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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

25
Out09

A espoleta e a cavilha


Eremita

Ou a oral de Santos Silva 

 

Será que o futuro ministro da defesa sabe usar o verbo espoletar? Anda por aí muito intelectual que não sabe. São efeitos secundários e mal estudados da objecção de consciência, da deserção, da reserva territorial e do tempo de paz. 

25
Out09

Moby-Dick


Eremita

 

Há o in the mood for love e o in the mood for Moby-Dick. O segundo tem sobre o primeiro a vantagem de se traduzir na conquista de um clássico da literatura. Mas são modos - e moods - incompatíveis. 

25
Out09

Deformação profissional


Eremita

Sete Sombras, anunciado como um diário das amizades, está a transformar-se numa recolha bibliográfica sobre a amizade. Imaginem que tinha dado ao Bukowski de Women para rever os tipos literários femininos em vez de escrever sobre as mulheres com quem dormiu. Mas é claro que tal nunca lhe teria ocorrido. Bukowski trabalhava nos correios e esteve sempre a salvo da deformação profissional dos académicos. 

24
Out09

A minha avó


Eremita

 

Regressei ontem à casa dos avós. Ludibriei a guarda, confiei no corrimão verde, saltei a cancela. Percorri o chão de tijoleira sob o alpendre sem hesitar, mas estaquei diante da porta. Foi a um fim de tarde, tinha o poente pelas costas. A luz era a mais reconfortante de todas, uma luz quente que nunca aparece nas cenas de terror. Mas nem assim fui capaz de entrar. Não tive medo que lá dentro o soalho cedesse, nem dos bichos que entretanto se terão instalado, nem de um improvável vagabundo, nem de confrontar as memórias com o lugar. Tive medo de encontrar a minha avó e de ela querer cobrar-me pela vez em que, por acidente, a derrubei. Foi a única interacção que tive com ela, pois sempre a conheci doente.

 

 

24
Out09

Aproximação à imortalidade


Eremita

A que sabe a imortalidade? Ninguém sabe. Mas na próxima madrugada os ponteiros do relógio recuam uma hora. Para quem não precisa de mais tempo para nada, esta hora ganha é uma aproximação à imortalidade. Farei por estar acordado.

22
Out09

O calor


Eremita

Ou a temperatura do corpo das grávidas é mais alta que a temperatura do corpo das outras pessoas, ou Tatiana demorou a sua mão na minha mais do que é costume. O certo é que senti pela primeira vez o calor do seu corpo. Já havia com ela trocado olhares, que são ondas electromagnéticas, e trocado palavras, que são ondas acústicas, bem como sentido o toque de sua mão, que é uma força mecânica, mas mais íntimo que a passagem de calor só mesmo a troca de fluídos e tal nunca sucederá. Apeteceu-me levar a mão ao bolso, para proteger aquele calor com o afinco do responsável pela chama de uma tribo incapaz de fazer o fogo. Só que o calor de Tatiana foi rapidamente perdido, diluindo-se no meu próprio calor e levado pelo ar. Como acreditar em quem  diz que o calor não tem essência, se o dela, no capricho e na evasão, se comportou como uma extensão do seu corpo e mente?

21
Out09

A justa medida


Eremita

Continuo a pensar em Igor e cheguei à conclusão de que é impossível propor-lhe uma morte justa. Para tal seria preciso eliminar a vantagem que o assassino tem pelo simples facto de se imaginar como tal antes de a vítima se dar conta do que está a acontecer. Uma solução aproximada seria compensar Igor por esta vantagem. Poderia propor-lhe um duelo baseado na força física, já que o homem pesa pelo menos mais 30 kg do que eu, é largo como um albatroz e tem no braço um perímetro que só alcanço na coxa e já muito perto da virilha. Poderia anunciar que o vou matar e ficar depois duas semanas sem tomar a iniciativa. Há inúmeras soluções, mas que só funcionariam se soubesse encontrar a justa medida. Ora, por cobardia ou calculismo, o mais provável seria conceber uma solução que apenas ritualizasse a tentativa de equilibrar o combate, mas cujo único efeito prático fosse aliviar-me a consciência uma vez consumado o crime. Ou então, em desespero de causa e vergado por este pecado em pensamento, faria de Igor o executor do meu suicídio. A justa medida é impossível, mas evitarei balear o ucraniano pelas costas. 

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