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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

07
Out08

Cineclube


Eremita

 

Juntámo-nos com indisfarçável entusiasmo para ver o último dos Coen. Havia bolinhos, doçaria e sandes mistas,  como se a sessão fosse uma quermesse - o que aconteceu pela primeira vez desde que participo nestes eventos. Os minutos de estado de graça que concedemos a um filme são directamente proporcionais ao respeito que os autores nos merecem e inversamente proporcionais à expectativa que o filme gera. Como estes dois efeitos antagónicos tendem a estar associados, o período de estado de graça passa a depender de circunstâncias difíceis de determinar. Durou uma meia hora. Foi depois duro aguentar o disparate. Teria o meu sono sido importante? A verdade é que em regra entro nas salas de espectáculo predisposto para a sesta  e se é certo que as caiadas paredes do armazém estão longe do breu de útero materno da sala da Cornucópia, ontem - como sempre acontecia na Cornucópia - dormi durante alguns minutos. Mas um sono breve nunca me impediu de ajuizar, nem de ficar com  impressões positivas. Os plebiscitos  também vale o que valem, porém falamos de cinéfilos. O que dizer então da reacção da plateia? Alguém se lembrou de arremessar um projéctil contra os créditos finais. O projéctil embateu na parede e demorou a cair - parecia ter a consistência e o aspecto de uma graúda caganita de ovelha.  A plateia animou-se então de um gozo juvenil, alguns vieram até à mesa dos petiscos e logo houve uma saraivada que não poupou sequer o nome do electricista. Fiquei meio atónito e só no fim percebi que não eram caganitas de ovelha, eram brigadeiros. Dos bons.

06
Out08

Sazonalidades


Eremita

As noções de sazonalidade positiva e sazonalidade negativa podem ajudar-nos a poupar tempo e paciência. Exemplos: Outubro é aquele mês em que não devemos ouvir a opinião de Lobo Antunes sobre o Nobel (sazonalidade negativa) e devemos ler Alexandre Andrade sobre a efeméride da véspera (sazonalidade positiva).

 

5 DE OUTUBRO: Desde o princípio que o 5 de Outubro é uma das datas de referência do 1bsk, juntamente com o 14 de Julho, o Bloomsday (16 de Junho), o aniversário do Doutor Sousa Martins (uma efeméride de tão graúda importância que nem me recordo em que data calha), e o próprio dia da fundação do Blog e das comunidades kleistianas no estrangeiro (1 de Março, curiosamente coincidente com o aniversário de Jacques Rivette).

Estamos a 2 anos do centenário da implantação da República, e nota-se já por aí o engrossar do caudal de comentários anti-republicanos, quase sempre protagonizado por revisionistas de poltrona. Perante as falsidades, as distorções e as meias-verdades, perante a desfaçatez daqueles que acusam a 1ª República de todos as maleitas de que padeceu Portugal no século XX, a atitude mais sensata consiste em recordar duas ou três coisas muito elementares. A implantação da República foi o culminar de um processo que libertou o povo português de uma dinastia reinante ineficaz, conivente com um clero retrógrado e ultramontano, e condescendente para com veleidades ditatoriais como as de João Franco. A República trouxe benefícios imediatos e modernizadores para Portugal, como a regulamentação do divórcio e dos registos civis de nascimento, a laicização do ensino e a separação da Igreja e do Estado. Independentemente da instabilidade que a caracterizou, a 1ª República lançou as bases ideológicas que, após o 25 de Abril, vieram a facilitar uma transição relativamente rápida em direcção a um regime estável, democrático e progressista. Nos dias de hoje, 98 anos depois da revolução, Portugal faz parte da vasta maioria de nações cujo chefe máximo é eleito pelo seu povo ou por representantes seus, e em vez de ser o descendente de um longínquo antepassado cujo principal mérito foi o de ter sido mais forte na espadeirada ou em conspirações palacianas.

