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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

31
Mar09

Veneno para caracóis


Eremita

Maria 2009-2009

 

O mano passou por cá com uma resma de livros e uma má notícia: a Maria morreu. Parece que é época de tratar as plantas com veneno para caracóis e o bicho terá consumido uma dose letal. Dizer o quê? Faltam adjectivos para cães e eu passei pouco tempo com ela. Morreu inclusive com outro nome; chamava-se agora Ronda.

 

Dizer talvez isto: a morte da Maria foi a primeira que experimentei aqui, mas ainda não foi desta que uma morte me fez sofrer mais de forma directa do que pelo sofrimento que também causou a pessoas que me são queridas. Nunca tive uma morte só minha, ou mais minha do que de qualquer outra pessoa. Com a morte dos meus avós sofri mais pelo sofrimento dos meus pais, com a morte de pais de amigos meus sofri mais por causa dos amigos, com o suicídio de uma colega sofri mais pelo sofrimento que imaginei existir na família dela. Tem sido sempre assim. Por vezes penso que tive sorte, outras vezes que tenho um problema. Ou tinha. Em Ourique não faz sentido sofrer com nenhuma morte, excepto se Tatiana morrer ou se a morte de Igor não for rápida e indolor.

31
Mar09

Celebração da Primavera


Eremita

[imagem autocensurada de uma mulata sublime]

 

Tatiana não merece isto. É preciso resistir, por todos os meios,  aos pólens que as flores libertam e aos perfumes que pairam no ar, aos umbigos descobertos e à ilusória promessa de uma noite eterna quando começamos a sair do emprego antes do pôr do Sol (não me esqueci). O amor por Tatiana pode não ser ainda correspondido, mas nem por isso deve deixar de ser disciplinado e puro. Que raio, não estamos na América Central e o clima do Alentejo, apesar de tudo, é temperado. Mas seria bom que as ervas aromáticas se manifestassem e me orientassem os sentidos para a gastronomia.

 

 

30
Mar09

Modo de vida


Eremita

Falar de ruptura "ruptura relacional" pode ser um vício de linguagem. Em muitos casos, a ruptura relacional é apenas a reposição do default mode.  (Mexiana)

27
Mar09

Semântica imatura II


Eremita

Com o Bugio pela frente, P. fala-me do Niger e de como é deprimente uma pessoa estar "landlocked". É uma palavra belíssima, no som e no sentido, que nunca tinha ouvido pronunciada e que não pode ser plenamente substituída por uma palavra nossa. A propósito, "saudade" é uma palavra sobrevalorizada. Deveríamos antes frisar a ausência na nossa língua de uma palavra que traduza a sensação e a situação de se estar rodeado de terra por todos os lados. Porque o que temos aqui o simétrico da abundância de  palavras para "neve" que os esquimós inventaram. Infelizmente, os traços culturais não se definem pelas ausências, tal como os resultados negativos em ciência são relegados para as revistas que ninguém lê. Há nesta tendência para nos definirmos pelo que existe ou é positivo um viés, aliás, um vício, uma espécie de consumismo aplicado aos conceitos.  "Landlocked". Ninguém se sente "landlocked" no Alentejo. Mesmo antes de tocar no horizonte, o ondulado discreto da planície transforma-se em mar e somos salvos in extremis. Por isso o Alentejo é uma terra de navegadores, E se é verdade que  Colombo não nasceu em Cuba, deixem que vos diga que, afinal, também os esquimós têm assim tantas palavras para neve

25
Mar09

Semântica imatura


Eremita

Sou pela etimologia, mas a etimologia de cariz autobiográfico presta-se a muitos equívocos. Explico-me: devemos conhecer a origem das palavras mas não devemos fixar como e quando as palavras tiveram origem em nós. Explico-me melhor: o meu primeiro contacto com a palavra "étouffer" aconteceu quando lia uma partitura para guitarra; a peça pedia que se abafasse as cordas. Não recordo o tema (Fernando Sor?), mas tenho uma imagem precisa de como "Étouffer" aparecia escrito na partitura, porque considero o sistema de notação* musical particularmente belo e porque aquela indicação, caprichosa e intrometida entre os habituais termos italianos, me seduziu. Só por isso, quando P. usa o termo "étouffant" para descrever a natureza de uma determinada relação, o que me ocorre não é a claustrofobia conjugal, é mesmo aquela imagem de uma porção de página. Seria impossível comunicar se a cada palavra associasse memórias tão vivas como as que tenho com: "tirebouchoné", "usucapião", "adamant" e "étouffer".

 

*: Tem toda a razão, foi um lapso.

25
Mar09

Lost and Found


Eremita

A chegada a Ourique do número 105 da Granta é mais um marco no meu tirocínio para ouriquense de pleno direito.  Lost and Found, o título do volume, parece profético. 6 anos nunca me fizeram capaz de dizer "I am a New Yorker", mas menos de um ano aqui bastou para hoje aceitar envergar uma T-shirt sobre Ourique na melhor tradição do mau gosto dos anos oitenta.

 

 

Daqui

24
Mar09

Polémica no Cineclube


Eremita

 

No Sábado passado noite assistimos a Man on Wire, um documentário sobre o funâmbulo que caminhou entre as duas torres gémeas, a centenas de metros do chão. Philippe Petit, o funâmbulo, fala sobre si próprio com um entusiasmo tal que as suas proezas são menos uma demonstração de coragem do que uma prova de egocentrismo. É essa a grande pecha do filme. Preferíamos ter visto um poeta, um louco ou um sonhador. 

 

No fim do documentário discutiu-se a possibilidade de piratearmos o filme Che, que acaba de estrear em Lisboa. Pela primeira vez, ouviram-se insultos na sala. Não há "lei Barreto" que suture a ferida profunda da reforma agrária. Mas tinha razão a ala reaccionária, representada por duas raparigas ouriquenses muito bem apessoadas, que só aparecem por aqui aos fins-de-semana e transportam a aura irresistível da aristocracia decadente, o que transforma a tensão erótica que por elas sinto numa dupla traição - à minha paixão por Tatiana e à sua condição operária. Diziam estas jovens mulheres que Che foi um assassino, responsável por fuzilamentos sumários. É verdade. Aliás, Che continua a assassinar pessoas, de que é exemplo o  recente  fuzilamento de Benecio del Toro. O meu argumento, que colheu algum apoio, foi o de que é importante avaliar o grau de hagiografia do filme de Soderbergh em primeira mão. Ainda assim, uma das belas ouriquenses cosmopolitas lançou-me um esgar à Isabel Moreira e rematou entre dentes (disseram-me depois): "ainda bem que seu avô não o pode ouvir..."  Pelos vistos sabe quem sou, embora eu não reconheça estas mulheres no meu passado. Esta curiosidade  deixa-me levemente deprimido. E a subtil excitação ainda mais. Queria-me imune a qualquer outra mulher que não a Tatiana e estas duas têm um evidente potencial caprino. Concluo que já devia ter tombado Tatiana numa seara.

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