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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

12
Jan10

O aprendiz do carrasco


Eremita

Na orla da floresta, onde antes havia uma nogueira desirmanada, um homem e um rapaz de trajes acastanhados e modestos estão diante de um cepo enraizado, com uma superfície lisa de quase um metro de diâmetro e a meio metro de altura, escurecida pelo sol e a chuva, mas ainda com os anéis concêntricos bem definidos, aqui e ali feridos por lenhos pouco profundos. O carrasco segura um imponente machado numa mão e uma melancia na outra, amparada pela sua barriga. Atrás deles há uma pilha de melancias e a paisagem é verdejante até se perder de vista. 
O homem equilibra a melancia pelo equador no cepo e ergue o machado com as duas mãos. A lâmina só não brilha porque o dia está enublado, mas percebe-se que brilharia à mais pequena aberta. O carrasco aponta dois dedos em forquilha na direcção dos seus olhos e diz algo inaudível ao rapaz, antes de erguer o machado. Desfere depois um primeiro golpe, um segundo e um terceiro, sem dar mostras de querer parar, aumentando inclusive a cadência. Ao fim de um minuto, sobre o cepo está uma melancia branca, sem uma única sobra de casca verde e sem que se note - pelo menos a esta distância - o vermelho vivo do interior. Em redor do cepo e sobre a sua superfície há inúmeras lascas de casca, finas como se alguém tivesse cortado uma pêra abacate com uma navalha. E nem a base da melancia escapou da lâmina, embora esteja ainda no mesmo lugar, não se percebendo daqui se o homem desferiu um golpe horizontal pela base tão rápido que deixou a melancia imóvel ou se a cada golpe a foi imperceptivelmente rodando sobre o seu ponto de apoio. O carrasco diz então ao rapaz: "quando fores capaz de fazer isto de olhos fechados, também terás direito a uma venda". 

12
Jan10

A Roleta Russa


Eremita

Quatro homens jogam à roleta russa na mesa de um pátio. O jogo dura há cinco dias, com pequenas pausas para a higiene pessoal e sestas curtas, sem uma única morte. A notícia começa a espalhar-se. Há um ajuntamento. Surge a suspeita de que nenhuma bala está alojada no tambor e pedidos para que abram a arma, mas os jogadores recusam e desafiam quem deles duvida a sentar-se à mesa para jogar também. Ninguém o faz. Passam-se mais dois dias, a assistência não arreda pé. Mais três dias. Dois dias. Um dia. Alguém da assistência decide juntar-se. O jogo prossegue a cinco, sem alterações. Passa outro dia e senta-se um novo elemento. Ao fim de mais alguns dias os jogadores são 11 e a assistência não parou de crescer. Mais alguém decide tentar a sua sorte, puxando uma cadeira mesmo ao lado direito do que acabou de jogar. A pistola vai passando de cabeça em cabeça no sentido horário e o recém-chegado sente cada clique com impaciência. Quando recebe a arma, simula que a aponta à cabeça, mas com um gesto rápido tenta abrir o tambor. O revólver rebenta-lhe de imediato nas mãos. Um estilhaço do cano corta-lhe a carótida direita, o tambor da arma, ainda sólido depois da explosão, fura-lhe a caixa torácica e rompe-lhe o coração. Há mais surpresa que pânico. Ninguém se aproxima do corpo imóvel. A assistência começa a dispersar. Ficam os 4 jogadores. Depois de se certificarem que não há mais ninguém por perto, contam as cadeiras em volta da mesa. Três deles colocam então uma quantia indeterminada mas avultada de dinheiro sobre o pano verde. Após uma pausa, o que não havia jogado a mão ao bolso recolhe o dinheiro todo, com um largo abraço que varre a mesa por inteiro. Depois abandonam o pátio, sem arrumar as cadeiras.