As razões para celebrar esta data são abundantes. Para o constatar, basta ler os livros de História com objectividade e honestidade, e sem segundas ou terceiras intenções, mais ou menos transparentes, a espreitar pela algibeira.

(Ou então, ler qualquer entrevista ao Sr. Duarte de Bragança, esse estadista visionário, exemplo vivo de quão arriscado é confiar aos azares da hereditariedade o futuro de um país.)


06
Out08

Física elementar


Eremita

 "O PSD está em reflexão. É mesmo a única entidade reflexiva que reflecte melhor no alarido litigante e na confusão dispersiva do que no sossego de pedra de Rodin. O seu método não é o do diálogo prévio, num esforço centrípeto para atenuar as divergências, mas sim o de as sujeitar ao efeito centrífugo da gritaria desordenada de todos os que são (e até de todos os que se julgam) caciques de qualquer coisa, por pequenina que seja". Nuno Brederode Santos, em mais uma notável lição de como escrever sobre temas batidíssimos sem precisar de inventar opiniões excêntricas - assim à Rui Ramos - para conseguir efeito. 

06
Out08

Governo sombra


Eremita

 

Em Ourique temos sempre tempo para a rádio. Na sexta ouvi o programa sombra, na TSF. Trata-se de mais um produto daquilo que Pacheco Pereira designa por engraçadismo. Como definir o engraçadismo sem recorrer ao sentido de humor, que é variável e, por isso,  pouco útil a uma definição? Podemos entender o engraçadismo como o registo que legitima a ausência de preparação dos autores. O engraçadista está nos antípodas de Rui Tavares, para quem cada aparição pública é uma espécie de oral perante a nação. Tavares deixa-nos angustiados, porque vemos ali trabalho. Ao invés, o engraçadista é o coleguinha que animava a turma com as suas piadas, um tipo que nos reconforta.

 

A causa próxima para o engraçadismo no programa Governo Sombra é o humor espontâneo de RAP, que força  os seus colegas a produzir piadas, mesmo que não sejam humoristas profissionais. A causa última é o engraçadismo propriamente dito, o movimento que Pacheco Pereira tanto contesta. Curiosamente, o programa serviu para confirmar que o grande intelectual público dos nossos dias, o homem que substituiu Eduardo Prado Coelho, é o nosso Jorge de Burgos, isto é, o José da Marmeleira, Pacheco Pereira himself - que contou com duas referências (uma de RAP e outra de João Miguel Tavares).

 

A profusão de debates dominados pelo engraçadismo faz com que os media portugueses se pareçam hoje aos canais de TV franceses de há dez anos. No que me toca, gosto deste efeito, porque confunde os meus tempos e cria um anacronismo basal que é quase uma forma de intemporalidade. Se isto é bom para Portugal? Perguntem ao Rui Tavares.

05
Out08

...


Eremita

    "Tem dinheiro nisso?"  António Carlos Jobim

 

Não posso precisar, mas em uma cena de Interiors, produto da fase em que o  Woody Allen fazia arte começando pelo telhado, a irmã da aspirante diz: "tem toda a angústia do artista mas nenhum talento". Sinto um pouco o mesmo e nem o exagero do Pasternak epistolográfico me demove, pois o homem parece acusar uma qualquer patologia - mas pode ser primeira impressão. A angústia é relativa. Sobre o talento não é possível escrever sem despertar reacções que nos distrairiam. O problema, muito simplesmente, é esta incapacidade de imaginar a coisa acabada e esforçar-me para lá chegar. O único texto com algum fôlego que consegui escrever foi fruto de uma aposta. Se não existe a possibilidade de um rombo ou ganho material, não me mexo. A minha inspiração passa sempre por criar enredos que me forcem a escrever o texto. Não admira que os comece depois já bastante cansado. A pergunta de António Carlos Jobim só dá algum consolo, porque à época o compositor já tinha uma série de filhos e a sua inspiração começava mesmo com o primeiro acorde. A minha começa antes do princípio e termina antes do fim - salvaguardadas as devidas... etc. 

