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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

14
Dez09

Dos limites do humor autodepreciativo


Eremita

Começa a cansar a insistência de pessoas talentosas no humor autodepreciativo. Ninguém ignora que o humor autodepreciativo é, quase sempre, uma forma empática de alguém se elogiar, por encerrar implicitamente o elogio ou o estimular. Ora, como em tudo, há limites. Um dos melhores exemplos do abuso do humor autodepreciativo é Ricardo Araújo Pereira, o humorista mais inteligente da nova geração, que transforma em ouro tudo aquilo a que se resolve dedicar mas  se descreve constantemente como um "palerma". Um outro bom exemplo é Pedro Mexia, um dos nossos mais versáteis e interessantes intelectuais. Um conselho aos dois: se querem ser credíveis e respeitados, sejam medíocres de vez em quando. Pratiquem a mediocridade metódica. É que hoje há accountability para tudo na vida, inclusive para o humor autodepreciativo. Chega de amadorismo.

13
Dez09

O inventor bateu com a porta


Eremita

O inventor levantou-se da mesa e gritou:

 

- Sim, gosto de aliterações! Bardamerda, ouviu?

 

Depois  foi logo para a cave, batendo com a porta. Creio que foi a primeira vez que alguém se aborreceu comigo desde que aqui cheguei. 

11
Dez09

We few, we happy few


Eremita

Somos absurdamente tribais. Não há nada como uma guerra para produzir um bom discurso. Por isso gostamos do freedom speech do Mel Gibson de Braveheart e até do Octávio Machado dos jornais desportivos, que é um homem em permanente estado de sítio. Quanto ao último hit de Obama e à sua eloquência, give me a break...  Somos cada vez menos, mas felizes. Sabemos que Obama tem hoje quem lhe escreva os discursos e continuamos a preferir o Henry V, que lhe é superior em eloquência e tem  as vantagens da ficção. 

 

10
Dez09

Crítica vagamente literária


Eremita

Só havia dois destinos possíveis para o livro póstumo e inacabado de Nabokov: tratar-se de uma obra-prima, capaz de reabilitar o filho Dmitri da sua decisão de contrariar o pedido do pai para que o manuscrito fosse destruído, ou de uma obra suficientemente medíocre para fazer de Dmitri uma besta. A hipótese estatisticamente mais plausível  - a de se estar na presença de uma obra mediana para a produção de Nabokov - nunca esteve sobre a mesa. Porquê? Porque não vale a pena tornar a vida mais aborrecida do que já é.

 

O eterno problema da crítica é a falta de controlos. Por isso, nunca saberemos até que ponto estas predisposições afectaram o juízo final, só sabemos que existe já um veredicto consensual. O que fazer? Uma solução possível é imaginar uma curva de Gauss. O crítico é incapaz de colocar esta obra na sua devida posição, mas podemos assumir que se a obra estivesse à direita do pico da curva, deslizaria para o extremo da genialidade e que se estivesse à esquerda deslizaria para o extremo da mediocridade. Sempre é informação, apesar de tudo.

 

08
Dez09

Bagagem


Eremita

Há dois tipos de bagagem. Enfim, haverá três, referindo-se o primeiro à bagagem propriamente dita. O segundo tipo é a bagagem das relações amorosas mal resolvidas. É a esta bagagem que geralmente nos referimos. O terceiro tipo é mais subtil e, curiosamente, resulta de se ter as relações amorosas muito bem resolvidas. Por outras palavras, a pessoa sabe exactamente aquilo que não pretende e reage aos incidentes da nova relação com a bagagem toda das relações passadas, por associação, fazendo do parceiro um estereótipo. O segundo e o terceiro tipos acabam por gerar o fim da relação, mas convém frisar a diferença. No primeiro caso, há um excesso de fulanização do passado; no segundo, há um excesso de desfulanização do presente. 

06
Dez09

Livros


Eremita

Balanço do ano e resoluções

 

Li pouco, li mal, li maus livros. Ditou a conjuntura que me debruçasse sobre a integral de Mário Zambujal. Li toda a obra deste escritor e fiquei com a impressão que tinha antes, o que é algo frustrante: a Crónica dos Bons Malandros, o seu primeiro livro, também é o melhor - e um grande livro. Li Leite Derramado, de Chico Buarque, e Hotel Memória, de João Tordo, livros que serão levados pela enxurrada do tempo. Creio que li Ela e Outras Mulheres, de Rubem Fonseca - a dúvida é quanto à data de leitura (em 2008 ou 2009?).  Li Ensaios Facetos, de Abel Barros Baptista, uma festa de inteligência. Li o Dom Casmurro, de Machado de Assis - e creio, convictamente, que Capitu não encornou.  Cometi o disparate de ler Popper (A lógica da Descoberta Científica) em francês. Li On the Origin of Species e foi a única decisão acertada do ano. Antes das 12 badaladas, terminarei a leitura de Um eremita em Paris (Calvino) e Porque é que a vida acelera à medida que envelhecemos?, de um psicólogo holandês com nome de professor de ioga. Reli O Banqueiro Anarquista e, surpreendentemente, continuo a não me lembrar do fim.

 

Passei os olhos por variadíssimas obras. Lamento não ter conseguido terminar o Moby-Dick. Também não consegui concluir o D. Quijote - aliás, até havia apagado da memória essa tentativa frustrada*.

 

Perante este quadro desolador, quase apetece regressar a Lisboa. Mas tenho esperança. 2010 será um ano de mudança, o ano da leitura metódica. Como se consegue isso? Só conheço três medidas eficazes e conto recorrer a todas - não espero milagres, bastam-me sinergias.

