Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

04
Abr09

Primeiro diálogo erótico em Ourique


Eremita

Screen Shot 2019-05-04 at 10.15.54.png

(pub) A brief history of romance comics

Há uns dias, o jantar em casa do inventor trouxe uma surpresa: uma das cosmopolitas de Ourique. Esta coincidência não é de espantar numa terra com tão poucos habitantes, mas deixou-me atrapalhado, inclusive antes de ela me ter tocado com o pé descalço, debaixo da mesa, pormenor que me lembrou uma cena de uma pornochanchada reprimida em que Arielle Dombasle, neste caso sobre a mesa mas também com a consequência de ter  excitado um dos convivas, grava o relevo do seu mamilo desperto num pacotinho de manteiga. Na verdade, a associação é pouco rigorosa, porque feita antes de ter respondido à questão que de imediato surgiu: havia ali intenção ou casualidade? Tratou-se de uma daquelas situações em que o Lucílio Baptista que existe dentro de nós mais prontamente se manifesta. O jantar decorreu sem mais incidentes, mas depois o inventor ausentou-se e eu fiquei a sós com ela.

 

- Não pode gostar de viver em Ourique.

- Gosto muito. Encontro aqui tudo aquilo de que necessito.

- Mas isso é sobreviver. Não tem falta do supérfulo?

- Tenho pena de estar longe do mar.

- E de Lisboa?

- Lisboa é um esterco.

- Sim, as ruas estão muito sujas.

- Não me referia à limpeza. Sufoco com a atmosfera de Lisboa.

- Mas há vida cultural, não acha?

- Não há tranquilidade. Os lisboetas estão sempre a comparar-se com as outras capitais. Não conheço outro lugar assim.

- Os estrangeiros gostam de Lisboa.

- Também não conheço outro lugar em que se dê tanta importância ao que os estrangeiros pensam.

- Ainda pensei que me fosse falar da decadência da cidade. Dos prédios devolutos, da prostituição nas ruas, da pobreza...

- Disso gostava.

- Por amor de Deus. Também acha que já só os pobres têm nobreza?

- Não. Mas gostava de ver os transexuais do Conde Redondo.

- Credo...

- São figuras fascinantes, não acha?

- Está a provocar-me.

- Não, digo-lhe o que penso. São casos únicos.

- Como assim?

- Por me atraírem muito quando estão longe e me assustarem tanto quando estão perto.

- Acha isso raro?

- Muito.

- Ora. Sinto que também eu o atraio à distância e o assusto agora.

- Engano seu. São só mesmo os transexuais e o Cristo-Rei.

-  ... Fale-me mais dos meus enganos.

04
Abr09

Medos


Eremita

O melhor princípio de romance que conheço é o de Para Sempre, de Vergílio Ferreira. Aquele "Para sempre. Aqui estou" funciona como uma célula rítmica que marca o compasso em todo o primeiro curto capítulo, em que Paulinho franqueia o portão do quintal e tem um encontro com a falecida tia Luísa. Se não tivesse lido este texto, já teria tido coragem de insistir com a Guarda Nacional Republicana para me deixarem entrar na casa em ruínas dos meus avós. Tenho medo que apareça por lá a tia Luísa. Não uma tia minha, nem os avós, nem o cão, nem sequer o porco que vi ser morto ou I., que se suicidou, mas a tia Luísa do Paulinho de Vergílio Ferreira. 

04
Abr09

Pulsões


Eremita

Diz-se que as mulheres, assim genericamente, sentem-se atraídas pelo poder por interposta pessoa, ou seja, sentem-se atraídas por homens poderosos. Diz-se também que se pode conquistar uma mulher apelando ao seu instinto maternal. Estas duas pulsões têm, em regra, objectos diferentes, isto é, um homem poderoso não apela ao instinto maternal e um homem que desperte tal instinto está afastado do poder. Certas circunstâncias podem fazer com que no mesmo homem coincidam as duas pulsões; por outras palavras, uma mulher pode desejar um homem por causa do seu poder e uma outra mulher pode desejar o mesmo homem por este lhe despertar o instinto maternal. A situação em que as duas pulsões emanam da mesma mulher e convergem no mesmo homem é mais rara, mas invencível. 

 

Igor foi despedido e por isso ontem armou desacatos. O álcool foi um mero catalisador. É sabido que as noites de sexta, na Escandinávia como no Alentejo, são sondas que perscrutam a alma de um povo.  Só Tatiana conseguiu domá-lo e a sua intervenção salvou a besta embriagada de um serão com a GNR. Findo o incidente, a imagem do corpanzil quebrado de Igor afastando-se de nós até dobrar a esquina fez-me perceber que esta mulher nunca será minha. Tatiana acompanhava-o e tinha o seu braço nas suas costas, mas a envergadura daquele homem é tal que o braço da minha ucraniana não o abarcava e ficava a meio caminho, com a palma da mão aberta sobre a coluna vertebral dele. Ela ensaiva a forma de caminhar dos namorados, mas o efeito resultante era o de alguém que ajudava uma velhinha a atravessar uma rua ou subir umas escadas. Aquela palma da mão aberta parecia aliviar a dor de um homem vergado - sobretudo metaforicamente, o que é ainda mais terrível. O poder físico de Igor pode ter atraído esta mulher, mas é a sua fraqueza moral que reforça a relação deles. Não se pode lutar contra isto com total honestidade. Tatiana precisa de ser salva. 

Pesquisar

Comentários recentes

  • Anónimo

    Se o deputados da Assembleia da República não serv...

  • Anónimo

    Hum, agora que perguntas devo dizer-te, humildemen...

  • Eremita

    Então e tu? Em que posição estás no ranking do int...

  • Anónimo

    2/2NÃO SE MORDE A MÃO DE QUEM PAGAMesmo as univers...

  • Anónimo

    Vasco: não queria ser eu a dizer-te, mas no rankin...

Links

WEEKLY DIGESTS

BLOGS

REVISTAS LITERÁRIAS [port]

REVISTAS LITERÁRIAS [estrangeiras]

GUITARRA

CULTURA

SERVIÇOS OURIQ

SÉRIES 2019-

IMPRENSA ALENTEJANA

JUDIARIA

Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D