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OURIQ

Um diário trasladado

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02
Out09

O inventor


Eremita

 

Tenho vindo a jantar às quintas em casa do inventor. Ele recebe-me engravatado, mas não espera que eu retribua a cerimónia. "Sabe", dirá ele antes de qualquer uma destas noites acabar, "a rotina de dar o nó na gravata é uma sublimação do suicídio por enforcamento". Ontem revelou-se falador e cáustico. Surpreendeu-me até no modo como se atirou aos artistas que mostram interesse pela ciência. "São uns palermas ou então uns carreiristas. Os primeiros ficam pelo que é acessório e os segundos apenas procuram um nicho de mercado, a identidade de um movimento. É deprimente". Para o inventor só parece haver uma zona de interface entre a arte e a ciência merecedora de atenção. "O intercâmbio entre arte é ciência serviu essencialmente os medíocres e só produziu banalidades. Ambas as áreas são processos criativos com processos de aferição dessa criatividade  diferentes e só o Popper se lembraria de fazer uma conferência com estas trivialidades. Os artistas servirão apenas para que percebamos o papel da estética na ciência. Até que ponto o valor estético de uma teoria é indicativo da probabilidade de essa teoria estar correcta e pode ser usado como princípio orientador, à semelhança do princípio da parcimónia? Não me refiro ao valor estético da teoria como critério para prever a sua popularidade, mas sim a sua longevidade, isto é, a sua adequação aos factos. Enfim, vendo bem, nem sequer para isto precisamos de artistas. Os filósofos são mais capazes e gastam muito menos dinheiro. Mas eu sou inventor. E livre-se de algum dia entender a minha busca da máquina do movimento perpétuo como uma empreitada artística. Pretendo mesmo imortalizar-me no movimento de um pêndulo e inventar uma máquina tão perfeita que se alguém, daqui a 200 anos, interromper o seu movimento iniciado por mim, o momento será sentido por todos como a minha segunda morte ".

01
Out09

Apologia do telegrama


Eremita

A humanidade é bastante imperfeita, mas as mulheres são menos imperfeitas do que os homens. Os homens tendem a adiar o confronto. As mulheres tendem a recorrer ao telefone para divulgar as más notícias. Este arranque, que parece saído da Cosmopolitan, na verdade assenta numa experiência de vida. Viva Ourique e o telegrama. Em síntese, era isto. Mas deixo ainda uma nota final de ordem prática. É aconselhável ter sempre o telemóvel com pouca bateria. As conversas longas são invariavelmente conversas que não desejamos ter e interrompê-las por razões de ordem técnica é um luxo. Quem está a ficar desesperado, ou a perder a paciência, ou profundamente triste, ou surpreendido pela sua apatia, ou prestes a explodir, pode esconder o que sente e salvar-se, anunciando: "olha, vou ficar sem bateria". Depois o telefone morre, como que a reforçar uma ordem natural das coisas. Trata-se de um acidente forjado, claro, mas na altura não se dá por isso e daí virá algum conforto. 

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