IX
Eremita
John Coplans
10.04.08 Enquanto me secava, lembrei-me que os ecologistas classificam as relações entre indivíduos de espécies diferentes segundo uma lógica de custo e benefício. Na simbiose, o benefício é mútuo. No comensalismo, um é beneficiado e o outro não é muito incomodado. No parasitismo, um perde para que o outro possa ganhar. Não se podia ser mais claro. Mas consideremos o líquen. É o paradigma da simbiose, metade alga, outra metade fungo. Este recebe alimento daquela e retribui em protecção e humidade. Parece uma relação doméstica à moda antiga, em que o fungo é a mulher e a alga, a breadwinner, o homem. Os dois estão até condenados a viver um com o outro e os naturalistas, para não agitarem o sempre efervescente mundo da botânica, decidiram que esta seria uma "relação feliz". Só alguns, no estilo pica-na-merda, falam de hilotismo. O termo remete para os hilotas, o mais baixo estrato social da cidade soberana de Esparta, que eram propriedade do Estado e seriam - enfim - mais felizes do que escravos propriedade de cidadãos. Como se percebe, a matéria é menos consensual do que julga, mas ainda mais quando se pode saber a opinião dos intervenientes.
O pé de atleta é uma dermatofitose provocada por um fungo que se alimenta de células mortas queratinizadas e provoca lesões vesiculosas nos espaços interdigitais dos pés. O fungo estabelece uma relação física íntima com o homem e, para muitos, esta será a relação mais íntima e duradoura das suas vidas. Existe tratamento, mas é prolongado; o fungo pode manter-se para sempre entre os dedos, como um amor mal resolvido. Por vezes há sangue e quem vê as feridas não tem dúvidas em dizer que se trata de parasitismo, mas quantos homens, que as têm, não reconheceriam, sob anonimato, viver uma simbiose? O fungo come, o homem coça-se, o prazer nasce.