12
Jan10

O segredo


Eremita

Vivia na aldeia um homem discreto, com quem os outros homens simpatizavam, por ser cordial e ter bom ar. Pelo mistério, teria também atraído as mulheres, isto - claro - se chegasse a ir aos bailes. Mal se dava por ele em grupo, mas na companhia de outra pessoa era capaz de ficar a falar pela noite fora e a conversa era depois retomada passado um dia, ao relento se era Verão, a um canto da taberna se fazia frio. Dependendo da cumplicidade, ao quarto ou quinto serão ele sempre falava do "terrível" segredo sem grandes rodeios. Contado o segredo, experimentava um certo alívio, vergonha e total desconforto, sempre por esta ordem. No dia seguinte, faltava ao encontro e não tardava a descobrir outro parceiro para reiniciar o ritual. Passaram-se anos, até que chegou o momento em que todos os homens da vila estavam a par do segredo. Virou-se então para as mulheres e começou a ir aos bailes, mas havia poucas raparigas solteiras; em poucos meses todas elas estavam a par do segredo "terrível". Na impossibilidade de encontrar a quem contar o segredo, o homem emigrou. Por ser ainda novo e não ter de voltar a mudar de lugar, escolheu uma grande cidade.

12
Jan10

O Semanário


Eremita

Um homem acende um cigarro e pousa o jornal sobre a mesa. É sábado de manhã. Vai passando pelas páginas em diagonais, lê as gordas, não se demora nas fotografias. A cadência é constante; remadas de papel no ar; o fio do fumo de cigarro não tem tempo de se recompor. Só perto do fim hesita, não chega a largar o canto da folha e volta atrás. O título familiar de uma coluna chamou-lhe a atenção. Ignorava que o cronista tivesse voltado a escrever. Dizia-se que estava doente. Antes assim. Lê a crónica inteira, com um gozo que reconhece. Depois apaga o cigarro, paga o café que antes pedira e sai, deixando o jornal sobre a mesa. 
Encontra um colega na calçada, cumprimentam-se e antes a despedida fala-lhe do jornal do dia, conta-lhe as novidades: "Mas ele voltou a escrever?" No almoço com os amigos, a mesma surpresa, multiplicada por seis. Fica na dúvida, dirige-se a um quiosque, abre um exemplar do jornal, o homem do quiosque refila, ele paga, acende um cigarro, não encontra a crónica. Passa-se uma semana, novo sábado, o homem entra no café, outro café, outro cigarro, nova edição do semanário, perplexidade: uma fotografia na primeira página mostra a praça que ele contempla, mas em ruínas. Fora um terramoto. Olha então para os lados com um sorriso nervoso, joga a mão a um outro jornal, deixado sobre outra mesa. Desilude-se: era um semanário desportivo. Volta ao seu jornal, confere a data. Nova surpresa: a data era futura, precisamente daí a uma semana. 
Guarda segredo até terça-feira, é internado à quarta, enlouquece mesmo à quinta e na sexta despacham-no para um asilo longe da cidade. No sábado morrem metade dos habitantes da cidade. Fora um terramoto. O homem recupera ao fim de uns meses e recomeça a vida noutra cidade. Novo sábado, novo café, outro cigarro, o jornal sobre a mesa, mas agora virado para um rapaz, a quem ele paga para que leia as notícias em voz alta, depois de confir  a data no cabeçalho.

12
Jan10

Os Espantalhos


Eremita

Não se sabe como começou o hábito dos amores vagos. Parecia claro que era uma forma de espantar um desgosto de amor passado e de prevenir o desgosto futuro. A moda pegou. Por toda a cidade, nunca se amara tanto e de forma tão vaga. Um dia passou por lá um sábio, que num ajuntamento festivo a todos se dirigiu: "lembro-me bem de um campo de cultivo que resistiu durante anos à passarada e aos gafanhotos. Era a melhor terra das redondezas e os aldeões faziam tudo para a proteger. Até que alguém se lembrou de colocar um espantalho no meio do campo. No ano seguinte, colocaram dois. Não demorou a que todos quisessem demonstrar o seu apreço por aquele campo. E foi uma praga de espantalhos que acabaria por matar as culturas. De tanto insistirem em espetar espantalhos, não sobrou um palmo de terra arável. Esta cidade é um pouco com aquele campo. Perdoem-me, mas tenho diante de mim uma multidão de espantalhos. Reparem nos vossos braços, abertos mas hirtos. Como espantalhos. Ainda se lembram como se abraça?" Fez-me silêncio e depois ouviu-se uma voz, tímida e anónima: "vagamente..."