 

A primeira medida é o compromisso público. Conto ler tudo o que conseguir de Kosinsky e Brodsky (prosa), nomeadamente:

 

Kosinsky


Being There

Converstations with Jerzy Kosinski (continuação)

The Hermit of 69th Street (continuação)

The Painted Bird (conclusão)

 

Brodsky

 

Less than One (releitura)

On Grief and Reason (releitura)

Watermark

 

A segunda medida é um caso particular e extremado da primeira: a aposta. O calhamaço reúne as características ideias para objecto de aposta. Conto terminar o Quijote e o Moby-Dick, e começar e acabar o Guerra e Paz (estreia absoluta). Se falhar um, dois ou os três, oferecerei a Luiz Pacheco um jantar, dois ou quatro, respectivamente. A aposta é unidireccional (Pacheco não fica a dever nada caso eu consiga concluir a leitura dos três livros). O jantar terá lugar  - ou não - num dos restaurantes da vila, em Janeiro de 2011.

 

A terceira medida é a leitura organizada em torno de um projecto. Temos escalonados: Os Filhos, de Kafka, Fathers and Sons, de Turgenev, The Germ-Plasm: a Theory of Heredity, Studies in the Theory of Descent, The Evolution Theory, On Germinal Selection as a Source of Definite Variation, Essays upon Heredity and kindred Biological Problems, todos de August Weismann.

 

Considerandos metodológicos

 

Uma questão, também moral: será que a leitura assistida por voz de computador é um recurso válido? Visto que há cada vez mais obras digitalizadas, esta é uma solução de alcance crescente. Recorri a este método para ultrapassar a secção da Origin sobre pombos e creio que consegui um compromisso entre a minimização do aborrecimento e a assimilação da obra superior ao que é dado pela leitura na diagonal, pelos resumos  e por todos os métodos de leitura acelerada, que são uma charlatanice. No fundo, já respondi à questão e agora só me preocupa encontrar uma voz mais agradável do que a que tenho usado.  Sonho com uma voz híbrida de Kathleen Turner com Ana Zanatti, temperada com a famosa inflexão enfática de David Attenborough.

 

* Bem lembrada por Jorge.

04
Dez09

"Adeqúem"


Eremita

Rogério Casanova também falha. "Bloqueei" não é "provavelmente a palavra com o aspecto mais estrangeiro da língua portuguesa". Essa palavra é "adeqúem". Quando um português se depara com "adeqúem" numa mancha da mais imaculada prosa lusa, a sensação é absolutamente desconcertante. Ele chegará mesmo a pôr em causa a existência de tal palavra. Primeiro, pelo grafismo (se "bloqueei" tem um grafismo absolutamente português, "adeqúem" parece língua eslava); depois, pelo som, pois a contracção inicial seguida de um acento tónico numa vogal que em Portugal Continental nunca soou bem deixa a impressão de que fizemos um truque qualquer com a boca; e, por fim, pelo próprio sentido, pois a acção associada ao verbo "adequar"   -  uma espécie de improvisação organizada - remete para culturas estrangeiras e nunca para os actos parecidos realizados em território nacional (incluindo as regiões autónomas), que são descritos com rigor pelo verbo "desenrascar". 

01
Dez09

"Divergence of Character"


Eremita

Quando o inventor reapareceu na sala, taciturno como de costume, estranhei - foi do brilhozinho nos olhos. Supus logo que estivesse embriagado, o que seria uma novidade, mas para tal ele teria de ter passado a tarde a beber, pois desde que entrara em sua casa, para jantar, cada um de nós apenas havia despachado uma Super Bock. Então falou: "o Darwin refere-se muito à divergência de características na Origem, sabe? Já leu a Origem? Ninguém leu, mas todos comentam. É o costume. Bem, a divergência de características é uma espécie de acelerador da selecção natural - enfim, esta formulação é algo imprecisa mas faz algum efeito. A uma variedade interessa-lhe distinguir-se das outras variedades e isto dá um ramalhete de variedades, em que cada uma parece estar à distância máxima de todas as outras. Repare que a divergência de características não deve ser confundida com divergência de carácter. O carácter não evolui como a característica. Fechados numa mesma sala ou simplesmente forçados a um convívio próximo, pessoas de carácter distinto tenderão a ficar cada vez mais parecidas. Permita-me o atrevimento de chamar a este efeito "convergência de carácter". "This" bla bla, "I call", ah ah... Era uma paráfrase... Bem, percebe onde quero chegar? Percebe? Hã? Enquanto a divergência de características se amplia ao propagar-se no sentido ascendente da organização taxionómica, entre espécies, entre géneros, entre ordens, a  convergência de carácter afunila quando subimos nas hierarquias profissionais. As espécies do mesmo género são uma colecção em que as características são menos divergentes do que numa colecção de  géneros da mesma ordem, certo? Trivial.  Mas se você encontrar um crápula entre operários, a probabilidade de se cruzar com outro operário crápula é inferior à probabilidade de repetir um encontro com um patrão crápula. O que me diz a isto? Hã? Imagine o impacto para a Luta de Classes se o Darwin tivesse trabalhado a convergência de carácter como trabalhou a divergência de características... Se calhar ainda havia Muro de Berlim. E Ourique era CDU. Bem,  vamos comer antes que arrefeça".

 

A teoria do inventor pareceu-me um absurdo, mas preferi não o criticar. Aliás, confirmaria a seguir a minha impressão, pois o jantar estava intragável - é sabido que o álcool faz perder a mão para o sal. 

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