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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

30
Dez08

4


Eremita

DO PRECÁRIO RESPEITO ENTRE OS HOMENS: Há entre brancos e pretos um discreto conflito israelo-palestiniano, isto é, um problema com excesso de História, essencialmente insolúvel e que apenas se pode gerir numa lógica de perpétua contenção de danos. Vem isto a propósito de um pequeno episódio que resultou de momentaneamente me ter esquecido que havia deixado o bilhete do autocarro dentro da carteira e ter pensado que a falha não era minha. Na altercação com o condutor, o homem exaltou-se (o palestiniano), Mónica exaltou-se (o israelita) e eu mantive a minha inconsequente calma (a ONU). A coisa resolveu-se quando me lembrei onde estava o bilhete. Mónica compôs depois a teoria de que nas antigas colónias britânicas da África negra os nativos são mais altivos e arrogantes, enquanto nas colónias francófonas os locais são dóceis e ainda subservientes. Não faço ideia, mas parece-me uma conclusão demasiado enxuta para ser verdadeira. Subi para a camioneta a pensar no enigmático sorriso de Louis Armstrong...

 

 

 

 


30
Dez08

3


Eremita

OFFICIAL PROSTITUTE I AND II Apanhamos a carreira para Elmina, localidade também costeira, que fica a umas 2-3 horas da capital. Um terço da viagem é gasto no trânsito de Acra, mas a camioneta tem algum conforto e ar condicionado, luxo que não existia na frota da Rodoviária Nacional da minha meninice. Mais: temos televisão, que passa a produção nacional, uma telenovela intitulada Official Prostitute I and II. Fico sem perceber se assistimos à parte I ou à sequela, mas quase me apetece reabilitar a telenovela mexicana. Official Prostitute (I or II) é aquele tipo de produto que aflora a excelência pelo lado errado da distribuição (os extremos tocam-se, como sabem). Que triste desempenho, o meu: no primeiro dia na África subsaariana, sigo de olhos pregados no monitor, alheio à paisagem. Mas não se pense que o autocarro avança ladeado por impalas aos pinotes, a fazerem de golfinhos da savana. Não há savana, o clima é tropical. Recordarei apenas umas palmeiras, um outdoor em que aparecem futebolistas famosos e o Nuno Gomes, pouco cultivo, a peruca loira e as ridículas poses de sedução da official prostitute. Apanhamos a carreira para Elmina, localidade também costeira, que fica a umas 2-3 horas da capital. Um terço da viagem é gasto no trânsito de Acra, mas a camioneta tem algum conforto e ar condicionado, luxo que não existia na frota da Rodoviária Nacional dos idos de 80. Mais: há televisão, que passa a produção nacional, uma telenovela intitulada Official Prostitute I and II. Fico sem perceber se assistimos à parte I ou à sequela, mas quase me apetece reabilitar a telenovela mexicana. Mas que triste desempenho, o meu: no primeiro dia na África subsaariana, sigo de olhos pregados no monitor, alheio à paisagem. Não se pense que o autocarro avança ladeado por impalas aos pinotes, a fazerem de golfinhos da savana. Não há savana, o clima é tropical. Recordarei apenas umas palmeiras, um outdoor em que aparecem futebolistas famosos e o Nuno Gomes, pouco cultivo, a peruca loira e as ridículas poses de sedução da official prostitute. Mónica dormiu ou então enviará mensagens pelo telemóvel, ora para um, ora para outro dos pretendentes - e talvez até para ambos, recorrendo à opção "enviar a vários". Sim, começo a viciar-me neste registo de omniscência que vem com a escrita pós-datada e espero conseguir perder o hábito trocar os tempos verbais quando voltar a escrever sobre a rotina em Ourique.

30
Dez08

2


Eremita

PRESIDENTE MILLS? Houve eleições presidenciais na véspera (um run off). O Professor Mills tem vantagem sobre Nana Akufo-Addo, mas numa região qualquer só se votará a 2 de Janeiro, por causa de problemas logísticos. Estou com Mills. É uma espécie de Lula da Silva, concorre pela terceira vez (apesar de ter já a vice-presidência) e - isto é para chocar Pacheco Pereira - uma cara mais credível do que Akufo-Addo, com uma separação de incisivos que o aproxima do povo e dificilmente fará dele o belo cleptocrata que é José Eduardo dos Santos (descobriu-se recentemente petróleo no Gana). O resultado só será oficializado no próximo Sábado. Mónica, a catastrofista, temeu pelo pior quando viu as primeiras manifestações de ontem. Ainda bem que já não estará por aqui no Sábado, quando a festa explodir de verdade. Eu estive e prevejo que não haverá nem mortos nem feridos. 

30
Dez08

1


Eremita

ARTE DO SUBORNO: Aterro em Acra e preparo-me para enfrentar a autoridade:

- Where's your VISA?

-I couldn't get one and believe me, I tried hard. Can I get a Visa on Arrival?

-  We normally don't do it - o homem está num guichet que diz "Visa on Arrival". Who's sponsoring your VISA?

- I'm paying for it.

- OK, it's $100.

- Do you accept  euros?

- Yes.

(Entrego-lhe 100 euros)

- I'm going to let you stay for 9 days. Is that ok or do you want it changed ?