12
Jan10

O Chafariz


Eremita

Era uma vez um homem desconfiado, num deserto como os desertos de dunas dos países subdesenvolvidos, mas com rede de canalização subterrânea que substituíra todos os oásis por chafarizes. Depois de ter caminhado durante três dias ao sol, o homem avista um chafariz e precipita-se para ele. Curva-se para abocanhar o repuxo, mas depois hesita. Nunca tinha usado um chafariz, por desconfiar que a água recolhida no ralo é reciclada e volta a sair pelo repuxo. Ainda pensou que passara provavelmente muito tempo desde que a última pessoa usara o chafariz e que qualquer perigo, que ele não conseguia imaginar muito bem, se teria entretanto diluído ou atenuado. Mas reparou depois numas pegadas que não eram as dele. Com o vento que fazia, só podiam ser recentes. Por isso não bebeu e por ali ficou, sedento. No dia seguinte, chegou um leproso. O homem desconfiado explicou-lhe como funcionam os chafarizes e o leproso entendeu que não tinha o direito de beber. Ficaram por ali os dois, sedentos, olhando o repuxo que brilhava sob o sol incandescente. Ao terceiro dia chegou um homem razoável, que ouviu o homem desconfiado e escutou depois o leproso. Tentando fazer-lhes ver o absurdo da situação, virou-se para o leproso e disse-lhe: "bebe tu primeiro, que eu beberei a seguir e assim ele perceberá que não há perigo e beberá no fim". O homem inspirava confiança e o que dizia fazia sentido. O leproso aproximou-se do chafariz e ainda molhou os lábios, mas naquele preciso momento houve um corte de água. No último diálogo que travaram, já com o leproso morto e enterrado, o homem razoável lamentou o progresso e desejou ter um poço por perto, ao que o homem desconfiado respondeu: "seria seguro beber do mesmo balde que usamos para ir buscar a água ao fundo?"

 

 

 

 

12
Jan10

Borda d'água


Eremita

Dou por mim com os humores  ao sabor do tempo. Com a alma de um cata-vento, portanto. É possível que outros não tenham ainda cedido, mas suspeito que todos terão um limite pluviométrico escrito em algum almanaque. 

 

12
Jan10

Philip Roth teria sido desastroso


Eremita

(...) De facto, também para mim foi surpresa, mas não achei chocante, antes sinal de uma modernidade que constantemente abala as certezas que tinha quem, criado como nós ambos na pré-história, se vê desamparado e de mãos vazias.

 

Durante um jantar com amigos de certa idade falava-se da impotência que, por todas as razões e mais uma – cansaço, desacordos, desencontros, medicamentos, falta de cio – se torna problema. E aplaudiu-se a bênção que em tais situações a Viagra é.

 

Nesse momento Laura, assim se chama a rapariga, com um sorriso trocista tirou da maleta uma embalagem de preservativos, uma fiada de pílulas contraceptivas e, surpresa geral, a folhinha de quatro comprimidos azuis.

 

Assustaram-se, temendo que fosse anunciar ter caído na ratoeira de algum sátiro sexagenário, mas ela logo os sossegou:

 

- Pelos jeitos vocês não sabem, mas não é só para idosos. Às vezes a gente vai para a cama com um simpático que bebeu demais e a coisa não arranca. Num caso desses a Viagra...

 

Ele quer ouvir-me concordar que vivemos numa época em extremo utilitarista, que os mais novos se iludem de que tudo se pode resolver com pílulas e maquinaria. Desiludo-o. A minha pena é não ter vinte anos. Tempo Contado

 

 

 

 

 

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