 

04
Out08

Liquidar de noite


Eremita

 

 

No Ouriquense a justiça é célere. A falta de cuidado da Assírio & Alvim é aqui punida, pois na verdade a editora do volume desta obra de Dennis McShade que ando agora a ler é a própria Assírio e não a Colecção 9 mm. Mas a punição corrige ainda um outro equívoco, que é esta espécie de canonização de Dinis Machado com a publicação dos seus policiais pelas editoras respeitáveis. A verdade é que a Colecção 9 mm dá à prosa de Machado o seu habitat natural. Dinis Machado e Mário Zambujal são os grandes escritores modestos do pós-25 de Abril.  Se os consagrados Lobo Antunes, Agustina e Saramago despertam no aspirante a escritor a pergunta "como consegue ele/a  fazer isto?", a pergunta que surge diante de Zambujal e Machado é: "como não consigo eu fazer isto?" - o que é mais útil.

 

 A morte de Machado apanhou-me a meio do livro, o que induziu uma violenta dívida de leitura, que conto liquidar esta noite.

 

04
Out08

...


Eremita

 

 Correspondência a três

 

 Rilke/Pasternak/Tsvétaieva

 

 Assírio & Alvim

 

Comprei este livro porque me interessa o desprezo de Tsvétaieva pela baixa sensualidade. Mas é com profunda irritação que entro na leitura da correspondência propriamente dita, pois as 33 páginas de introdução têm gralhas suficientes para se questionar a reputação da Assírio & Alvim. 

 

 "...pelo menos para um parte do mundo" (pág. 22)

 "Rilke tinha um rosto branco de rapariga, oval, e o nariz um pouco alongados" (pág. 30)

 "...entre os refugiados, pobre (ela que desde a infância estava habituada  naturalmente  à riqueza), pobre, doente..." (pág 36-37 - aqui com algum benefício da dúvida)

 ""Num belo dia de Primavera, escreve este, que inundava tudo..."" (pág. 37 - quem escreve  "escreve este"? Quem cita ou o citado?)

 "Po isso o leitor..."  (pág. 51)

 

 Não é de excluir que encontrasse mais umas se fizesse uma segunda leitura. 

 

 

03
Out08

...


Eremita

Se tens razão e pretendes acusar alguém na praça pública, é avisado só avançar se fores o primeiro e imperioso fazê-lo se pressentires que serás também o último.

02
Out08

...


Eremita

 S.E.

 

 

 

 

A chegada da primeira gordura ao corpo de um homem magro é recebida como se de um brinquedo se tratasse. Ele agarra no pneu e sente que aquela não é a sua carne. Quando tenta uma percussão na barriga, distrai-se com o silencioso estremecer da fina camada de celulite que antes só associava às coxas das mulheres, mas que tem a mesma inconfundível consistência. A parte interna do cotovelo deixa de ficar tão vulnerável e de ter o que parece ser uma terminação nervosa exposta, pronta a causar-lhe uma aguda impressão quando embate contra uma esquina de alumínio. E no roçar dos joelhos antes nus, é como se passasse a haver sempre uma pessoa entre as suas pernas, mas sem que daí resulte qualquer entusiasmo. O personal trainer calculou que tenho 18% de gordura e julgou que me dava uma boa notícia, mas ter ficado aquém dos 20% só não foi um problema porque duvidei do método de mensuração. 

 

 (cont)

 

 

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Comentários recentes

  • Anónimo

    https://www.scribd.com/document/27843291/A-Invasao...

  • Eremita

    Saí do Twitter, entre outras razões, por me parece...

  • Anónimo

    Eremita: o tipo fez-te uma simples pergunta, pouco...

  • P. P.

    Infelizmente, TRUE.

  • Eremita

    O Ouriq não precisa de trolls.

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