquanto me secava, lembrei-me que os ecologistas classificam as relações entre indivíduos de espécies diferentes segundo uma lógica de custo e benefício. Na simbiose, o benefício é mútuo. No comensalismo, um é beneficiado e o outro não é muito incomodado. No parasitismo, um perde para que o outro possa ganhar. Não se podia ser mais claro. Mas consideremos o líquen. É o paradigma da simbiose, metade alga, outra metade fungo. Este recebe alimento daquela e retribui em protecção e humidade. Parece uma relação doméstica à moda antiga, em que o fungo é a mulher e a alga, a breadwinner, o homem. Os dois estão até condenados a viver um com o outro e os naturalistas, para não agitarem o sempre efervescente mundo da botânica, decidiram que esta seria uma "relação feliz". Só alguns, no estilo pica-na-merda, falam de hilotismo. O termo remete para os hilotas, o mais baixo estrato social da cidade soberana de Esparta, que eram propriedade do Estado e seriam - enfim - mais felizes do que escravos propriedade de cidadãos. Como se percebe, a matéria é menos consensual do que julga, mas ainda mais quando se pode saber a opinião dos intervenientes.

 

O pé de atleta é uma dermatofitose provocada por um fungo que se alimenta de células mortas queratinizadas e provoca lesões vesiculosas nos espaços interdigitais dos pés. O fungo estabelece uma relação física íntima com o homem e, para muitos, esta será a relação mais íntima e duradoura das suas vidas. Existe tratamento, mas é prolongado; o fungo pode manter-se para sempre entre os dedos, como um amor mal resolvido. Por vezes há sangue e quem vê as feridas não tem dúvidas em dizer que se trata de parasitismo, mas quantos homens, que as têm, não reconheceriam, sob anonimato, viver uma simbiose? O fungo come, o homem coça-se, o prazer nasce.

 

23
Jan10

3 actores


Eremita

 

 

 

 

O rapaz do cineclube ouviu a minha ideia de se fazer um ciclo com os actores da geração pós Robert de Niro. O rapaz tem 38 anos - só o trato assim por ser mais novo do que eu - e escolhi exemplos que fizessem sentido para alguém com a sua idade. Imprimi umas folhas, quase um dossier. Creio que falei bem. O raio do puto não ficou convencido. Porra, dá vontade de chamar o Sá Pinto. De alguém que pirateia filmes no eixo Monumental-Barata Salgueiro vai para 2 anos esperava mais do que : "não é um pouco rabeta?"

23
Jan10

Ascensão e queda


Eremita

Após os primeiros tempos de aprendizagem, ainda na adolescência, cedo ganhei o estatuto de bom guitarrista. Nos meus vinte anos, na faculdade e na Maison du Portugal da Cité U era um dos guitarristas de serviço e tive a minha dose de elogios. Depois os elogios foram escasseando. Não que as tertúlias (sempre ocasionais) tivessem acabado. Não que eu toque agora pior  - em rigor, toco um pouco melhor. O que se passou foi o seguinte: a minha progressão técnica não acompanhou o meu envelhecimento. Por outras palavras, a exigência com que se olha para um jovem a tocar na guitarra, por vezes aos coices, é menor do que aquela que se tem com  um adulto apostado em tocar à guitarra um prelúdio. Como esta regra é particularmente cruel para este instrumento, que é o preferido dos adolescentes, podemos dizer que o guitarrista, por comparação com o pianista, envelhece mal. 

23
Jan10

Avós


Eremita

Cruzei-me nesta vida com netos capazes de chorar a morte dos seus avós por via directa. Invejei-os com compaixão, porque chorei sobretudo a morte dos meus avós por via indirecta, isto é, acusei mais o sofrimento dos meus pais do que as mortes. É verdade que estes são vasos comunicantes e imagino que teria sofrido o mesmo se os meus pais não estivessem vivos, como se o caudal de sofrimento não mudasse e, não podendo fluir por uma via, se canalizasse pela que sobrasse. Talvez até a dor chegasse mais forte, pela sua compressão no tempo - para insistir na hidráulica - ou por a condição de órfão ampliar o sofrimento, mas nunca o saberei e é com alívio que o escrevo. Fica pois a dúvida de ser habitado por uma frieza que me arrefece para lá de uma geração de distância e o vício de encontrar leis na simetria leva-me a pensar que teria repetido com os meus netos o que sucedeu com os meus avós. Mas também nunca o saberei, e é com angústia que o escrevo. 

22
Jan10

Casanova cresceu na margem boa do Tejo


Eremita

Ah, a farsa. Vou agora explicar-vos o segredo da boa farsa: o segredo da boa farsa é cercar o temperamento inadequado com as circunstâncias mais adequadas para revelar a inadequação desse temperamento. Esta simples fórmula de meter o homem certo no sítio errado foi utilizada para produzir algumas obras-primas da comédia, tais como a colocação de Basil Fawlty nas imediações de um hotel, David Brent nas imediações de uma empresa, Pacheco Pereira nas imediações de um partido político, e Ricardo Sá Pinto nas imediações de uma sociedade.

 

(...)