- If I want change?

- If you want me to change the date on your passport...

- No need for change... I mean, for a change.

- Welcome to Ghana.

 

 

 

 

 

 

 

29
Dez08

Um Diário do Gana


Eremita

 

 

 TABULA RASA: Marrocos tem vergonha da sua cultura e, como qualquer país em vias de desenvolvimento, adopta o lixo ocidental. De manhã, com o aeroporto a meio gás, ouve-se um belo alaúde e os modos árabes. De tarde,  com o aeroporto à pinha, dão-nos o saxofone de Kenny G., Phil Collins unplugged e uma versão em rumba de Sultans of Swing. De certa forma, este banho de cultura universal é uma sorte, pois quero fazer nesta viagem ao Gana uma experiência: chegar a um país sem qualquer conhecimento prévio. Não li uma linha sobre o Gana, nada sei sobre a sua cultura, os meios de produção, se há um ganês craque de bola, se há guerrilha, quem está no poder... Nem sequer consegui tirar o visto, porque os números de fax não funcionam e a probabilidade que alguém nos responda do Gana a um email deve ser igual à probabilidade de alguém nunca ter recebido um email da Nigéria.

 

Estou doente e sem condições para escrever sobre a mulher marroquina. Sigo febril para o Acra e espero não ter de subornar ninguém para conseguir o visto, o que me colocaria perante uma situação difícil, porque também o meu tracto intestinal não se encontra ainda pacificado e é sabido que sem harmonia fisiológica não há moral.

 


 

 

 

28
Dez08

Igor contra Onório (os playoffs)


Eremita

Será que Jesse Owens, com as técnicas de treino modernas, as dietas e as drogas teria sido um atleta superior a Carl Lewis?  Se Maradona tivesse nascido no mesmo ano que Pelé, qual teria sido mais castigado por Morais em 1966? E como ficaria Obama diante do Padre António Vieira? David e Golias? Não restam dúvidas, mas como prever um  David e Godzilla? Também cedo a estas fantasias e tem sido recorrente imaginar Igor e Onório na taberna do Mira. A 4 de Agosto de 1977, por exemplo. Lembro-me que estava calor.

 

(cont)

26
Dez08

De momento levo vantagem


Eremita

Graças à ajuda da Sapo, o Ouriquense ultrapassou no ranking do Google a Ouriquense, Lda, escola de condução, o Estrela Futebol Clube Ouriquense (do concelho do Cartaxo), o portal de saúde Ouriquense, a residencial Ouriquense e a agência funerária Ouriquense. Desconfio que, cedo ou tarde, a agência funerária vai corrigir esta afronta e pôr uma pedra sobre o assunto.

25
Dez08

El Noi de la Mare


Eremita

Há uns vinte e tal anos, passou na RTP 2 um programa sobre um festival de guitarra no Canadá. Apareceu Leo Brower, John Williams e praticamente todos os grandes guitarristas da época. O tema que mais me marcou e que não deixei de assobiar desde então foi tocado por Ishiro Suzuki e cantado pela sublime Victora de los Angeles. Trata-se de uma canção de Natal catalã, que na minha concepção de música vocal é a língua perfeita para um português, porque soa vagamente familiar mas nunca ao ponto de se perceber o texto, o que nos distrairia do essencial. A imagem é muito má, mas lembra a da minha cassete VHS, em que assisti vezes sem conta a este trecho.

 

 

Aqui ficam outras interpretações. Deus:

E os homens...

25
Dez08

...


Eremita

 

O que separa a humanidade da barbárie? De certa forma, o ainda elevado preço das rinoplastias. Sempre que, em Lisboa, Paris ou Nova Iorque, uma rapariga pencuda me fazia um apanhado autobiográfico pontuado pelos instantes em que quase cedeu à tentação de operar o nariz, só não me exaltava porque sabia o fim da história. Mas de onde vem esta tara? De uma mulher pencuda que não chegou a marcar presença nos álbuns de família mas andou comigo ao colo, dando-me beijinhos à esquimó como se me esbofeteasse? Ou será que Camarate e o marcante perfil de Sá-Carneiro deixaram numa criança uma marca indelével que ninguém poderia antecipar? Em todo o caso, não é coisa para se associar a nenhuma mulher em concreto, o que é libertador. Nunca farão de mim o tipo que arregimenta pencudas como outros coleccionam loirinhas parecidas com a primeira namorada que lhes deu com os pés. No fundo, antes de ser um corno sou um esteta.

 

Os grandes narizes têm em regra uma ligação ao Mediterrâneo. Por isso dou comigo a folhear as páginas da história da Ucrânia, na esperança de que dar a Tatiana algum sangue judaico talvez não seja inverosímil. Preciso de salvar Tatiana da condição eslava e de um nariz perfeito. Não tem sido fácil. Cheguei inclusivamente a imaginar uma cena de violência doméstica, em que seria Igor a partir a cana do nariz de Tatiana, dando-lhe traços absolutamente irresistíveis; esta seria uma circunstância de considerável potencial literário, mas que retardaria a morte de Igor, algo que nem a quadra festiva me leva a considerar - nisto de indultos, sou como Cavaco Silva, avaro q.b.

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