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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

02
Nov09

50 000


Eremita

 

Ourique tem cerca de 3000 habitantes. Trata-se de um número tão baixo que não há a certeza estatística de existir na vila uma mulher absolutamente sublime. Esse é um dos encantos das grandes urbes - a qualquer momento a mulher sublime pode aparecer (para em regra logo desaparecer, mas aqui discorremos sobre a realidade e não sobre  fantasias). O problema é generalizável a outros domínios. É improvável que exista em Ourique alguém com uma colecção decente de Flamenco, alguém com quem tocar duos para guitarra, alguém com quem trocar de cor cenas do The Big Lebowski, alguém que tivesse visto a Milu da Escola Secundária Eça de Queirós nua e, com o benefício do distanciamento histórico, me pudesse agora contar como ela era (creio que fechei o ciclo). Tudo isto para dizer que o Ouriquense é sobre uma vila com 3000 habitantes e tem já mais de 50 000 mil visitas. Melhor do que o Ouriquense, só o Pedro Mexia, que faz blogues sobre o Pedro Mexia e, tanto quanto julgo saber, não só Pedro Mexia é localidade para apenas um habitante, como em uma semana um blog do crítico é mais visitado que o Ouriquense num ano inteiro. Não me importa perder para o Pedro Mexia. Por outro lado, com este rácio que acabei de instituir esmago todos os blogues políticos, que são sobre 10 mlhões de almas e dificilmente chegarão a tal número de visitas - a contabilidade criativa também é isto. Há incoerência quando um eremita celebra a afluência ao seu ermo? Há, mas as pessoas são complexas. Esta noite comemorarei mesmo e com uma extravagância: um banho de imersão em gaspacho - não vai sair barato, mas é da forma que passarei muitas vezes ao longo da tarde diante de Tatiana.

 

 

02
Nov09

Cachapa e as virtudes dos subsídios estatais


Eremita

Sem pretender chocar os escravos do cânone ocidental, declaro ler prosa de escritores portugueses contemporâneos que não vivem no Conde Redondo nem em Lanzarote. É raro acabar um livro, mas trata-se de um problema que também tenho com o cânone. Talvez por isso, ter concluído o A Materna Doçura, do Cachapa, é significativo. Com a autoridade conferida pela minha muito incompleta e apressada amostragem da nova prosa lusitana, declaro que o A Materna Doçura é o melhor livro português dos últimos anos, uma síntese feliz da racionalidade destituída de vida de Gonçalo M. Tavares (dele só li alguns textos curtos) com o sentimentalismo acéfalo de Inês Pedrosa (dela só li o título de Fazes-me falta e algumas crónicas). A ideia que percorre o Materna doçura é tão boa, mas tão boa, que é uma pena ninguém ter aconselhado o seu autor a orientar a carreira para revisões sucessivas desta sua obra (há algumas arestas a limar). Talvez assim se tivesse evitado um livro com um título estranhíssimo (Segura-te ao  meu peito em chamas) e outro  (Rio da Glória) que dizem ser uma crítica a uma certa escritora light fornecida num pacote que inclui uma viagem ao Brasil. É trágico mas bate certo. Creio que o A Materna Doçura foi escrito quando Cachapa era bolseiro. Anos depois de a bolsa acabar, Rio da Glória parece ser vítima de um raciocínio economicista primário: piscar os olhos ao maior mercado lusófono e parasitar o estilo que mais vende. Naturalmente, só podia sair merda. 

02
Nov09

A canção de Chibanga


Eremita

 Ou os bongos de Richard Feynman

 

 

Antes de me deitar, toquei a secção A três vezes de seguida. A existir potencial pop, esperaria acordar com a canção Tatiana na cabeça. Foi o que aconteceu, pois lembro-me distintamente de ter trauteado o Estas não são super-mulheres/ Mas mulheres de supermercado. Estou mesmo satisfeito com o dia de ontem. Como terminar Tatiana é agora do foro da burocracia, resolvi avançar de imediato para a terceira canção, sobre Ricardo Chibanga. O álbum Ouriquense será sobretudo um conjunto de canções centradas nas personagens de Ourique, mas tentarei complicar ao máximo uma eventual adaptação para musical. O sonho é fazer de Ouriquense o primeiro álbum alentejano de conceito e, se possível, um projecto agregador, que cative Janita Salomé,  Paco Bandeira, o Grupo Coral de Ourique e algum virtuoso da viola campaniça. 

 

Se a questão principal a resolver em Tatiana era a letra, em Chibanga a dificuldade está no arranjo e na melodia. A intenção? Fazer uma letra nada alusiva ao africanismo de Chibanga, mas recriar África na batida e no dedilhado. Como nunca toquei assim, estou no sopé da curva de aprendizagem. Ciente dos perigos da caricatura, a malha para Chibanga não será apresentada antes do Verão de 2010. Até lá, ouvirei os grandes mestres da guitarra e do songwriting de matriz africana. Em todo o caso, já há algum progresso; a canção de Chibanga terá por título A canção de Chibanga.

 

 

01
Nov09

Notas para Tatiana


Eremita

A manhã está a ser fértil em versos avulsos para Tatiana. Tomei algumas notas de guitarra sobre a perna, numa lógica de preenchimento futuro dos espaços em branco, que se aproxima muito da minha anterior forma de viver. Entretanto corrigi alguns plurais, para evitar uma rima e diminuir as chiantes suaves, um som que é inimigo das melodias. Sinto que esta canção entrou finalmente numa dinâmica de vitória. Foram precisos meses, mas o binómio talento-suor não capta o que aqui se passou. O que houve foi paciência. Aprendi uma lição. 

 

TATIANA

 

Aqui a mulher

Nunca é a dias

Dura anos

Enchendo os sacos de planos

Que mata ao serão

E voltará 

Pela manhã

Vão-se os filhos

Vai-se o homem

Sobra a manhã

Estas não são super-mulheres

Mas mulheres

De supermercado

 

Aqui neste lugar

...

...

 

Com o pé direito

Quero entrar

...

...

....

....

 

B: 

 

Só que não falhas

Os meus artigos sobre a esteira

Como os definidos

Não é maneira de falar

É o teu modo de expressão

 

 

C:

 

Ai, Tatiana

Eu só quero atenção

Não me toques na mão

Se não passas cartão

Nem pedes perdão

Ao dar o troco em moedas

 

+C

 

+A

 

A:

 

Ourique vai

Ourique vem

...

...

...

...

Só que a vila

Não se tem

 

B+B

 

C+C

 

 

 

Pág. 6/6

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