 

Hitchens não pertence a nenhuma destas estirpes, e uma linha clara de declínio é precisamente o que não se consegue encontrar nele: um gráfico da sua carreira não teria a forma de uma gradual curva descendente, mas sim de uma epiléptica sucessão de trambolhões. De cima para baixo, de baixo para cima, de baixo para mais baixo - qualquer movimento do homem é sempre um espalhanço. Tal como a Natureza, o debate de ideias abomina o vácuo. No espectro das posições teoricamente passíveis de serem adoptadas sobre qualquer assunto, o bom senso tende a deixar espaços em branco; "Christopher Hitchens" é a forma que a Natureza arranjou para os preencher. 


(..)


“Gore Vidal” foi uma convenção literária concebida por Gore Vidal para ter sempre muita razão num mundo repleto de estúpidos. A convenção, no entanto, emancipou-se muito cedo, e decidiu permitir-lhe apenas escrever muito bem num mundo repleto de pessoas que escrevem mal: escrever muito bem naquele tom patenteável de alegre e incrédula exasperação, como quem relata os disparates de um filho cretino (sendo que o filho cretino é a raça humana). O deleite na imaginação do desastre é uma pose cheia de limitações, que a longevidade tende a agravar, pois perpetua um ciclo vicioso: a pose serve para expressar uma sensibilidade literária e intelectual cuidadosamente artilhada, mas também para validar as suas manifestações, pois se ela não fosse uma consequência natural das respostas aos factos, nunca lhe permitiria escrever tão bem (isto é uma falácia na qual caíram pessoas bem melhores que nós, pelo que não vale a pena empertigarmo-nos). Com o tempo, todas as energias criativas são empregues num único propósito: evitar que a personalidade encontre os prosaicos atritos da realidade, que às vezes fazem uma pessoa (menos eu, que sou realmente infalível) mudar de ideias. Estas personalidades, esculpidas com tanto afinco, deixam por fim de ter a elasticidade suficiente para responder às necessidades, numa altura em que já não há capacidade nem paciência para explorar tácticas novas; e afundam-se no seu próprio ADN, como as pessoas de idade. Vou agora explicar-vos o segredo das pessoas de idade: as pessoas de idade envelhecem, tornam-se abruptas e inconvenientes, perdem uma fracção das maneiras e a totalidade do timing, lançam piropos a enfermeiras e dizem mal dos brasileiros, babam-se nas golas da camisa e chamam José ao Luís. O que as pessoas que ainda não são de idade fazem é ignorar tudo isto, mantendo um silêncio decoroso, porque um dia aquela pessoa de idade seremos nós, e vamos precisar da tolerância de quem nos ature. Não se aproveita a oportunidade para apontar, como quem descobre a pólvora, que o avô já não é o que era, ou para ganhar as discussões que se perderam quando as regras eram outras. entrevista ao Independent que provocou em Hitchens aquela falsa e sórdida indignação é uma entrevista a um homem com 84 anos, que já respondeu a todas as perguntas muitas vezes, e já não se dá sequer ao trabalho de olhar para as cábulas; um homem que sobreviveu à família, aos amigos, aos inimigos, ao companheiro de toda a vida, e às suas próprias pernas; um homem que costumava saudar entrevistadores com abusos pansexuais e citações de Cícero, e que agora se limita a dizer "It is so cold in here," he says, by way of introduction. "So fucking cold". É um homem que conquistou o direito a ser este homem, e a ter frio, a ter muito frio. Confrontado com isto, Christopher Hitchens foi abrir mais janelas, porque ainda pode"

 

Rogério Casanova

 

 

O Casanova é o Jesus Cristo da blogosfera. Não naquele sentido rídiculo de que se estaria à espera que ele aparecesse, mas porque, sobre qualquer tema - excluindo a música, obviamente - a nossa autocensura deveria levar-nos a formular a seguinte pergunta, que aqui vos deixo em aramaico original, tal como essa língua é entendida no Bible Belt: What would Casanova do?  Ou, descodificando com alguma liberdade: o que escreveria Casanova? Se a liberdade de expressão não se tivesse propagado e alojado em todas as consciências como um agente infeccioso crónico, a blogosfera seria um lugar bem mais aprazível. E, para um indivíduo minimamente consciencioso, hoje, em Portugal, o maior atentado a essa liberdade deveria ser a leitura de um texto de Rogério Casanova, com a inevitável consequência que seria um silêncio introspectivo  - e eu diria até: contemplativo. Ainda não é assim, mas cumprir Abril também passa por respeitar esta conquista.

 

 

21
Jan10

Breaking news: o inventor é judeu


Eremita

 

Mas judeu mesmo. Não se limita a ter gotas de sangue judeu. Ou apelido de cristão novo. Ou feições que remetem para. Ou aquela tão difundida judeofilia, esse tropismo alimentado por quatro pulsões fortíssimas: a da identidade histórica, a da vitimização, a do elitismo intelectual e a de querer simplesmente pertencer a um clube de acesso restrito. Nada disso. Os pais chegaram aqui em 1939 e acabaram por não continuar a viagem para os EUA. Mais tarde contarei de onde vinham. Estou muito satisfeito com esta novidade e os comentários anti-semitas serão implacavelmente censurados. 

20
Jan10

Uma evidência


Eremita

As recensões mais populares de Rogério Casanova são aquelas em que ele destrói livros maus. Os de Margarida Rebelo Pinto,  da rapariga dos vampiros e de José Rodrigues dos Santos. Mas essas são também as piores recensões de Casanova. Não no sentido de serem más, mas porque as outras - em que ele diz bem - são melhores e mais difíceis de escrever. 

 

 

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